31 de ago. de 2022

Jô Soares

 Aqui tem feito dias de céu azul e, às vezes, cinza.  Lembro que justo neste dia, o céu estava azul, a temperatura agradável, ainda estava deitada, quando fui checar as notícias no celular. O dedo foi deslizando na tela, quando parou em uma notícia, a qual eu realmente não queria para começar o meu dia. Não que fosse meu parente, ou pessoa mais próxima, mas nos apegamos, sentimos carinho e admiração, nós respeitamos. E naquela manhã, ler sobre a morte de José Eugênio Soares, fez o céu ficar, de repente, cinza. Jô era desses artistas completos, como costumam chamar por aí, apresentador, ator, comediante, diretor, produtor, dramaturgo e artista plástico. Poliglota, falava português, francês, espanhol, inglês e italiano. Atuou e dirigiu quinze ou mais espetáculos. Apresentou-se em palcos, telas e, era engajado à literatura, unindo o humor ao jornalismo. Entrevistou mais de quinze mil personalidades brasileiras e internacionais. Criou personagens e bordões, que marcaram a TV brasileira. Suas críticas com pitadas de humor, eram encontradas em suas personagens no programa como: “Viva o Gordo”.

Além das telinhas, telonas, palcos, pudemos acompanhar o brilhantismo de Jô em páginas de livros, escreveu nove livros que se transformaram em best sellers, como foi o caso de o Xangô de Baker Street. Em 2016, entrou para a Academia Paulista de Letras, assumindo a cadeira 33, seu patrono era Teófilo Dias.

Jô foi o precursor de talk show no Brasil, entre artistas consagrados e novatos, ele conseguia extrair o melhor dos seus convidados.

Enquanto eu lia a notícia, uma história de um tempo bom foi passando em minha cabeça, tempo esse em que podíamos um pouco além, em que críticas eram aceitas para que se melhorasse tal situação, e não para ofender ou rebaixar a alguém.

Lembro da família reunida, lembro do relógio marcando meia-noite, e eu segurando o sono para assistir ao último bloco do programa.

Lembro do bordão, lembro de Jô brincando com a banda ou com o seu fiel escudeiro e garçom.

São tantas lembranças, momentos de como a vida é feita.

Lembro também de críticas a ele, seja por uma personagem, ou pela vida real em relação ao seu filho, também falecido.

Muitas vezes, as pessoas confundem a realidade com a ficção, e muitas outras não sabem da história a fundo e apenas criticam pelo sabor de criticar.

Jô é digno de aplausos, desses raros artistas que dão chance a outros que estão começando ou já esquecidos, de pessoas anônimas, mas de grande importância para o Brasil.

Deixa um legado admirável, sua história não será esquecida, e quiçá, eu ainda possa ver nascer um artista tão completo quanto ele.

“O Jô só pensava em uma coisa: repartir o pão da alegria”.

“Tudo ele acabava levando para o lado do humor, da alegria, e até há uma frase, que ele adorava, de um ator inglês, Edmund Gwenn que dizia o seguinte: ‘morrer é fácil, humor que é difícil’. Ele disse essa frase no leito de morte. E ele, agora nos últimos dias no hospital, voltou a repetir essa frase: ‘viver não é problemático, difícil é fazer humor'.

Em um ano em que o Brasil perde tanta gente importante, Jô Soares fará muita falta, como amigo, como artista, como ser humano.

E mais uma luz se apagou nos palcos da vida.

 


ImagemGoogle


2 de ago. de 2022

Estamos na Jornada do herói


 


“A aventura usual do herói começa com alguém de quem algo foi tirado, ou que sente que falta algo na experiência normal disponível ou permitida aos membros da sociedade. A pessoa, então, embarca em uma série de aventuras além do comum, seja para recuperar o que foi perdido ou para descobrir algum elixir que dá vida. Geralmente é um ciclo, uma vinda e uma volta.”

Joseph Campbell autor do clássico “O Herói de Mil Faces”, no qual ele conceituou a chamada do herói nos mitos, lendas, romances, fábulas e filmes modernos. Como estudioso norte-americano de mitologia e religião comparada ele decodificou os códigos de todas as civilizações desde que o mundo é mundo e tenham registro. Percebe-se que todo herói se origina de uma pessoa comum, sem muitos talentos, sem pretensões, apanha da vida e, às vezes sofre com discriminações. Não havia o conhecimento que temos hoje, então os antigos utilizavam histórias fantásticas com acontecimentos reais para dar um pouco de sentido à aventura da vida. Envolviam Deus, semideuses, criaturas sobrenaturais, heróis com grandes feitos.

