27 de jul de 2018

Intervenção


  Em conversa com amigos, durante um agradável café, comentamos sobre o assunto Intervenção. Interessante notar que muito se fala sobre o assunto, mas sequer sabemos o significado do termo, primeiramente deveríamos estudar ou buscar o que ele representa, não no sentido etimológico, que seria a origem e história do vocábulo, passando para como aconteceu a sua evolução, no mundo da gramática, mas no seu sentido real, na existência dentro de nossa vida, nossa comunidade e no meio social.
Dependendo de como é empregada, essa palavra apresenta diversos significados.
Intervenção é o substantivo feminino que significa o ato ou efeito de intervir e indica uma intercessão ou mediação em alguma situação adversa, e intercessão significa literalmente mediar e defender a causa do outro, ser um elo.
 Precisamos de uma Intervenção?
Certamente, nós brasileiros precisamos com urgência de uma Intervenção na Educação, investimento no treinamento e capacitação de mais professores ou na modernização das escolas, alteração do currículo escolar e pessoas preparadas para os desafios cada dia maiores, bem como melhorias nas condições de trabalho dos professores e todos aqueles envolvidos na Educação.
Atualmente, a questão da Educação no Brasil vem mostrando um relevante crescimento no que diz respeito ao analfabetismo. O Brasil não conseguiu atingir a sua meta, sendo assim, o nosso país continua descumprindo a própria Constituição, a qual diz que todos têm direito à cidadania, mas como ser cidadão sem saber ler nem escrever? Temos que garantir que não haja mais novos analfabetos. Segundo Rui Aguiar, gestor da UNICEF- “Não há como resolver o problema do analfabetismo se não alfabetizarmos as crianças na idade correta.” Nosso país somente será uma nação quando os nossos governantes se conscientizarem de que um futuro promissor está intimamente ligado a uma educação digna e de qualidade. Essa necessidade  e preocupação deve acontecer em todos os níveis da Educação.
 Podemos também falar de Intervenção na Saúde Pública, que necessita de políticas mais efetivas, isto é, que promovam melhores condições de vida e diminuam o número de doenças. Fazer com que a saúde seja uma das prioridades do ser humano.
A população brasileira não está conseguindo levar a saúde para o topo da lista. O direito à saúde decorre do princípio da dignidade da pessoa. “Não é uma concessão da sociedade ou do Estado. Apesar disso, no Brasil, o direito à saúde e outros direitos só foram reconhecidos como direitos universais a partir da Constituição de 1988, como fruto de muita luta popular. A saúde, juntamente com a previdência e a assistência social e auxílio desemprego constituem a seguridade social.” (Blog - Tudo sobre a saúde).
Precisamos também de Intervenção Cultural.
Intervenção na Cultura é empregada em várias áreas, pois não há uma única definição para o termo, o termo cultural abrange diversos setores culturais.
Muitos brasileiros, infelizmente, hoje estão vivendo a exclusão cultural, pois estão inseridos em um meio, de difícil acesso a museus e teatros. Segundo Fernanda Montenegro:-“Nossa deformação cultural nos faz pensar que cabe a um segmento da sociedade levar cultura a outro. Nós temos que buscar a cultura no povo, dando condições para que ela brote.” A falta de integração e acessibilidade impossibilita o acesso de grande parte da população.” Isso deve-se, principalmente, ao não incremento dos subsídios aos municípios, de maneira a deixar as ferramentas culturais restritas aos grandes centros urbanos”. A maioria da população não tem condições financeiras para fazer parte desse grupo, que é privilegiado com a cultura em seus diversos campos.
A intervenção pode haver em qualquer área, que esteja necessitando dela, um exemplo muito sensível é a intervenção humanitária, que acontece quando há acidentes naturais,quando a pobreza é ameaça à vida, e o melhor, o intervencionismo pode ser de um estado para outro, e aí podemos notar a grande mobilização de todos para ajudar em tudo que for preciso para que a vida siga dentro da normalidade. Importante saber que há diferença entre Assistência Humanitária e Intervenção, pois quando um país se recusa a auxiliar o outro, a intervenção o obriga. É claro que existem vários fatores que implicam aqui, mas é um assunto para outra ocasião.
Importante saber que em algum tempo e, em algum setor haverá a necessidade de uma Intervenção.

11 de jul de 2018

A velhice nos torna conscientes ou covardes?

Imagem da Internet



Ouvindo Lendro Karnal falar sobre o tema “A Consciência nos torna covardes”. Em sua fala sempre muito filosófica parei para refletir, quando falou:
-Quanto mais eu envelheço, mais eu tenho medo. A consciência nos torna covardes.
Quando envelhecemos jamais viajamos sem nosso arsenal de medicamentos, casaco, óculos extra, até um bom pedaço de papel higiênico, no caso de não encontrar onde eu precisar dele, o guarda-chuva se faz presente com mais frequência, objeto que não vemos nas mãos de um jovem. Dá-nos a impressão de que o guarda-chuva revela que somos velhos, se chover, o jovem com certeza, irá escapar rapidamente da chuva sem sofrer nenhum pingo.
Sendo assim a ignorância é uma bênção, “quanto menos eu soubesse dos riscos do mundo, melhor eu faria.”
Sem ser prepotente e discutir as palavras do “respeitável Leandro Karnal”, mas cabe aqui uma pequena opinião.
A vida tem riscos e sempre terá, tropeçamos muitas vezes, sofremos e aprendemos, por isso não diria que nos tornamos ignorantes e covardes, porém diante da maturidade adquirida pelas diversidades da vida nos tornamos mais cautelosos. Ignorante seria eu, com mais idade sem ser um bom nadador, sem ser um bom conhecedor das piscinas, jogar-me em um belo salto como se tivesse dezoito anos. O corpo mudou, a resistência já não é a mesma. E sim, devemos temer os perigos que hoje nos são claros. “Envelhecer é como velejar, você não pode parar o vento, mas, pode direcionar a vela para que o vento lhe seja favorável.” E, vamos velejando com cuidado para que o vento não nos leve para o perigo, e, como envelhecer não é algo fácil, com a maturidade conseguiremos manter a vela sempre bem direcionada. A velhice é o nosso comprovante de experiência, a qual poderemos usar em qualquer situação, onde seja necessária. É normal que tenhamos medo de envelhecermos, porém com o passar da idade adquirimos tanta sabedoria, experiências em todos os campos da vida, e mais, conscientes de tudo que nos rodeia, e seria inoportuno afirmar que nos tornamos covardes por termos esta consciência.
Clarice Lispector já dizia:
- “Eu tenho medos bobos e coragens absurdas.”
Podemos com o passar da idade possuir muitos medos, naturais pelo processo do tempo que vivemos, mas a coragem nos fará grandes e absolutos.
Karnal diz que nos tornamos covardes com a velhice, e Ghandi diz:
“O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.

