Já era sábado de aleluia, a casa estava em festa, as crianças corriam,
a alegria era notável, os parentes chegavam, os primos queridos vinham de longe
para passar a festa da Páscoa em família. As crianças aguardavam ansiosas o
passar dos meses para a chegada de mais
uma data festiva, ocasião em que podiam se reencontrar para matar as
saudades.Os preparativos já estavam acontecendo há muitos dias. A avó materna
era encarregada da confecção das bolachas, todas pintadas com açúcares
coloridos, uma das tias era encarregada de fazer outros doces, e que eram de
muitas qualidades. A carne para o assado já havia sido preparada no sábado
anterior, os homens da família se reuniram e carnearam um leitãozinho, uma
ovelha e ainda algumas galinhas que seriam recheadas para assar. Havia o
costume de guardar a banha em uma grande lata junto com pedaços de carne frita,
a qual durava muito tempo sem refrigeração.
As crianças só se preocupavam com a vinda do coelhinho, todos tinham
que ajudar a fazer a sua cestinha, e quando ficavam prontas podiam brincar com
elas o tempo que quisessem, porém se estragassem não mais as teriam, aí vinha o
senso de responsabilidade, cuidado e parceria, pois cada um ajudava a cuidar da
cesta do outro. Interessante que mesmo vazias, eram preciosas para todos.
À tardinha de sábado de aleluia, todos se reuniam para agradecer a Deus
pela fartura de mais um ano. Sempre havia a explicação de um membro da família,
o mais experiente que falava sobre o significado da Páscoa.
À noite, o cansaço tomava conta de todos. Os mais velhos com seus
deveres cumpridos iam se deitar, recomendando aos pequenos que no dia seguinte,
domingo de Páscoa, todos iriam à Igreja , só então é que procurariam as
cestinhas . E assim aconteceu.
Anastácia, a empregada que há anos estava junto à família, ficou mais
um pouco na sala, tempo suficiente para relembrar uma Páscoa que ficou em sua
memória, em seu coração, um passado que lhe trouxe as lágrimas tristes. Ela era
muito pequena, mas já sabia das coisas e esperava sua cesta com muitos ovos e
coelhos de chocolates, seu irmãozinho, muito pequeno, nada sabia e por isso,
apenas ela esperava pelo coelhinho. Sabia, ela que desta vez ele não falharia,
porque ela não dera nenhum motivo,fizera tudo certinho, ajudara a mãe, cuidara
do irmãozinho, ajudara a pendurar e recolher a roupa do varal, recolhera
lenha,arrumara a mesa, nem brincar com
os amiguinhos, tinha ido para não aborrecer a mãe, sendo assim o coelhinho não
teria desculpas, como em outras vezes de não lhe trazer nada .
Sua memória parou naquele longínquo ano, naquele sábado de
aleluia,quando sua mãe chegou, sentou-a em uma cadeira de palha esfarrapada e
falou:
-Nastácia, você foi uma menina má, não me obedeceu, não ajudou, foi
brincar na rua, deixou seu irmãozinho chorando sozinho, por isso, o coelhinho
não vai lhe trazer nada neste ano, e saiu às pressas, hoje sei que estava
chorando.
Hoje ela sabia o quanto sua mãe sofreu para lhe dizer tudo aquilo.
As lágrimas corriam, e continuam a correr, pois hoje ela sabia que seu
pai naquele dia ainda estava sem pagamento e o coelhinho não era apenas uma
simples fantasia de criança.
Feliz Páscoa a todos vocês, meus queridos amigos!
