10 de jul de 2019

Recordações que nos fazem chorar




     Na tarde de ontem uma senhora, a qual já é minha freguesa de roupas, que doo a ela e aos filhos, veio saber se eu tinha mais alguma peça, pois ela, às vezes consegue vender algumas para juntar um dinheirinho a mais.
 A filha adolescente veio junto, uma menina muito bonita que se bem cuidada seria uma princesa. Ela me contou que no final de semana haveria uma festa no salão do colégio para uma confraternização da turma, porque os alunos iriam para outros colégios e outros ficariam sem estudar.
Percebi que ela estava querendo me dizer mais com a sua história, e por isso lhe perguntei:-
     -E você está animada com a festa?
Ela ergueu seus lindo olhos cor de mel, e me respondeu:
    - Eu gostaria muito de ir, mas nem sapatos eu tenho, pois a mãe só compra tênis, que serve para a escola e outros lugares, mas para uma festa não. As meninas estão se preparando há muito tempo, por isso, nem penso mais no assunto.
   Olhei para a mãe dela, que estava de cabeça baixa, estava com vergonha do que a filha me contou. Acabei ficando sem graça e lhe disse que iria tentar ajudar, pedi a ela que passasse em minha casa no dia seguinte.
    Fiz o impossível para conseguir algumas roupas e sapatos, como não tenho filhos adolescentes, procurei uma amiga que tem duas meninas da mesma idade dela. Minha amiga ouviu a história e se comoveu, assim como eu. Acabei trazendo muitas roupas para a garota.
   Na hora marcada ela chegou em minha casa. Mostrei um lindo sapato, ela vibrou de alegria, aí fomos vendo as roupas. Tudo ficou maravilhoso, então pedi a ela, que no dia da festa viesse pronta para darmos um jeito no cabelo. Assim, no dia da festa ela veio com a mãe, estava mais linda do que eu havia suposto que ficaria. O cabelo um pouco preso para aparecer os brincos. Olhei a imagem dela refletida no espelho e minha mente viajou para uns anos antes, dizem que devemos controlar nossas emoções, mas nem sempre conseguimos, as lágrimas rolaram intensamente sobre o meu rosto, chorei e soluçando pedi desculpas e um tempo para me recompor. Ela me perguntou o porquê do meu choro tão sentido?
E, já mais calma e sem chorar contei a história, que naquele momento voltara em minha memória.
Eu fazia o curso de magistério e a formatura era organizada durante os anos em que fazíamos o curso, havia uma mensalidade para os gastos do dia da formatura, mas nestes gastos não entravam vestido, sapato, acessórios e arrumação de cabelo. A formatura era muito bem planejada, pois é um curso do qual saímos com diploma e já podemos lecionar, depois de quatro anos somos professoras, o curso superior vem após, mas muitas já estão trabalhando em escolas.
  No dia marcado, haveria missa e, em seguida a colação de grau, quando o pai acompanhava a sua filha. E lembro como se fosse hoje, uma colega chorando na porta da igreja, quando ela chegou com o pai, estávamos nos organizando para entrar na igreja em fila, e cada uma acompanhada pelo pai ou pela mãe. Quando ela viu que todas estavam bem arrumadas, e todas calçando sapatos pretos, ela soluçava, as nossas professoras foram tentar ajudar, mas não houve jeito, e nem dava mais tempo para nada, ela e o pai estavam de chinelos de dedo. Estavam bem arrumados, mas não tinham sapatos, quem sabe se ela tivesse nos falado ou confiado em alguma colega, tudo estaria arranjado, mas infelizmente o final foi triste, ela não quis entrar. Recebeu o seu diploma em outro dia, na Escola.
Este fato abalou a todos que ali estavam, jamais esqueci deste dia.
   Quem sabe se ela confiasse e aceitasse que outra pessoa arrumasse o sapato para ela, tudo ficaria bem. Sei que ela se formou e estava lecionando, mas nunca mais a vi. Ainda me dói na alma o que senti naquele dia da minha formatura. Éramos em duas grandes turmas e todas ficaram sabendo do ocorrido e tudo seria diferente se ela tivesse um par de sapatos, foi lamentável.

12 comentários:

  1. Que lindo gesto de amizade e solidariedade que te fez voltar ao tempo da formatura e o acontecido!
    Gostei de ler! Bjs,chica

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  2. Muito bom texto!!

    Beijos e um excelente dia!