2 de jul de 2018

A Dor do Abandono


   
Foto: Google

  Hoje, um dia lindo, domingo com a família, almoço demorado,longas conversas. Todos os dias do ano deveriam ser assim,muita paz junto à família. Mas nem tudo é paz para muitos,principalmente aqueles que passam por abandono.
Na BR, pela qual passamos quase que diariamente, vemos muitas coisas, nem há necessidade de citar frequentes acidentes, caminhão tombado, cargas saqueadas, mas há outro fato que se tornou corriqueiro, o abandono de cachorros à beira do asfalto, os pobrezinhos ficam desesperados, primeiro ficam quietos para ver se o “dono” vai voltar, depois de algum tempo percebem que estão por conta própria e, aí, a situação se agrava. Hoje, assistimos a mais uma cena triste, um pequeno cachorrinho de cor preta, à beira da estrada, em estado lastimável, foi visto por estar caminhando, à procura de comida, pois sua cor se confundia com o asfalto. Provavelmente, havia sido abandonado há dias, pois estava bem desidratado.
    O que fazer? Há tantos casos iguais todos os dias, mas se pudermos fazer a diferença para um, já valeu a pena ter passado nesse lugar, na hora certa. Sem a intenção de igualar o abandono de um animalzinho com o de um ser humano, porém sabemos que o abandono dói para todos, e vai muito além disso, é como esquecer, não dar importância, penso que seja a falta mais cruel da humanidade. O sentimento de abandono deve ser um dos mais difíceis de ser trabalhado. Nos asilos há muitas pessoas que lá são deixadas e após abandonadas. Já ouvi filhos dizendo:- Meu pai está melhor no asilo que em casa, lá ele está bem cuidado, há horário certo para tudo, sequer percebem que seu pai adoraria estar perto dos netos, e com sua família.
   Em uma visita a um asilo, uma senhorinha me pediu várias vezes, que pedisse ao seu filho para visitá-la. O recado foi dado, porém o filho nunca foi vê-la, a tristeza faz com que os abandonados  deixem de ter alegria na vida. Os idosos não foram abandonados porque ficaram velhos, mas sim porque perderam o interesse por ele, triste assim.
     Há diversos tipos de abandono e todos têm punições previstas no Código Penal. No entanto podemos notar que muitos abandonos não são vistos ou quem sabe ignorados.
    Sabemos que muitas crianças são abandonadas ao nascer, ou simplesmente, descartadas em qualquer lugar,pessoas com necessidades especiais também são rejeitadas por aqueles que se denominam família.
    Filhos que afastam seus pais do convívio familiar por estarem dependentes, por não saberem mais como se portar à mesa.
    Deveríamos seguir o exemplo da China e Japão onde a velhice é sinônimo de sabedoria e respeito, sua família é o seu abrigo seguro.
    No século XVIII, o idoso era tido como patrimônio e não encargo, quem sabe possamos voltar a esse passado, pois hoje só lhe resta a exclusão e a marginalização.
    O filósofo Confúcio (551-479 a.C.), profundo conhecedor da alma humana, que externou conceitos de moral e de sabedoria, sempre aconselhou o amor na família e o respeito com os idosos.
    Segundo Silvana Sidney Costa Santos, Professora da faculdade de Enfermagem N. S. das Graça, o amor dos filhos aos pais envelhecidos, a assegurar-lhes maior proteção e segurança na última idade do seu processo de viver, compreende uma das mais sublimes ações do ser humano para consigo mesmo e para com a sua espécie, ou seja, para com a sua geração e para as gerações futuras, perpetuando assim, o amor intenso e especial entre pais e filhos.
     No Ocidente, infelizmente é assim que a sociedade vê o envelhecimento, “Quão penoso é o fim do ancião! Vai dia a dia enfraquecendo: a visão baixa, seus ouvidos se tornam surdos, o nariz se obstruí e nada mais pode cheirar, a boca se torna silenciosa e já não fala. Suas faculdades intelectuais se reduzem e torna-se impossível recordar o que foi ontem. Doem-lhe todos os ossos. A ocupação a que outrora se entregara com prazer, só a realiza agora com dificuldade e desaparece o sentido do gosto.” (Beauvoir, 1990).