Joseph Campbell após décadas de estudo chegou à conclusão de que a mesma estrutura era encontrada na história da humanidade como a história de Maomé, Buda, Jesus, Moisés, Albert Einstein, Madre Teresa de Calcutá, Gandhi e muitos outros. Falam sobre a ascensão de homens comuns a heróis. Esta estrutura é inflexível e infinita e, está presente também em sua vida, em minha vida, em nossa vida.  Seguem alguns títulos de filmes onde podemos perceber melhor a existência da estrutura de Campbell:

 O Mágico de Oz -(Dorothy). (Alice)- Alice no País das Maravilhas. De Volta para o Futuro- (Marty Mcfly). O Senhor dos Anéis- (Frodo). Harry Potter -Hermiane Granger. Matrix-Keanu Reeves. Toy Story-Buzz Lightyear. São alguns exemplos com histórias famosas que seguem sempre a mesma estrutura.

O herói sempre precisa de um mentor para lhe dar um empurrão, um conselho, mostrar-lhe o que fazer. O mentor é sempre uma figura especial como um livro, uma mensagem, um filme, um professor, um amigo, um padre, um médico e, aparece quando é necessário. Alguma coisa acontece e há o chamado para resolver alguma situação, porém o herói não sente que é capaz de fazer algo pelo bem maior. No entanto, quanto mais se recusa, mais a vida bate. Então, aparece o mentor que tem a função de despertar alguém para o chamado. Todos somos heróis e temos um chamado, porém somos heróis vivendo uma vida medíocre por não saber que somos heróis e, que podemos fazer muito pelo bem maior, sendo assim sofremos, no entanto com a dor aprendemos, pois o sofrimento nos educa. A jornada do herói se conecta com cada pessoa de maneira consciente ou inconsciente, provoca muitas emoções, pois mesmo sendo ficção possui elementos humanos. De repente, temos um personagem com uma vida comum, e surge um grande desafio, situação difícil, assustadora. O chamado por exemplo pode ser por diversas coisas, fatos ou pessoas.

 Neste caso, para exemplificar, a situação é de doença, e, é necessário fazer a escolha, sair da zona de conforto, o que se torna imensamente difícil.

Há a decisão: sair ou permanecer.

Há o medo, que é paralisante, e a insegurança maior: Não sou capaz.

A decisão deve ser tomada sem demora, pois, tudo tem seu preço e tempo. Mas o medo do desconhecido traz a insegurança, e tudo fica parado no tempo.

 Aí, surge o mentor, para ajudar, aconselhar, dar o empurrão inicial, e o desafio é aceito. É cruzado o limiar do conhecido e o desconhecido e, inicia-se a viagem para a chegada ao final.  Nem há necessidade de muito conhecimento nesta fase, pois não será útil aqui. Unem-se o chamado ao destino e às pessoas certas, as quais com a experiência que têm aparecerão neste momento, que é a hora certa. A jornada não será solitária. Então surge o herói, que percebe que toda a força está dentro dele. Basta mergulhar em si, e o poder vem à tona.

 Porém, haverá muitas situações em que tentarão enfraquecer o herói, quando isso acontece ele deve sempre subir à superfície, e assim voltar à vida, que não será mais a mesma. A volta será de uma pessoa mudada, transformada com os conhecimentos adquiridos durante a jornada.

O retorno será com um elixir, uma cura, um prêmio, um dom, ou outras coisas.

Vivemos e viveremos várias “jornadas do herói” em nossas vidas. E sempre haverá muitos amigos (mentores).

“A jornada do herói” não deixa de ser um método comprovado para se contar boas, belas e interessantes histórias.

9 de jul. de 2022

07 de julho, Dia Mundial do Chocolate

O mundo de chocolate 

Maravilha seria um mundo de chocolate 
montanhas, riachos, nadar no mar 
de chocolate meio amargo, meio doce, 
meio preto, meio branco, 
nuvens areadas e o sol bem longe 
para nada derreter. 
E quando as nuvens apontassem para a chuva 
hora de correr e comprar os saudosos guarda-chuvinhas 
de chocolate. 
Que maravilha seria o mundo de chocolate! 
caminhar entre bombons e brigadeiros. 
E ao findar o dia sentar na varanda para 
espiar o sol se escondendo 
dando lugar à lua 
que triste implora: 
não quero ser de queijo, 
quero ser de chocolate!