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  3. Uma bela história... que nos faz pensar... em como nós, por vezes somos as nossas circunstâncias... elas nos empurram para um ou outro sentido de vida... muitas vezes, ainda temos o poder da escolha... mas muitas outras vezes, a realidade impõe-se a todos as escolhas possíveis... quando as situações de algum tipo de carência nos levam ao limite... e carências existem de toda a espécie... pois nem as maiores riquezas estão a salvo de infelicidade, motivadas por alguma carência... estou-me a lembrar da família Onassis, por exemplo...
    Adorei! Como deve ter sido bom, aquela sensação de poder ter proporcionado um dia memorável, para aquela adolescente, numa situação sempre tão marcante... não podemos ajudar todos... mas se tivermos hipótese de ajudar uma pessoa que seja... essa boa acção, se propagará infinitamente, reflectindo-se na vida e acções dessa pessoa... para ela mesmo, e para todos os demais com quem ela se relacionará ao longo da vida...
    Beijinho! Feliz domingo!
    Ana

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  4. Histórias de uma solidariedade enorme. E muito bem contadas a ponto de me emocionar. Obrigada.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  5. Boa noite!
    Hoje senti saudade de visitar os amigos e as amigas blogueiras. Ando um pouco afastada das visitas, a saúde não anda muito legal, mas com fé em Deus estou superando. Nada grave, só a tendinite que me prejudica teclar.

    Certo dia,
    Passou uma criança e achou que aquela flor era parecida com ela: bonita, mas sozinha.
    Decidiu voltar todos os dias.
    Um dia regou, outro dia trouxe terra, outro dia podou, depois fez um canteiro, colocou adubo...
    Um mês depois, lá onde tinha só pedras e uma flor, havia um jardim!..."

    Assim se cultiva uma amizade
    E como nem sempre a distância nos
    permite cultivar as amizades como gostaríamos, espero que esta mensagem possa ser um pouquinho de adubo, para que a nossa amizade nunca morra por falta de cultivo.
    Parabéns pelo post, sempre com bom gosto e criatividade.
    Tenha um fim de semana feliz e abençoado. Beijo no coração.


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  6. É curioso como um ingrediente tem muito, muito sabor com no rosto de meu pai desempregado agora em portugal. Sim, muitos, muitos desempregados agora, muitas sopas dos pobres tambem. Muita tristeza em nosso povo tugalandia agora. Que pensam nossas pessoas agora? Muito medo, muitas sopas dos pobres e nada do nado do trabalhos e o Problema. Que vai fasser tudos? Nada?

    Abaixo o merda do putugal, o PIOR merda no mundo! Até os macacos não respeitam putugal. Putugal o nova provincia Espanhola proximamente :)

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  7. Marli emocionante e ao mesmo tempo edificante a tua história. Confesso que me emocionei, talvez porque conheci e vivi lance idêntico. Ou talvez porque serei muito emocional. De resto é bom conhecermos muitas experiências da vida, que tem uma grande componente sociológica que procuro cultivar. De um modo geral nos teus posts, pode ser encontrada essa componente, como aqui neste.
    Bejs

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  8. Adorei teu comentário lá! Lindo! bjs praianos(acabo de chegar !!!) chica

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  9. OI MARLI!
    QUE ATITUDE LINDA E SENSÍVEL A TUA, VIAJASTE NO TEMPO E FOI COMO SE LAVASSES A ALMA POR ALGO QUE TE MARCOU EM TUA JUVENTUDE.
    FALASTE CERTO, SE LÁ ATRÁS AQUELA MENINA TIVESSE CONFIADO, TERIA MUDADO A HISTÓRIA DELA.
    ABRÇS

    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  10. Boa noite, Marli!
    Gostei desta sua crônica, “Recordações que nos fazem chorar”, cujo início diz bem da sua solidariedade (suas doações de roupas para pessoas pobres). Uma crônica que diz muito de sua sensibilidade. Para os que não a leram, digo-lhes que a leiam com a atenção que merece. Parabéns!
    Uma semana de luz e paz, Marli.
    Um abraço.
    Pedro

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  11. Marli, passei para dar uma olhada no teu blog e que grata surpresa... Já de primeira, uma postagem tão cheia de caridade, amor ao próximo e sensibilidade, em um Mundo onde a maioria das pessoas teimam em inventar essa tal "zona de conforto" (que na realidade nem existe), só para que não tenham de se preocupar com os mais necessitados.
    Prazer em lhe conhecer!!!
    Douglas

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  12. E como é lamentável que toda a gente não tenha condições mínimas para estar decentemente vestida em eventos capitais como esses. A solidariedade pode salvar o momento, não é tudo, mas já é muito.
    Magnífica crónica, gostei imenso.
    Marli, continuação de boa semana.
    Beijo.

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