26 de jun de 2018

A Síndrome do Isolamento



       Atualmente, muito se fala sobre isolamento das pessoas, e a cada dia há um aumento assustador de indivíduos que preferem viver isolados a terem que enfrentar seus medos fora de casa. Há a situação inversa também, as que preferem ficar sozinhas, quem de nós já não preferiu somente a nossa companhia, para meditar, sentir saudades, ouvir uma boa música, ler um livro, mas sem a companhia de outra pessoa, podemos dizer que isso é normal e nos faz bem, porque precisamos de um tempo só nosso, porém, precisamos tomar cuidado quando o isolamento social possa refletir doenças, como depressão, bullying, doenças que devem ser analisadas e medicadas.
    O isolamento social também conhecido por “social withdrowal”, de forma,às vezes  até involuntária, a pessoa acaba se afastando cada vez mais, até ficar totalmente excluída do convívio social.
   Certa noite na TV Cultura, assisti a um capítulo da série TERRADOIS, apresentada pela Maria Fernanda Cândido, série que une dramaturgia e psicanálise. Em um certo momento ela falou sobre a Síndrome de Hikikomori. No Japão, significa literalmente a síndrome do isolamento em casa. Parece algo tão distante de nós, portanto, até terminologia para os sintomas já existem. O termo Hikikomori, foi designado pelo Doutor Tamaki Saito, no ano de 2000, para indicar pessoas, no Japão que se isolaram completamente, de tudo e de todos, não saem de casa para nada. Convivem, se assim podemos dizer apenas no mundo virtual e fazem tudo através dele, jogos, compras, conversação, e para isso mudaram sua rotina de vida, passaram a dormir de dia e passar acordados à noite, usam sua casa como uma prisão, no entanto sem estarem presas.
   Foram feitos vários questionamentos, será que a pessoa não deseja mais sair de casa ou simplesmente não consegue por alguma razão que ela desconhece.
     Essa síndrome foi percebida primeiro no Japão, mas com a explosão da mídia, outros países estão sendo afetados. Na França “ Síndrome do Isolamento Social Agudo”. Os espanhóis, descrevem como a “Síndrome da Porta Fechada”. Muitos pais preocupam-se com seu filhos fechados em seus quartos, a síndrome da porta fechada, muito comum entre alguns jovens . Muitos pais reclamam que seus filhos não fazem as refeições à mesa, junto à família, e quando a refeição é deixada do lado de fora da porta, fica a dúvida se estão se alimentando, porque nota-se que alguns vão às aulas com muita resistência, e ainda mais não fazem a higiene pessoal, e ao voltar da escola correm se fechar novamente. Passam a demonstrar dificuldades para acompanhar os estudos, ficam alienados, pois não conseguem tomar decisões e assim começam a se afastar cada dia um pouco mais.
Para sair do isolamento social é muito importante que as pessoas se abram a novas experiências, conheçam novas pessoas, façam amizades, porém torna-se muito difícil que uma pessoa o faça por vontade própria. Acima foi citado o isolamento de jovens, no entanto, isso reflete o mundo de pessoas de todas as idades.
   Os nossos jovens estão se direcionando para o mesmo caminho ou quem sabe já estejam nele, pois quanto mais tempo permanecem nas redes sociais, mais aumenta o risco de se habituarem ao isolamento.
Há épocas em que precisamos nos isolar para nos sentirmos livres, mas precisamos estar bem conscientes desse estado.
De acordo com a página in·tel·li·gent·si·a - CIÊNCIA E ALÉM-
“A tecnologia digital está aumentando nossa tendência de isolamento há tempos, mas hoje em ritmo sem precedentes. Na década de 1990, estudiosos passaram a chamar a contradição entre a maior oportunidade de manter contato com outros e a real ausência de contato humano de “paradoxo da Internet”.
    É um paradoxo visível, pois atualmente, até podemos observar casais de namorados  almoçando juntos e se comunicando através de mensagens com o celular.
    “John Cacioppo, diretor do Centro para Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago, o principal especialista mundial em solidão, diz em seu livro Lonliness, lançado em 2008, que a epidemia de solidão está afetando as funções básicas da fisiologia humana.”
    A responsabilidade de soluções para que haja mudança, nesse quadro, pertence não apenas aos pais, mas a todos que estão preocupados com a solidão social.

13 de jun de 2018

O Trem em minha Vida






    Para falar em ferrovia, temos que falar da máquina de ferro. A maioria das pessoas viajava de trem, o povo, personalidades, autoridades, claro que havia a primeira e segunda classe. Na minha adolescência, o apito do trem significava muitas coisas, primeiro a alegria da chegada de cargas, pessoas, correspondências. Eu morava próximo à linha do trem, ouvia-o a distância, e, muitas vezes, juntamente com amiguinhos que por ali residiam, ouvíamos, e só quem ouviu vai entender esta onomatopeia: piui! piui!
O apito servia como marcador de tempo ou até instrumento para avisar a população sobre alguma calamidade; como relógio, as pessoas sabiam de onde vinha o apito e calculavam a hora do dia, e, quando o último sibilar acontecia, todos sabiam que era tempo de silenciar e repousar. Na enchente de 8 de julho de 1983, a Maria-Fumaça se pôs a acordar os moradores para que se salvassem do aguaceiro e auxiliassem seus amigos. Interessante lembrar o poema de Manuel Bandeira, “Trem de Ferro”, o qual usei com um grupo de crianças para fazermos o barulho das rodas nos trilhos de ferro. A escolha das palavras e repetição do verso “Café com Pão”, “Café com Pão”, a sonoridade das palavras do verso, produziam uma sequência de sons que nos reportavam ao barulho proveniente do deslocamento de uma locomotiva sobre os trilhos. O guarda-chaves manobrava os desvios e entroncamentos dos trilhos, trabalho importante e de grande responsabilidade, e quando o trem se aproximava de um trilho com outro destino, a máquina de ferro simplesmente deslizava feito serpente, à outra linha. Em tempos de chuva ele usava uma enorme capa para se proteger. Foram tempos repletos de alegria, víamos vagões com ripamentos separados por grandes frestas para o ar entrar, eram os vagões gaiolas, pois viajavam carregados de animais, e sempre havia alguma pessoa meio dependurada; era o guarda-freios, responsável por vigiar e manobrar os freios dos vagões segundo instruções do maquinista, e cuidava para que tudo ficasse bem. Os vagões que transportavam madeira iam totalmente abertos. A Estação ainda hoje é um marco histórico, foi inaugurada em 1942, um pátio apenas, de um lado, Porto União, SC, e de outro, União da Vitória, PR. Quem descia do trem e precisava atravessar para o outro Estado passava por um túnel, que na época fervilhava a imaginação das crianças. Era uma atração, aos domingos, passear com os pais e atravessar pelo túnel. Acima de nossa cabeça o enorme relógio, o som do sino da estação se sobrepunha aos outros, quase nada se ouvia a não ser o maravilhoso rebimbar do bronze, que era tocado pelo agente do trem, avisando a saída, era hora de embarcar. Ele usava um quepe que o diferenciava dos outros funcionários, pela cor. A plataforma era imensa e repleta de pessoas que iam e vinham. A ferrovia sempre teve muita importância para o Brasil e demais países, e nossas cidades estavam sempre em segundo lugar em faturamento, até 1970, a partir de quando, infelizmente, começou a declinar até o total abandono.
      A Maria-Fumaça, a famosa 310, ainda é a atração em nossas cidades. Houve momentos de glória, quando ela foi posta em movimento e fazia viagens turísticas até a Estação de Engenheiro Melo. Ao chegarmos, tudo estava bem organizado e alguns vendedores locais aproveitavam a chegada de cada jornada para vender os seus quitutes, havia de tudo. Com certeza, a 310 vai voltar aos trilhos, para nos levar e matar a saudade de viagens maravilhosas, verdadeira aventura dentro do vagão de passageiros.
     Com onze anos de idade, fiz uma viagem de trem até Ponta Grossa, eram quatro lugares, assentos virados de frente para podermos conversar. O chefe de trem, bem uniformizado, passava pelos bancos, para conferir se tudo estava correto, e picotava as passagens, havia um senhor de quepe de cor cáqui, que vendia guloseimas, às vezes ficava sentado na última poltrona do trem. Fantástico lembrar o balanço do trem, o barulho da fricção dos trilhos, a alegria de todos,  a paisagem que podíamos observar emoldurada através da janela: colinas, planícies, rios, lagos, casas, animais, o trem viajava vagarosamente, literalmente arrastando-se sobre os trilhos, serpenteando rios, colinas, e nossos olhos  tudo gravavam, pois  a máquina de ferro não corria, o que era ótimo. Podíamos ver, nos trilhos paralelos, os turmeiros, como os conhecíamos na época, iam de um trecho a outro de vagonete, movido por eles mesmos.  Com seus braços fortes faziam a troca de dormentes, limpavam os trilhos, juntavam as pedrinhas que sempre se espalhavam além da linha, era uma equipe de funcionários permanente no serviço.
    Os trilhos do trem ainda hoje representam uma viagem possível, mesmo na imaginária.