23 de jun. de 2022

Pinhão a semente da Araucária

Nos arredores da cidade de União da Vitória, a qual fica no estado do Paraná, há muita araucária. No outono e inverno a semente do pinheiro é colhida, o gostoso pinhão. As famílias fazem passeios pelos campos para juntar os pinhões que insistem em cair, a pinha se desfaz e tudo vem ao chão. Em uma tarde de um dia muito frio, daqueles em que a geada custa a ir embora, um grupo de quatro crianças, amigos que moravam na mesma rua, estudavam na mesma escola e tinham idades aproximadas, dez e onze anos, foram juntar pinhões. Guilherme estava sempre com sua irmãzinha do lado, ela era a menor com nove anos, ele era responsável por ela, principalmente quando se afastavam de casa. Porém Lorena, como era chamada, era muito espevitada, vivia pondo-se em perigo ao entrar em grutas, dizia que ia pesquisar. Tinha sempre uma pastinha com uma caderneta, lápis, régua e caneta. Porém, sempre atrapalhava os planos dos meninos, que ficavam irritados com Guilherme por ter trazido “a mala” como a chamavam. No entanto, ela fingia que não ouvia os xingamentos. O objetivo das crianças era apanhar muito pinhão e vender em pequenas quantidades. Fizeram uma reunião e decidiram quem faria as atividades. Primeiramente, todos colheriam o máximo de pinhão, que ficaria em um monte, após tudo colhido e escolhido, Guilherme e o amigo separariam as quantidades com peso aproximado, claro que a irmãzinha ficaria com eles. Os pacotes vazios foram sendo guardados há tempos, depois de cada compra que as mães faziam. Deixaram tudo organizado, colocaram o preço em cada pacote. Após isso resolveram fazer uma pequena fogueira para sapecar pinhões, era costume em todas as famílias, assim cada um foi juntar sapé, (galhos secos dos pinheiros) para o fogo. Tudo pronto, o fogo com pequenas labaredas recebeu punhados de pinhões, muitos estouravam ao contato com o fogo, a alegria das crianças era vibrante. Alguns minutos depois todos comiam os gostosos frutos do pinheiro. De repente, Guilherme percebeu que Lorena não estava por perto, saiu gritando por ela, e nada. Pediu aos amigos que o ajudassem a procurá-la. O sol ia se pondo e nada da pirralha aparecer, Guilherme a princípio pensou que ela estivesse brincando de se esconder, mas quando o vento gelado começou, ele sabia que o caso era grave. Correu em busca da ajuda dos pais, muito assustados pediram ajuda aos vizinhos. Todos correram para ajudar a encontrar a pequena. O frio aumentava, todos estavam vasculhando com muito cuidado todos os lugares possíveis. Gritavam o nome dela, o cachorrinho de estimação dela também entendeu a situação e começou a correr farejando aqui e ali. As lanternas já estavam sendo acesas, pois a noite chegara, tudo era um breu, a escuridão era quebrada pelas estrelas em um céu límpido. Percorreram muito chão, passaram-se muitas horas. Guilherme sentiu as lágrimas rolarem pelo seu rosto. O medo de perder a irmã já o deixava horrorizado. Todos se perguntavam: onde ela poderia ter ido? A busca foi muito intensa, as lanternas acesas já davam um clima de horror. A maioria dos vizinhos usava uma madeira, tipo estaca para ir tocando o terreno. Parecia cena de filme. O tempo corria, mas nada de encontrar Lorena. A mãe dela não conseguiu prosseguir ficou sentada à espera de notícias. O pai estava muito nervoso suava como estivesse em uma sauna. Todos já estavam com medo do resultado da busca. Totó, o cachorrinho se afastou muito e logo começou a latir, aguçando os ouvidos de todos. Correram para ver de onde vinham os latidos e ao lado dele, sob uma enorme pedra escura, bem protegida do vento, Lorena dormia profundamente. Foi uma festa, gritos de: achamos! achamos! foram ouvidos de longe. A menina acordou assustada, pois estava alheia aos acontecimentos. Seu pai a pegou no colo, abraçou-a e disse: -Por que veio tão longe sem avisar? Ela já desperta e consciente do acontecido respondeu: -Papai eu faço pesquisas, preciso andar muito para encontrar material. Todos agradeceram a Deus. O frio estava congelante. Cada um tomou o caminho de casa para uma noite tranquila.

28 de abr. de 2022

Medo da nossa finitude

 


 

O medo de pensar na velhice é o medo da nossa finitude é um fardo enorme para suportarmos. Envelhecer e morrer está entre os temas que mais nos assustam. Desviamos esses pensamentos, e nos distraímos com as alegrias e os desafios diários ou buscamos consolo nas igrejas. No entanto, ao fazer isso, nos privamos do nosso elixir da vida: quando encaramos a existência da morte e a certeza de que não somos eternos, valorizamos mais os dias e conseguimos aproveitar a vida em sua plenitude, vivendo realmente o presente.

Viver é envelhecer, nada mais. Assim pensava Simone de Beavoir.

 Viver apenas? Não, é preciso viver alimentando paixões pelo que nos faz bem, pelo que nos faz sorrir, gargalhar, cantar, dançar, amar a vida em sua plenitude. “Manter o olhar curioso e ter a liberdade de sermos nós mesmos – hoje e sempre – apesar das dores, desilusões ou dificuldades do caminho”.

