Eu
estava andando pela rua um pouco pensativa. Quando me tornei assim? Sempre
fechada, sozinha. Como as pessoas me irritam. Eu não pertenço a este mundo, é
como se houvesse um acordo tácito entre ele e eu. O acordo demorou para
acontecer. Antes eu era apontada, zombada por meus trajes negros. Agora? Tentam
imitar. Espartilhos! Corpetes! Coturnos! Tolos... Eu precisava de um mundo só
meu.
Olhe,
pessoas vem vindo pela rua deserta e mal iluminada. A agústia invade minha
mente, meu corpo se sente sufocado. Fobia social? Pânico? Chamem como quiserem.
Olho ao meu redor, procuro algum lugar escuro onde me sinta segura. Algum lugar
obscuro onde eu me reencontre. Não há nada, só becos e nada mais. Mas com o que
eu me depararia ali? Espere, há um prédio antigo mais a frente. Talvez se eu
andar mais rápido consiga entrar antes que as pessoas cheguem perto.
Risadas.
Abaixo a cabeça e acelero o passo. O vento bate com força contra meu corpo. A
imagem do meu sobretudo se armando como uma capa de vampiro preenche minha
mente. Meus coturnos, meia-canela, estão desamarrados. O cadarço se arrasta
pelo chão como correntes de um presidiário em fuga. Concentro-me
para não pisar em cima deles.
Alcanço
o prédio, finalmente. Parece abandonado. A porta, inutilmente trancada,
encontra-se quebrada. Passo pela fresta. O tule da minha saia arranha minhas
coxas pálidas que nunca pegaram sol.
O
prédio internamente estava coberto de poeira que irritou meu nariz. Espero.
Quase que instantaneamente meus olhos se acostumam com a tão adorada escuridão.
A agonia vai embora, meu corpo vai lentamente relaxando e só então percebi o
quanto minha respiração estava acelerada. Minhas costelas doiam com a pressão
das barbatanas de aço do espartilho.
As risadas,
que estavam cada vez mais altas, começaram a se afastar.
Pela
primeira vez me perguntei onde eu havia entrado. Era algum tipo de recepção. Do
que será?
Uma luz
fraca me atraiu para dentro de uma sala. Ao seguir a luz descubro a resposta
que queria. Era uma biblioteca.
Uma
vela grossa tentava iluminar as estantes de livros que a cercava. E, talvez,
pela ironia do destino, ao me esconder de pessoas, o que eu encontro? Mais
pessoas. Um garoto lia ali, sob aquela luz trêmula.
Fiquei parada,
apenas observando. O menino demorou para notar minha presença, que se camuflara
no silêncio carregado de segredos das inúmeras vozes que aquele cômodo
guardava. Ao afastar o olhar das palavras que o envolviam, ele me viu. Depois
que o espanto em seu rosto se dissipara, direcionou seu olhar para um banco ao
seu lado, no qual me sentei.
Aquela
fora a primeira noite que passamos ali. Eu, Joseph, este era seu nome, e as
inúmeras vozes. Era maravilhoso. Era como se o mundo que eu tanto almejava
estivesse ali, escondido por aquelas paredes. As coisas tristes, melancólicas,
tornavam-se belas naquele lugar.
Era
inacreditável. Meu mundo existia!
Na
primeira noite, o medo me dominara na hora de sair de lá. Ao atravessar a
porta, olhei para todos os lados para ver se havia alguém. Foi então que eu
percebi que nunca mais sairia do meu mundo e o medo se dissipara, pois a voz de
Poe ecoara dentro de mim: “Noite, noite e nada mais”. O silêncio da noite fora
quebrado pela minha risada e por nenhuma outra.
Passaram-se
meses assim, até que tentaram arrancá-lo de mim.
O
prédio fora comprado. Em pouco tempo de reforma as prateleiras de livros seriam
substituídas por prateleiras de roupas, o silêncio por vozes histéricas e a
escuridão da noite por luzes das vitrines. Será que venderiam corpetes?
Tolos...
O meu
medo, meu pânico, minha fobia, eu não sei o quê, mas o quê quer que seja voltou
aos poucos.
Eu
estava, novamente, andando por aquela rua. Pensei que encontraria pessoas
curiosas olhando através das vitrines da nova loja, mas, para o meu alívio, a
rua parecia ser apenas um cenário abandonado por seus atores.
Assim
que eu passei pela frente da vitrine, uma voz ecoou dentro de mim.
“Por
que é que as coisas têm que ser assim? E o que faz a felicidade do homem se
tranformar também a fonte de sua desgraça?”. Fora Werther que abrira as portas
para todos os meus fantasmas. Goethe, Baudelaire, Nietzsche, Álvaro de Campos,
Augusto dos Anjos, todos bradavam dentro de mim.
“Vivendo
ou morrendo, que importa?”
“Queria
abrir-me uma veia que me alcançasse a liberdade eterna”
“Se
queres matar-te, mata-te...”
“Nunca
mais as goteiras cairiam
Como
propositais setas malvadas
No frio
matador da madrugada
Por
sobre o coração dos que sofriam”
“Esgotamos
todas as nossas forças em satisfazer nossas necessidades, que apenas tendem a
prolongar uma existência miserável; quando constato que a tranquilidade a
respeito de certas questões não passa de resignação sonhadora, como se a gente
estivesse pintando as paredes entre as quais jazemos presos com feições
coloridas e perspectivas risonhas, tudo isso me deixa mudo”
“De que
te serve o quadro sucessivo das imagens externas a que chamamos mundo?”
“Que
resta das cabeças que pensaram?
E
afundado nos sonhos mais nefastos
Ao
pegar um milhão de miolos gastos
Todos
os meus cabelos se arrepiam”
“Soturnos
funerais deslizam tristemente
Em
minh’alma sombria. A sucumbida Esperança
Lamenta-se,
chorando; e a Angústia, cruelmente
Seu
negro pavilhão sobre meus ombros lança!”
“Não
saúdes como eu a morte em literatura”
“E
estais velha! De vós o mundo é farto,
E hoje,
que a sociedade vos enxota,
Somente
as bruxas negras da derrota
Frequentam
diariamente vosso quarto!”
“Todos
os mortos pode ser que sejam
Vivos
noutra parte
Todos
os meus próprios momentos passados
Pode
ser que existam algures”
Eu já
estava em casa quando todas as vozes foram se calando e Álvares de Azevedo
usurpava o lugar delas para embalar o meu sono.
“O que
sofres? Que dor desconhecida
Inunda
de palor teu rosto virgem?
Por que
tu’alma dobra taciturna,
Como um
lírio a um bafo de infortúnio?
Por que
tão melancólica suspiras?”
Adormeci.
Mas, no meio da noite, algo me acordou. Gosto de pensar que Joseph passara a
mão em meu rosto. Quando levantei, chamei por ele e a resposta que recebi
estava sobre meu criadomudo. Um livro. Mas não um livro qualquer. Sua capa de
couro liso, sem título algum, protegia páginas em branco, exceto a primeira, na
qual estava escrito:
“Sophie,
O mundo
que conhecemos juntos nunca acabará. Não deixe de visitá-lo. Aceite este livro
e o manterá nosso refúgio sempre por perto. Escreva aqui um conto fantástico
sobre um amor proibido, protegido pelos olhares de uma fada peregrina.
J.”
Fernanda Andrucho