23 de mai de 2018

Esforço e Competência

Foto da Internet


    O final do intervalo das aulas era anunciado pelo sinal, ainda do tempo da sineta, que era grande, pesada e dourada, feita de bronze, fora doada à escola. Começaria a aula de biologia, disciplina que a maioria gostava, principalmente, na parte em que o professor explicava sobre o aparelho reprodutor humano. Havia um aluno que sempre se atrasava, o professor era austero na observância das normas e não aceitava atraso de ninguém, principalmente em suas aulas.Era um colégio particular, onde os alunos vinham de famílias abastadas, ele estudava ali, graças a uma bolsa integral, que lhe fora ofertada pelo diretor, pois era um aluno inteligente, estudioso, pesquisador, questionador, possuía tudo que um professor aprecia em um aluno promissor.
O problema é que Lucas, normalmente chegava com atraso em suas aulas, e o mestre disfarçadamente o deixava entrar, não questionava nada para não despertar a atenção dos demais.
Lucas rapidamente se inteirava do assunto da aula e começavam os seus questionamentos, o professor tinha admiração pelas suas dúvidas, pois com elas ele acabava tendo assunto para várias aulas. Alguns alunos, não davam a mínima atenção às aulas, mas Lucas o fazia por todos. Trazia em seu caderno dúvidas de estudo feito fora do horário, com livros da biblioteca, tinha satisfação em poder aprender sempre mais.
Seu professor o observava, sentia orgulho e o incentivava a ir além, porém o problema do atraso continuava, e o preocupava. Tinha medo de saber o motivo e perder seu melhor pupilo.
     Assim, seguiam as aulas e o atraso do aluno, certa tarde, o professor foi à biblioteca para registrar uns documentos e percebeu que Lucas estava em uma mesa, no final da biblioteca, fazia questão de não ser visto por ninguém, enquanto se dedicava arduamente ao estudo. O professor se aproximou lentamente, e percebeu que o menino não havia saído para almoçar, pois havia uma fatia de pão atrás dos livros. Seu Luciano, o professor ficou por um longo tempo refletindo sobre o mistério que Lucas guardava para si, porém, tinha receio de que se perguntasse algo, o menino que já era reservado escapasse de seus olhos.
Virou-se lentamente e foi embora, mas pensou melhor e voltou para falar com a bibliotecária.
    - A senhora sabe me informar se aquele menino, frequenta assiduamente a biblioteca?
     - Sim, o Lucas lê tudo que há sobre biologia, faz pesquisa, anota, registra, mas nunca ultrapassa às 16horas, também não faz as refeições, como os demais, sinto pena dele, penso em oferecer comida a ele, mas percebo que ele não deixa chance para eu me aproximar.
O professor ficou mais intrigado, pensou em uma maneira de se aproximar do garoto para saber mais sobre ele.
 Programou-se para forçar um encontro, e na tarde seguinte foi ao encontro do garoto. Lucas estava no mesmo cantinho, absorto em seus estudos, nem percebeu a chegada do mestre.
     -Boa tarde, Lucas? Podemos conversar?
O menino fez que sim, com um aceno de cabeça, o professor sentou-se e fitou com carinho, aquele menino que parecia tão necessitado de tudo.
  -Lucas, pode me contar o porquê de seus atrasos em minhas aulas?
O menino mudou de cor, quis levantar-se e correr, mas por respeito ficou calado, pensando como falar, sobre algo tão pessoal.
Virou o rosto para o professor e despejou o que há muito tempo o entristecia. Contou que tinha um irmão deficiente, e que ele se revezava para atendê-lo, chegava atrasado porque tinha que esperar sua mãe chegar do hospital, onde trabalhava à noite como enfermeira, e que ele não voltava para casa para almoçar, porque era o único tempo que tinha para estudar, pois em sua casa não havia nem espaço.
O professor, segurou as lágrimas e prometeu a si mesmo, ajudá-lo a se formar e seguir em frente. As dificuldades não diminuíram, ao contrário, aumentaram, mas Lucas seguiu em frente, tendo um aliado ao seu lado.
    Atualmente, Lucas leciona bioquímica e presta consultoria a empresas com ações de recuperação de áreas degradadas.
    Casado com uma bióloga, pai de duas filhas, continua estudando, mas hoje tem o seu cantinho à luz do sol, em sua casa.
     Professor Luciano, tem como afilhadas as duas pequenas de Lucas, as famílias são unidas, a gratidão está sempre presente no coração e atitudes ao nobre e idoso professor. Todos moram no interior de São Paulo.