A velhice nunca foi tão estudada, e o envelhecimento é vivido de maneira diferente entre homens e mulheres sem radicalizar. A maioria das pessoas tem medo da morte, medo da dor, e algumas não se sentem com coragem para enfrentar, as dores, as rugas, os hospitais, a tristeza. Assim como um dos maiores galãs do cinema internacional, Alain Delon. Dono de uma situação privilegiada. Teve um (AVC) em 2019. Recuperou-se bem, mas já decidiu que não quer mais viver, simples assim, não quer mais viver, não quer sentir dor, porque envelhecer é muito difícil para ele. Mora na Suíça onde a eutanásia é permitida. Ele disse que quer partir sem dor, sem qualquer sofrimento, simplesmente desligar-se da vida. Disse que já viveu muito e tem idade para deixar de viver. Escolheu pelo mais fácil. Será que a idade é um pré-requisito para morrer?

Às vezes, comentamos sobre o falecimento de uma pessoa. E a resposta é:

- Ah, mas ele já tinha idade para isso, viveu muito.

 Cora Coralina, que teve seu primeiro livro publicado com quase 76 anos – ela morreu com 96 –, e de uma frase que li e cuja autoria é remetida a ela: “O que vale na vida não é o ponto de partida, e sim a caminhada.”

Há muitos estudos sobre esses assuntos. “Existe um conceito para o temor extremo da morte: tanatofobia e gerontofobia é o nome da síndrome que define aversão ou medo patológico de pessoas idosas ou do processo de envelhecimento.”

Vivemos grande parte da nossa vida nos protegendo da ansiedade da morte o que nos rouba muito tempo, quando poderíamos viver com mais alegria.

Muitas pessoas procuram desesperadamente uma carreira de sucesso, que lhes proporcione fama duradoura; acumulam cada vez mais coisas para terem a sensação de permanência; o desejo de ter filhos como uma forma de deixar um legado; passam boa parte do tempo se ocupando com várias coisas. Tudo isso, de alguma forma, são estratégias para não lidar com a realidade de que um dia, mais cedo ou mais tarde, deixarão de existir. E o medo de envelhecer?

- Por que o ser humano tem medo de envelhecer?

 A nossa sociedade enxerga que a velhice está diretamente associada a doenças, perda de mobilidade, rugas na pele, e por isso, as pessoas têm receio de envelhecer. A grande valorização da juventude contribui para o preconceito contra a velhice, e a sociedade é a maior cobradora.

Os produtos de beleza estão cada dia mais diferenciados, prometendo grandes milagres, o desejo de um corpo sempre bonito, valores estéticos cobrados mais que os valores morais, assim desenvolve e dissemina mensagens em que a beleza externa nada mais é, do que um reflexo direto da existência de uma beleza interna correspondente, o que é negativo.

 “Você pode viver até os cem anos se você desistir de todas as coisas que fazem você querer viver até os cem.”  Woody Allen

Devemos trabalhar no sentido de estar de bem com a vida, com a nossa idade. Fazer coisas novas, conhecer novos lugares, novas pessoas, pois o novo nos rejuvenesce. “Não se deve viver temendo a morte, nem amar a vida de tal forma que seja uma tragédia sair dela”.

Todos sem dúvida querem prolongar a juventude, por isso, negam a morte, nossa cultura faz isso.

Podemos voltar e rever porque as mulheres pensam de maneira diferente.  Mostram uma velhice cheia de amor próprio. Estudos confirmam que as mulheres têm mais cuidados com a saúde, procuram estar sempre de bem com a vida, mais saudável, mais exercícios, os homens relutam mais quando o assunto é cuidar de si. Os grupos sociais auxiliam muito a vida das pessoas. É extremamente importante termos sempre por perto um amigo, uma amiga a quem recorrer.  Há homens e mulheres, portanto não vamos generalizar.

Estamos vivendo mais. Segundo Karpf: “Esses homens e mulheres passam a ser vistos como um fardo. E, pior, as pessoas não se enxergam como idosos, parece um futuro que não pertence a elas”. Como vamos lidar bem com o próprio envelhecimento se olhamos para isso com medo e sem admiração por quem já chegou a essa fase da vida? “O envelhecer é um processo que começa no nascimento, nunca cessa e sempre tem o potencial de enriquecer nossa vida”.

 

O medo de pensar na velhice é o medo da nossa finitude é um fardo enorme para suportarmos. Envelhecer e morrer está entre os temas que mais nos assustam. Desviamos esses pensamentos, e nos distraímos com as alegrias e os desafios diários ou buscamos consolo nas igrejas. No entanto, ao fazer isso, nos privamos do nosso elixir da vida: quando encaramos a existência da morte e a certeza de que não somos eternos, valorizamos mais os dias e conseguimos aproveitar a vida em sua plenitude, vivendo realmente o presente.