8 de mai de 2018

Deficiência Eficiente

Gabriel Metzler, foi meu aluno na adolescência


    Nosso mundo tem bilhões de pessoas e todas são diferentes, pois sabemos que somos seres vivos únicos, uma ave, uma flor, uma pessoa, cada ser vivo é único com suas peculiaridades, mesmo deficiente, ainda é um ser único.
     Juntando aos bilhões de criaturas no mundo, estão aqueles que nascem com alguma deficiência, e que dependem de sua família para viver, não sabemos como mensurar o grau de aceitabilidade em relação a nascer com deficiência ou ficar deficiente em certa altura da vida, devemos portanto termos a consciência de que deficiências graves e insuperáveis são a moral e espiritual,infelizmente para esses casos, não há solução ou superação.
     A história de Nick Vujicic, nos mostra literalmente que não temos problemas, ele nasceu sem as pernas e sem os braços. Afirmar que ele superou totalmente, não há como, pois, Nick quando tomou consciência de que não tinha bracinhos nem perninhas, sofreu, quantas noites seu travesseiro deve ter ficado ensopado de lágrimas do medo que sentiu, de sua incapacidade de sua desesperança. Tinha consciência de tudo porque não era deficiente mental.
    Aprendeu a escrever, mas foi proibido por lei estadual de assistir às aulas em uma escola regular. Estava muito deprimido, sofreu bullying e aos nove anos começou a pensar em suicídio, porém Deus não o abandonou, e houve a mudança através de um artigo de jornal, onde registrava a história de um homem que vivia com grande e grave deficiência, o que o levou a refletir, que ele não era o único a ter problemas.
    Hoje, Nickolas James Vujicic, é um pregador, palestrante motivacional e diretor de uma organização cristã sem fins lucrativos.
     Suas palestras são sobre a questão da deficiência e da esperança.
     Há centenas de exemplos sobre superação, outro exemplo de vida e superação quem nos dá é Gabriel, que aos quinze anos, em consequência de explosivos perdeu totalmente a visão do olho direito e parcial do esquerdo, anos depois acabou perdendo a visão da vista esquerda.
     Gabriel com muita determinação e coragem, seguiu sua vida, é claro que com dificuldade, e a cada dia seus “olhos” enxergavam mais e mais. Estudou, e hoje é engenheiro civil, MBA Internacional na Fundação Getúlio Vargas e The George Washington University (Washington, EUA) e curso em Harvard.
    E assim, ele seguiu em frente, já com passos largos, pois a falta de visão não o deixou abatido sobre uma cama, foi à luta, usando as palavras de Nick Vujicic:” A distância entre o sonho e a conquista , chama-se atitude”, podemos observar que Gabriel teve atitude, e foi por sua força e  garra, porque se ele não as tivesse, de nada adiantaria que os pais o incentivassem à batalha, e após reavaliar a importância da vida, Gabriel, juntamente com pessoas que comungam o mesmo sentimento, criaram o GAV – Grupo Alerta Vida. O GAV recebeu muitos prêmios, vale ressaltar que em 2000, foi premiado pela UNESCO.
     Ele foi para as mídias, possui um canal no YouTube com vários seguidores faz postagens semanais de vídeos, as visualizações crescem a cada minuto, o que nos mostra que são de grande valia para todos que querem “ver” além de “enxergar”, ou como dizia Saint Exupéry, “Só se vê bem com os olhos do coração”. Voltando às mídias, em uma postagem intitulada "Seja meus Olhos”, que foi compartilhada por Ricardo Amorim, o número de visualizações chegou a mais de cinquenta mil, significa que Gabriel está fazendo a diferença na vida de muitas pessoas. Paralelo a isso, ministra palestras em empresas, escolas, instituições, enfim para todos que querem obter um novo olhar sobre o Universo.
     Existem pessoas ousadas, mas Gabriel foi além, sempre com o objetivo de somar, escreveu e lançou um livro, cujo título é "Um Novo Olhar Para a Vida", afirmo que o conteúdo da obra, nos faz refletir sobre como vivemos, o que deixamos escapar pelo vão dos dedos, sem nos darmos conta de que tudo é efêmero.
    Hoje se destaca, como autor brasileiro pelo conteúdo de sua obra, que   é certamente composta por pensamentos fortes, que transformam os seus leitores. Segundo o filósofo Paul Valéry:” A felicidade tem os olhos fechados.”
Gabriel Metzler é feliz, pois seus olhos refletem a superação em sua alma.

28 de abr de 2018

Rir ou Chorar


   Há muitos fatos em nossas vidas, que nos levam a sentir tristeza, porém outros acabam nos fazendo rir, mesmo não sendo a intenção.

 Era finzinho de tarde, coletivos passavam apressados e lotados, Dona Cida, falava:

 - Gente, preciso pegar o próximo ônibus, porque quero escapar da chuva, e
ainda tenho um longo caminho até minha casa. Havia muitas pessoas nas mesmas condições que ela, o silêncio era assustador, mas ninguém ousava comentar nada, pois o cansaço era visível em todos os rostos, alguns olhavam fixamente para o chão, outros verificavam os coletivos que se aproximavam, na esperança de que parassem para que todos pudessem ir para suas casas. Nenhum parava, todos lotados, o condutor só fazia um leve aceno com a cabeça, confirmando a lotação.
  Dona Cida, estava revoltada e começou a xingar em voz alta. Falava até o que não devia, dava pequenos pulinhos demonstrando a sua indignação contra o serviço dos coletivos, pois ela jamais conseguira chegar em tempo para jantar com a filha, que a esperava saudosa.
 Cida, bateu tanto, e com tanta força, a sua sombrinha, no banco, que a quebrou ao meio.
 De repente, um senhor levantou-se irritado e passou um sermão nela.

Foi uma péssima ideia, pois a mulher descarregou a raiva incontida sobre o pobre senhor. Ele ficou sem ação e sem argumentos, pois ela nem deu chance para ele continuar. Os demais passageiros que esperavam pelo ônibus, se posicionaram em fila para o acesso, no próximo ônibus que se aproximava, a mulher tão preocupada em reclamar não percebeu a chegada dele. Quando viu era tarde, pois o ônibus estava lotado e fechara as portas. Cida tentou atirar uma pedra contra o coletivo, mas o impulso mal dado, fez com que a pedra caísse logo adiante. O ato agressivo foi criticado pelas pessoas, que faziam nova fila para embarcarem no próximo ônibus, a maioria das pessoas ignorava a tal senhora, que mais parecia uma louca desvairada, estava visivelmente estressada pela correria da vida diária, digna de pena, e tantos e tantos passam pelo mesmo dilema. Notamos que as pessoas reagem de maneiras diversas, enquanto Cida mostrava-se agitada e descontrolada outras pessoas ficavam caladas, introspectivas, remoendo seus pensamentos, lendo ou falando ao celular.

 Passavam os ônibus de todas as linhas, dona Cida mais calma, percebeu que precisava ficar atenta para embarcar no próximo ônibus. A fila era extensa, ela ficara quase no final, pois sua inquietação fizera com que perdesse um lugar mais à frente.
  Calou-se e seguiu para entrar no ônibus, percebeu que nem todos conseguiriam seguir viagem, pois o ônibus já vinha lotado, ela ficou posicionada de maneira que quando as portas se abriram ela conseguiu entrar, passando na frente de todos, o coletivo seguiu, mas a bolsa dela ficou pendurada fora da porta.
 Os gritos eram uníssonos:
 -A bolsa! Olha a bolsa! Oh, dona, olhe a bolsa!

 Infelizmente, a bolsa viajou assim, até a última parada do ônibus.

18 de abr de 2018

Medo da Chuva

Foto da internet



Ela vem chegando mansinho, mas de repente mostra toda a sua força e quando a mostra leva consigo tudo o que encontra pela frente.
A chuva nos é benéfica na medida certa, mas quando ultrapassa o limite traz a desgraça de uma ou várias cidades, pois deixa seu rastro de desolação. Este assunto surgiu logo após uma chuva forte que caiu em nossas cidades, no dia de ontem. Não vamos falar aqui, da interferência do ser humano no trajeto da água como; problema da pavimentação, eliminação da vegetação, desmatamentos das ruas, praças, o excesso de cimento, calçadas, falta de drenagem e outros meios que ajudariam no escoamento da água, sem esquecer a abundância de lixo descartado de maneira indevida.
Então é certo dizer que não respeitamos o ambiente em que vivemos, é triste.
Vamos falar sobre o sofrimento das famílias que vivem a olhar para o alto, quando a chuva parece não querer parar. Assim aconteceu ontem, com uma amiga, que ficou preocupada ou triste com a lembrança da última cheia em nossas cidades.  A ansiedade, o medo e até angústia daqueles que já viveram o drama de uma enchente ainda é presente em sua vida e de seus familiares.
Mesmo que sejamos privilegiados em morar em lugar livre de enchente, sofremos com parentes e amigos que ficam desabrigados de casa, agasalho, conforto do lar, da família, pois muitas são divididas para morar, mesmo que temporariamente com outras pessoas. Quem tem lugar com parentes, quem sabe se estresse menos, mas há os que ficam em escolas, em ginásios, em igrejas, e nem sempre há condições de suprir todas as necessidades.
As pessoas que perdem sua casa mesmo que depois recuperada, qualquer trovão a faz tremer pelo medo do que vai perder. Já dizia Wiliam Feather:
“Algumas pessoas estão fazendo uma preparação tão minuciosa para os dias de chuva que eles não estão aproveitando o brilho do sol de hoje.”
A chuva contínua, que permanece por vários dias, e transforma-se em calamidade, passa a ser uma inimiga, por isso, muitas pessoas não vivem sossegadas. Todos sofrem, e, há ainda os animais. Minha amiga estava muito sentida ainda, depois de tanto tempo passado, porque perdera seu cãozinho de estimação, pois no dia da mudança, com a água chegando ele fugiu de medo, e mesmo com muita procura jamais foi encontrado E, assim há com certeza, muitos casos piores envolvendo morte de pessoas, roubo de alimentos, de cobertores e muitas outras coisas.
Clarice Lispector dizia que as pessoas ficam tão preocupadas com a chuva repentina, a transformam em tempestade, mesmo sendo apenas uma nuvem passageira.
Como não temer a chuva que vem com vento, as árvores se dobram ou se quebram com o impacto de muita chuva, sem falar no granizo, pois este congelado, o vapor de água fica com mais peso do que a nuvem pode aguentar e cai, em forma de pedra de gelo, também fazendo seus estragos em plantações e, às vezes pelo tamanho, acabam matando animais que estão no campo. Quem já passou por momentos tristes devido às chuvas ou enchentes vai ter que com o tempo trabalhar para afastar o medo, pois a chuva virá sempre.


Quem sabe pensar como Raul Seixas:
“Eu perdi o meu medo, o meu medo da chuva.
Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar.
Aprendi o segredo, o segredo da vida.
Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar.”


31 de mar de 2018

Aqui passou a boiada


  Houve um tempo em que a boiada passava em frente a minha casa,e tudo era festa,não havia necessidade de reservar lugar, para assistir, pois a porta do armazém dos meus pais,já era meu lugar cativo. Em tempos de chuva, o barro misturado aos tocos das árvores,os quais eram jogados para dar mais firmeza aos cascos dos animais,espalhava-se para todos os lados, paredes e pessoas que se arriscavam a passar perto de onde a boiada passava.Minha mãe estava sempre de olho em mim,na época,eu contava com meus quase três anos,e a passagem da boiada,onde hoje é a avenida João Pessoa, para mim, era o maior show, eu abanava para os boiadeiros, na época, o falecido Romualdo Melo e seus ajudantes. Quando o chicote rodopiava e estalava no ar, eu pulava de alegria, meus pais diziam que eu batia palmas e pedia aos gritos para que eles não surrassem os bois e, é claro eu chorava muito, pois para mim os bichinhos estavam apanhando e, de certa maneira,estavam.O falecido,seu Romualdo,era traquejado no jeito de tocar a boiada,levava os bois pela manhã para o seu açougue,mas antes passavam pelo posto de desinfecção,eu nada sabia,então meu pai dizia que eles iam tomar banho,e à tarde,voltariam limpinhos para dormir.Eu passava o dia perguntando ao meu pai que horas os bois iam voltar, para dormir. E, à noitinha os que sobravam voltavam e iam para um potreiro próximo à igrejinha, que foi demolida há anos.O peão boiadeiro tinha um bom manejo com o berrante,e nem tudo era festa, pois eles sofriam com a mudança do clima,no inverno conviviam com as baixas temperaturas e no verão calor intenso. Em minhas lembranças há também a boiada que vinha de Palmas,e no verão os boiadeiros paravam para dar água aos animais,em uma enorme lagoa,próximo à casa de meus pais. Há tantas lembranças que me fazem querer voltar ao passado e registrar mais fatos que não voltam mais.Às vezes, eu não via a boiada, pois vinham com o escuro do dia,e meus pais não me deixavam ficar na frente do armazém,então quando meu avô estava em casa, e havia reses no potreiro me levava para vê-las. Eu queria ficar bem perto da porteira, e às vezes, havia alguma investida contra nós, e meu avô dizia:-Escapa! Escapa!Ah! quanta saudade!Olho para trás e vejo com olhos de menina a aventura de ver a boiada.Hoje,elas são lembradas através de filmes,poesias, poemas,contos e tantos registros,mas nada como o que tenho registrado em minha mente.Recordo-me bem que um lado da estrada era coberto por vasta vegetação, plantas que hoje muitos nem conhecem, alguns como: mamona, Inhapindá  ou unha de gato, diversos tipos de cipó, pente-de-macaco, eram para nós, crianças brinquedos, fazíamos barquinhos, com eles e jogávamos as sementes para cima para vê-las voando, havia muitos tipos de cipós,flores e amoreiras.E por ali, passava a boiada.Vou encerrar esta crônica com alguns versos de Casimiro de Abreu:“Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida,Da minha infância querida Que os anos não trazem mais!Que amor,que sonhos,que flores.”