Viver é envelhecer, nada mais. Assim pensava Simone de Beavoir.

 Viver apenas? Não, é preciso viver alimentando paixões pelo que nos faz bem, pelo que nos faz sorrir, gargalhar, cantar, dançar, amar a vida em sua plenitude. “Manter o olhar curioso e ter a liberdade de sermos nós mesmos – hoje e sempre – apesar das dores, desilusões ou dificuldades do caminho”.

A velhice nunca foi tão estudada, e o envelhecimento é vivido de maneira diferente entre homens e mulheres sem radicalizar. A maioria das pessoas tem medo da morte, medo da dor, e algumas não se sentem com coragem para enfrentar, as dores, as rugas, os hospitais, a tristeza. Assim como um dos maiores galãs do cinema internacional, Alain Delon. Dono de uma situação privilegiada. Teve um (AVC) em 2019. Recuperou-se bem, mas já decidiu que não quer mais viver, simples assim, não quer mais viver, não quer sentir dor, porque envelhecer é muito difícil para ele. Mora na Suíça onde a eutanásia é permitida. Ele disse que quer partir sem dor, sem qualquer sofrimento, simplesmente desligar-se da vida. Disse que já viveu muito e tem idade para deixar de viver. Escolheu pelo mais fácil. Será que a idade é um pré-requisito para morrer?

Às vezes, comentamos sobre o falecimento de uma pessoa. E a resposta é:

- Ah, mas ele já tinha idade para isso, viveu muito.

 Cora Coralina, que teve seu primeiro livro publicado com quase 76 anos – ela morreu com 96 –, e de uma frase que li e cuja autoria é remetida a ela: “O que vale na vida não é o ponto de partida, e sim a caminhada.”

Há muitos estudos sobre esses assuntos. “Existe um conceito para o temor extremo da morte: tanatofobia e gerontofobia é o nome da síndrome que define aversão ou medo patológico de pessoas idosas ou do processo de envelhecimento.”

Vivemos grande parte da nossa vida nos protegendo da ansiedade da morte o que nos rouba muito tempo, quando poderíamos viver com mais alegria.

Muitas pessoas procuram desesperadamente uma carreira de sucesso, que lhes proporcione fama duradoura; acumulam cada vez mais coisas para terem a sensação de permanência; o desejo de ter filhos como uma forma de deixar um legado; passam boa parte do tempo se ocupando com várias coisas. Tudo isso, de alguma forma, são estratégias para não lidar com a realidade de que um dia, mais cedo ou mais tarde, deixarão de existir. E o medo de envelhecer?

- Por que o ser humano tem medo de envelhecer?

 A nossa sociedade enxerga que a velhice está diretamente associada a doenças, perda de mobilidade, rugas na pele, e por isso, as pessoas têm receio de envelhecer. A grande valorização da juventude contribui para o preconceito contra a velhice, e a sociedade é a maior cobradora.

Os produtos de beleza estão cada dia mais diferenciados, prometendo grandes milagres, o desejo de um corpo sempre bonito, valores estéticos cobrados mais que os valores morais, assim desenvolve e dissemina mensagens em que a beleza externa nada mais é, do que um reflexo direto da existência de uma beleza interna correspondente, o que é negativo.

 “Você pode viver até os cem anos se você desistir de todas as coisas que fazem você querer viver até os cem.”  Woody Allen

Devemos trabalhar no sentido de estar de bem com a vida, com a nossa idade. Fazer coisas novas, conhecer novos lugares, novas pessoas, pois o novo nos rejuvenesce. “Não se deve viver temendo a morte, nem amar a vida de tal forma que seja uma tragédia sair dela”.

Todos sem dúvida querem prolongar a juventude, por isso, negam a morte, nossa cultura faz isso.

Podemos voltar e rever porque as mulheres pensam de maneira diferente.  Mostram uma velhice cheia de amor próprio. Estudos confirmam que as mulheres têm mais cuidados com a saúde, procuram estar sempre de bem com a vida, mais saudável, mais exercícios, os homens relutam mais quando o assunto é cuidar de si. Os grupos sociais auxiliam muito a vida das pessoas. É extremamente importante termos sempre por perto um amigo, uma amiga a quem recorrer.  Há homens e mulheres, portanto não vamos generalizar.