Imagens: Google

13 de mar de 2018

O Equilíbrio na internet



    Recentemente, eu estava fazendo um trabalho em uma instituição e percebi uma garota isolada do seu grupo, parecia ter chorado, e dava-nos a impressão de que apenas queria ficar sozinha.
   Fiz algum comentário com algumas meninas sobre a situação e, elas me responderam:
   - Ah! professora, ela não quer nem conversar, nem brincar, e o que faz é de má vontade.
   Fiquei imaginando o que estaria acontecendo, pois pelo que presenciara nada faltava a ela, naquele maravilhoso lugar.
   Aproximei-me silenciosamente para não perturbar a sua meditação, ao perceber a minha presença, fez menção de sair, ela estava sentada à sombra de uma linda árvore florida. Despistei e sentei em um banco quase ao seu lado. Puxei conversa.
   -Olá! Tudo bem com você? Por que está aqui, sozinha? Não gosta deste lugar?
   A menina ergueu a cabeça e começou a falar, mostrava na voz a sua inquietação, falou que se sentia como uma prisioneira, pois havia horário para todas as atividades, e o pior disse-me ela:
  -Não podemos usar o celular aqui, não consigo viver sem me comunicar.
Fiquei assustada com as palavras dela, foi um desabafo muito triste, porque ela disse que a vida dela dependia de um celular.
Infelizmente, o fato acontece muito com a maioria não só de jovens, mas de muitas pessoas. Para os jovens, principalmente, ficar sem celular é um grande castigo. Em uma época não muito distante, presentear os filhos com um carro, era um presente que mostrava à sociedade o “status”, da família, hoje substituído pelo celular.
   O celular e internet nos trazem muitas facilidades, as quais não há necessidade de nomeá-las, porém há a obrigação do controle, pois tudo que é exagerado traz malefícios à saúde.
   A necessidade de estar sempre conectados gerou uma sociedade de adolescentes obcecados pelo imediatismo, como: esperam por respostas rápidas, conversas ligeiras, encontros nada longos, e, se algo for além do tempo, previsto por eles, gera uma grande ansiedade. E, como as relações virtuais andam juntas com as reais, podemos pensar que é um dos motivos para que os relacionamentos não tenham vida longa. Tudo parece ser descartável, infelizmente, o celular se tornou um item de consumo favorito da população.  Às vezes, nos assusta quando dois jovens, que estão próximos, usam o celular para se comunicar, trocando assim o encontro, o olhar nos olhos, a voz, o sentimento, por mensagens, as quais, muitas vezes acontecem por meio de simples “emoticons”. A preocupação é grande quando os limites desta comunicação deixam de fora a presença física da outra pessoa, causando assim a facilidade de falar sem se preocupar com as reações do seu interlocutor.
  “Mas para manter relações saudáveis, é preciso fazer um uso inteligente dos recursos tecnológicos e evitar os excessos da “dependência da conectividade”. Nesse ponto, a escola e, principalmente, os pais são responsáveis pela educação dos jovens.”
   Penso que deve haver o bom senso para  não ficar conectado o tempo todo, nem há necessidade de fazermos como a França ,mas uma boa dosagem de tempo, cada um deve fazer de acordo com a sua necessidade e consciência, "como empresa a gente se vê obrigado a estar conectado um tempo muito grande na internet, mas os usuários têm de praticar o 'nadismo', desconectar um tempo, passar um tempo descansando fora das telas".
“O verdadeiro perigo não é que computadores começarão a pensar como homens, mas que homens começarão a pensar como computadores” Sydney J. Harris, jornalista e escritor estadunidense.

4 de mar de 2018

Ser Mulher

Ser Mulher

   Subindo o morro com a bacia de roupas para lavar, no riacho de água barrenta vai a cabocla de pé no chão, começar o seu dia de trabalho árduo e desvalorizado, na rua de baixo a quitandeira, com a cesta de docinhos, grita com voz forte: Docinho, docinho, compra um e leva dois. Continua assim até que todos sejam vendidos, e ela possa voltar com a cesta um pouco mais pesada contendo um pacote de arroz, seis bananas e um litro de óleo. Seu sorriso mostra a felicidade de poder colocar comida na mesa para seus filhos e ainda repor na prateleira os ingredientes para os docinhos da próxima venda.
  Não longe dali outra mulher carregada de cadernos, os quais corrigiu à noite, está correndo para não perder o ônibus que a levará para a sua escola, onde leciona em dois períodos, é a professora do bairro.
 Na esquina, próxima ao ponto de táxi, outra mulher vestida de maneira formal, com duas pastas de documentos, caminha apressada para atravessar a rua, é uma advogada a caminho do fórum para defender seu cliente.
Na roça, com a pesada enxada, a mulher vai capinando o mato, preparando terreno para o plantio do milho, trabalha de sol a sol para ajudar o marido na lavoura. Embaixo de um pé de manga o pequeno rádio ajuda a suavizar o calor que sufoca a alma. A voz da mulher, a radialista comenta os fatos do dia, e assim a enxada avança com mais velocidade.
 No hospital, a mulher enfermeira acalenta os doentes que passam por necessidades físicas e espirituais, com sua dedicação, carinho e habilidade deixam o espaço mais humano, enquanto a mulher secretária auxilia com seus serviços profissionais tanto nas empresas e hospitais, a mulher médica deixa seus filhos, sua família e vai prestar socorro onde é chamada.
Os bichinhos de todas as espécies e gostos fazem a nossa vida bem mais feliz e graças a mulher veterinária eles vivem melhor, com mais qualidade de vida.
A estudante apura o passo para não perder a carona com a amiga que também vai fazer o curso para ser dentista, pois ela sabe o seu valor, no bairro onde mora.
Nas grande e pequenas lojas o número de vendedoras aumenta, pois elas com sua diplomacia vão vencendo no mercado de trabalho.
As mulheres contadoras estão sempre a postos, porque não podem deixar passar um algarismo errado, o que seria um desastre, e com sua competência vão mostrando seu valor junto aos cálculos.
Na construção de mais um edifício, na cidade está à frente de todos uma mulher engenheira, a qual trabalha sem esquecer que é mulher.
No mundo da política ela também está, mesmo que não seja presidente ela é política no lar.
A mulher publicitária está pronta para participar de todas as etapas dos projetos que lhe cabem, pois faz parte de seu escopo analisar, preparar realizar, enfim tornar realidade suas grandes ideias. 
“É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.”
Há a mulher mecânica, a mulher motorista, a policial, a borracheira, a pintora, a artista plástica, a costureira, a eletricista, a fiel dona de casa, aquela que dizem: não faz nada.
E aquela que gesta, que acolhe que educa, que dá carinho, ensinamentos, direção para a vida, dá-lhe se precisar a sua vida, a única mulher mãe.
E finalmente, sem esquecer alguma mulher de singular importância a Mulher Santíssima Maria, mãe de Jesus e nossa.
“Não se nasce mulher: torna-se.”
E com as palavras de Clarice Lispector, parabenizo a todas as mulheres:
“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.”

A todas parabéns!

19 de fev de 2018

O Tempo



O ano termina e recomeça, e assim sucessivamente, e o termo que já se tornou um clichê “feliz ano novo” “adeus novo velho”, volta a fazer parte de nosso vocabulário, porém se formos analisar até poderemos pensar que o tempo continua igual, quem sabe uma invenção para nos alegrar, nos dar esperanças de um tempo melhor, passa-nos  a impressão de que ele não é literal, porque parece viver em círculos, vai e volta e assim continuamente. Não vou falar do tempo na concepção de físicos como: Einsten ou Newton, mas de como podemos definir o tempo ou quem sabe senti-lo. O calendário é uma bela criatividade, porque nos dá a impressão de que tudo será novo e que tudo terá um novo começo, ledo engano, pois tudo continua igual, mas com a nossa fantasia de que o tempo mudou, ou que o tempo passou...
Quem na verdade sofre mudanças somos nós, e que às vezes, somos enganados pelo tempo, o qual não é linear, e por isso, não percebemos se ele vai ou volta, sem sair do lugar, nós é que mudamos. Devemos então nos questionar o quanto mudamos, o quanto melhoramos neste tempo que parece que passou muito depressa, ou então naquele que aguardamos chegar com muitas novidades, mas na verdade somos nós que fazemos as mudanças e novidades da vida. Ouvimos muito: ah! quando eu completar tal idade, ah! quando o ano terminar, ou no começo do ano vou casar, e nossa metas são grandiosas, no plano físico, no entanto precisamos nos perguntar quais as metas para o nosso corpo espiritual, a nossa alma. O que fiz de bom neste”pseudo tempo”?
O Calendário é apenas um mero sistema para contagem e agrupamento de dias que visa a atender principalmente às necessidades civis e religiosas de uma cultura.” A palavra deriva do latim calendarium, "livro de registro", que, por sua vez, deriva de calendae, que indicava o primeiro dia de um mês romano.”
O relógio, a ampulheta, o calendário, relógio do Sol, relógio de pêndulo, relógio atômico, relógio digital e tudo que possa nos dar uma noção do tempo facilita a nossa vida para obtermos resultados, quando nos programamos  pensando no tempo, mesmo que ele seja uma mera convenção dos homens, para poder contá-lo ou simplesmente medi-lo.
Albert Einsten afirmou: "Para nós, físicos presunçosos passado, presente e futuro são apenas ilusões".

Mesmo que isso seja verdade, vou fazer uso do velho clichê e desejar a todos um ano repleto de realizações, que seja um tempo bom para todos nós!

7 de fev de 2018

Somos Intolerantes




Ontem em uma roda de conversa boa, o assunto foi sobre sentimentos, alguns ruins, que nos causam mal, e o maior deles, o ódio. E acabamos falando sobre uma palestra, com o tema “Intolerância”, a qual foi proferida por Haroldo Dutra Dias, ele é juiz de direito do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, escritor, tradutor, e conferencista brasileiro.
 Há muita intolerância hodiernamente, tudo se torna intolerante a nós, e
infelizmente, ainda somos estimulados a ter ódio, o assunto da conversa tomou um rumo muito interessante, pois acabamos lembrando de fatos de famílias que foram destruídas devido ao ódio reinante por muitas gerações.
Nelson Mandela já dizia:
Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar, e, se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é mais natural no coração humano do que o seu oposto.
A única voz que o orgulho respeita é a humildade, para a violência, a paz e a brandura.
O ódio nunca ouve o ódio, e para acabar com a intolerância é muito mais fácil  exterminá-la nos outros, pois a nossa própria intolerância nos parece invisível. Atualmente, em qualquer lugar ou em qualquer roda de amigos, se você não tiver ódio de algum político, iniciativa política, ou de alguma pessoa bem sucedida, fica mais difícil de entrar nesta roda. Até parece que é chique ter ódio em algum momento de nossa vida.
Será que o ódio nos dará oportunidade de mudarmos para melhor, fazermos nova política, um novo país? Sentimos ódio por gênero, por pessoas de cor, por falta de conhecimentos, por falta de bens materiais, enfim, execramos o nosso próximo por ele ser apenas diferente de nós.
Precisamos estar vigilantes e mensurar o nosso grau de intolerância. Todos temos escolha, temos que respeitar a maneira de como o outro vive. Amar é respeitar o outro, o nosso próximo. Alguém disse:
-Mas se eu não concordar com o outro?
Basta respeitá-lo, não precisamos concordar com as atitudes dele, pois podemos nos posicionar quanto ao certo ou errado, porém sem ódio, seguindo os ensinamentos de Jesus, que nunca agiu com ódio. Vivemos tempos obscuros, o valor de uma vida é pequeno ou inexiste, a política um caos, a integridade física desmerecida, enquanto que a intolerância e o ódio estão sendo disseminados ao nosso redor.
Falta-nos o ato de nos colocar no lugar do outro, pois rir, aplaudir, acusar é mais fácil que parar para refletir que muitas vezes nos igualamos aos que acusam, ou aos que destilam o ódio através de palavras ou ações. O respeito constrói a paz, constrói o novo.
“Se a sociedade está doente, é porque nós estamos”. Jamais, em todo o mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é amor.


“Nenhuma qualidade humana é mais intolerável do que a intolerância.”

Ditados populares

Imagem tirada do Google.     Existem muitas expressões ou ditados populares, que às vezes não são entendidos, principalmente pelas...