Estamos vivendo mais. Segundo Karpf: “Esses homens e mulheres passam a ser vistos como um fardo. E, pior, as pessoas não se enxergam como idosos, parece um futuro que não pertence a elas”. Como vamos lidar bem com o próprio envelhecimento se olhamos para isso com medo e sem admiração por quem já chegou a essa fase da vida? “O envelhecer é um processo que começa no nascimento, nunca cessa e sempre tem o potencial de enriquecer nossa vida”.

31 de mar. de 2022

Leite sem o olhar da vaca





Estava ouvindo uma contadora de histórias, que havia se voluntariado para atender um grupo pequeno de crianças. Eu por conhecê-las resolvi ficar no fundo da sala. E a professora estava contando histórias sobre as diferenças de viver no campo/ roça e na cidade. Começou perguntando se alguém já havia vivido no campo, dando sequência, perguntou às crianças quem já havia tomado leite quentinho tirado da vaca. Fez uma introdução relatando como ela mesma esperava com uma canequinha esmaltada, junto ao vovô, que tirava o leite. Continuou falando que era muito bom, pois o vovô deixava até uma espuminha sobre o leite. Era delicioso sentir aquele aroma e sabor frescos, bem branquinho, era inexplicável. Percebeu que nenhuma criança havia se manifestado, e estavam com os olhinhos arregalados. Intrigada, ela repetiu a pergunta. E nada. De repente, ouvimos uma vozinha sumida dizendo:- eu nunca tomei leite de vaca, só de caixinha, que meu pai compra no mercado. Então as crianças foram criando coragem e falando:- eu também não, eu também não. Uma delas completou; na minha casa nem tem vaca, mas tomamos leite sempre, vem na caixinha ou no pacote. Quieta, porém surpresa percebi que aquelas crianças não sabiam que o leite vinha da vaca. E que ela não dá leite, pois precisa ser tirado. Houve um silêncio enorme, e, enquanto a professora dava uma aula sobre o assunto desconhecido pela maioria das crianças, eu viajei nas minhas reminiscências da infância. Quando meu avô ordenhava as vacas, era um tempo bom, esperava para tomar o leite quentinho, meus primos quando iam visitar o vovô, também aproveitavam o momento maravilhoso, e cada um de nós possuía a sua canequinha esmaltada, algumas até com o esmalte machucado. Hoje a situação é diferente. Penso que não há mais esta condição gostosa de tomar leite tirado na hora. Meu avô, recebia a ajuda de um moço para o trabalho que fazia. Vovô precisava levantar todos os dias pelas quatro e meia da madrugada, para separar o bezerro da vaca, pois se os deixasse juntos ele acabaria mamando todo o leite. Este ritual acontecia sempre, mesmo aos domingos e feriados. É claro que era reservado o leite para o filhote.

Interessante contar que na hora de tirar o leite, o que era feito todos os dias, meu avô amarrava as patas traseiras da vaca, para que ela ficasse bem quietinha, e não desse um coice nele enquanto a ordenhava, fato curioso na época, e que mexia comigo era que o bezerro ficava amarrado perto da mãe, um lugar onde ela pudesse vê-lo, porque assim ela soltava o leite, pensando que era para o filho, mas na verdade ia para o balde. Às vezes, o bezerro não queria sair, ficava deitado tranquilo, longe da mãe, o que dificultava que ela soltasse o precioso líquido. Mas logo tudo se ajeitava e o leite descia.

 

Meu avô morava próximo de outros leiteiros, e logo um deles, mas abastado adquiriu ordenhas mecânicas. Fomos convidados para conhecer a tal máquina que tirava o leite sozinha. Era meio assustador, mas a modernidade é assim. O vizinho de vovô estava muito feliz, pois tudo ficou mais fácil. E o dinheiro veio mais rápido.

 

Lembrei do Lima Duarte que falou: E o olhar da vaca?  E o amor da vaca ao soltar o leite? Perdeu-se com nosso modo de viver. Bebemos o leite sem o amor da vaca.

 

Nem precisam do bezerro, aplicam hormônio natural, e ela libera o leite. Sabemos que ainda existem muitos leiteiros que fazem a ordenha manual, não é proibido, mas não haverá mais adultos, que tenham uma história linda da canequinha com leite cheio de espuma, tirado na hora. Porém, ainda existe o “camargo”, a origem deste nome falaremos em outra oportunidade.

 

Os gaúchos da Serra, certamente, já ouviram falar sobre a bebida deliciosa chamada camargo. O assunto sempre volta quando os dias frios chegam. Ele é a combinação do café quente com o leite tirado direto da vaca. O resultado é uma bebida forte e saborosa, que pode não agradar a todos os gostos, mas que, segundo os adeptos da tradição, garante um calorzinho nas manhãs congelantes do inverno. “Uma das principais características da bebida é ser preparada e consumida logo de manhã cedo, na primeira ordenha do dia. Faz bastante sentido: o trabalho no campo exige uma opção rápida e que forneça energia.”

 

Com certeza sem a canequinha esmaltada e sem o olhar da vaca.


17 de mar. de 2022

Jornalista Lulu Augusto

Queridos amigos, estou voltando depois de uma longa ausência. O motivo foi tratamento de saúde, ainda estou em recuperação de uma cirurgia, mas me sentindo bem para visitar seus espaços. Gratidão a todos!

Minha crônica é uma homenagem a amiga jornalista, que fundou o Jornal Caiçara em União da Vitória, e batalhou muito por ele.





 

Escrever sobre pessoas é uma tarefa extremamente difícil, principalmente se ela veio para fazer a diferença no mundo e fez, entregando algo a mais do que lhe foi pedido, realizou mais do que deveria, e surpreendeu a todos com seu exemplo de missão. Minha homenagem é para esta grande mulher, Maria da Luz Augusto, a nossa querida Lulu, mulher que não vivia em sua zona de conforto, pois sua batalha era maior para que ficasse sem ação, vivendo despreocupadamente.

Tarefa árdua escrever sobre tão importante mulher, mas gratificante pelas vitórias de lutas travadas pelo bem e pela justiça.  

Interessante lembrar o que Clarice Lispector disse sobre a mulher.

O destino de uma mulher é ser mulher. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

 E Lulu era uma representante da mulher. Mulher que o tempo ensinou. Ensinou a amar a vida e jamais desistir de uma luta, se preciso fosse recomeçava na derrota, e seguia em frente para sentir o sabor da vitória. Lulu aprendeu a viver em tempos rudes. Conviveu com muitas contradições, viveu-as como lições de vida e as usou como muita sapiência.

Sofreu por ser mulher em um tempo em que tudo era em favor do homem, e ela viveu à frente de seu tempo, uma vanguardista.

Lulu possuía uma enorme parcela consciente e combativa, ideias de justiça. Foi pioneira desbravando arduamente caminhos da cultura, do teatro, da novela, do jornalismo, da poesia. Para ela não existia a palavra impossível. Era sinônimo de esforço e determinação.

Sempre tive grande admiração por ela, seus conhecimentos iam além em vários assuntos. Frequentemente eu a visitava para degustarmos um saboroso cafezinho, o qual era regado com boas conversas sobre seus poemas, seus desenhos e suas pinturas, gostávamos de falar sobre seus projetos, suas dificuldades em realizar certas coisas, que eram de grande importância para a população de nossas cidades. Por ser mulher, solteira, batalhadora, guerreira sentia o ciúme de certas “mulheres”. Infelizmente, hoje ainda existem mulheres que se abalam com o sucesso da outra. O que deveria ser motivo de união, inspiração e garra para que com sua força auxiliar a companheira quando fosse necessário. Lulu não se abalava com essas pequenezes, e sempre dizia: na boca das recalcadas sinto-me poderosa, e era. Lulu nunca foi princesa, pois trocou a coroa por uma couraça. Quando eu a questionava sobre tantas dificuldades para realização de certas situações ela respondia:- construí uma couraça a minha volta, nada me derruba. E quando tentam me derrubar, me equilibro para cair em pé, jamais vou sucumbir perante nenhuma limitação. Ela era assim, forte e cabeça erguida, passou por grandes tribulações, sempre pela justiça. A história de vida desta grande mulher é às vezes, intrigante, vale a pena saber tudo. Um fato muito chocante foi quando ela escreveu a novela “O crime do Iguaçu”, ocorrido em uma zona de meretrício, episódio real, que envolveu presumidamente pessoas influentes das cidades. Lulu em cada capítulo colocava um pouco da verdade, ocorrida na ocasião em que a menina Zilda foi morta. No último capítulo, tudo mudou, e ela foi ameaçada e proibida de colocar a novela no ar, estavam prontos para prendê-la.

Porém, algo extraordinário aconteceu, muitas meretrizes se uniram em torno da rádio onde estava sendo transmitida a novela, e não deixaram que a prendessem. Foi um marco nessa história, porém o último capítulo foi proibido de ir ao ar. E assim, era a nossa valorosa Lulu, abriu muitos caminhos para o reconhecimento de sua capacidade. Foi protagonista na execução de todos os seus projetos e sempre foram e continuarão sendo garantias da construção de uma sociedade justa, fraterna e igualitária.

Primava sempre “Pela liberdade de expressão, por uma sociedade menos desigual e em repúdio a intolerância e ao preconceito”.

Todas as histórias da Lulu, foram consagradas e são dignas de conhecimento geral. Interessante frisar que nossa jornalista possuía uma certa semelhança com Virgínia Woolf como podemos observar neste texto.

“Tranque as suas bibliotecas se quiser; mas não há nenhuma porta, nenhum cadeado, nenhum ferrolho que você pode colocar sobre a liberdade da minha mente”.

Lulu Augusto merece todas as homenagens a ela destinadas.

29 de out. de 2021

Quantas pessoas ainda vivem assim


 

Imagem do google

 

À tardinha de um dia com muito sol, resolvi fazer uma caminhada, pois a pandemia me deixou quieta em casa, por muito tempo.

Agora, como tudo parece estar mais calmo decidi que devia voltar a caminhar.

Gosto desta atividade, pois me dá muita liberdade para admirar toda a beleza da natureza. Percebi que sentados na grama havia uma família bem unida literalmente, estavam dividindo alimentos. O pai cortava em quatro pedaços o pequeno pão que tinha em suas mãos. Chocou-me muitíssimo aquela cena, prestei mais atenção. Depositada na grama estavam uma bolsa de lona suja e um cão, o qual também ganhou um bocadinho de pão. Após todos comerem, o pai retirou da sacola quatro bananas bem maduras, cada um ganhou a sua, o cão ganhou um pedaço de biscoito. Era a sobremesa e, havia mais, todos ganharam um pouco de refrigerante, que deveria estar quente devido ao calor, no mesmo copo descartável cada um tomou o suficiente. Ah, o cão tinha uma latinha com água, que foi tirada de uma garrafa pet.

E todos estavam surpreendentemente felizes.

Parei para conversar com eles, lindos e unidos. Quis saber a sua história. O nome do marido era Altamiro, ele então me contou que trabalhava cuidando de cinco grandes jardins, e sua esposa dona Neide trabalhava como diarista em quatro casas, das quais ele cuidava dos jardins. Contou-me que ganhavam razoavelmente bem. Continuou falando, mas muito emocionado, nossos dois filhos estavam na escolinha. Tudo ia muito bem até a chegada da pandemia. Meus patrões me dispensaram, pois, a época era de muitas mortes, minha esposa também teve que parar com seu trabalho, nossos filhos ficaram em casa. Tínhamos uma casa, alugada, mas confortável, a esperança era de que tudo logo ficasse bem. Tínhamos dinheiro para um bom tempo sem passarmos necessidades, porém o tempo foi maior, que o esperado, e hoje estamos sofrendo as consequências da pandemia.

A dona da casa, na qual morávamos nos determinou um tempo para que a desocupássemos. Parecia um pesadelo, os poucos parentes tentaram nos acolher, mas não tinham condições. Sabe, moça tenho até vergonha de falar tudo que passamos para sobreviver, só não roubamos.

Pedíamos comida, falávamos a verdade. Caso nos dessem um serviço, ficaríamos contentes em fazê-lo por um prato de comida.

No início até as contribuições eram generosas, mas aos poucos cada um se fechou no seu mundo. Hoje só isso que conseguimos para comer. Tenho vergonha por ser um homem forte e não ter serviço para mim. Já fiz um pouco de tudo, mas sempre é por pouco tempo. Percebi que tinham algumas roupas e, até mesmo um pedaço de colchão. Ele explicou que sempre procuram um lugar seguro para dormirem, o cão estava sempre atento.

Contou-me que um senhor lhe arrumou um serviço para ele limpar seu jardim, mas só para o final de semana seguinte, após passarem as chuvas. Minha mente estava confusa, um turbilhão de pensamentos me deixava sem saber o que fazer.

Como ajudar?

E quantas pessoas estão vivendo nestas condições?

No momento em que estávamos conversando, um casal se aproximou, notei que já se conheciam.

A mulher começou a falar.

Altamiro, nosso vizinho tem um barracão em ótimo estado, arrumamos tudo, e o deixamos em condições de vocês morarem por um tempo lá.

Muitos amigos nos ajudaram, ganhamos um fogão, instalamos uma pequena cozinha, tem um banheiro, que fazia parte do local, improvisamos quartos e camas para vocês. O chuveiro foi instalado há pouco. Uma loja local doou algumas roupas. O material de higiene foi doado por uma drogaria, para o momento vocês têm o que precisam para ter uma vida um pouco melhor, que às ruas. Percebi que as lágrimas escorriam em todos os rostos, eu que já estava crente de que nada mudaria com a pandemia, que a empatia tão citada não era real, porém eu estava registrando com meus olhos a bondade de um grupo de pessoas ajudando seu próximo.

O casal encaminhou a família para o carro, mas antes seu Altamiro fez questão de se despedir de mim e me agradecer. Não sei o porquê do agradecimento, mas fiquei feliz por eles.

Sabemos que muitas famílias ainda passam por esta amarga situação. Muito triste.


Queridos amigos, justifico aqui a minha ausência. Fiz um procedimento cirúrgico no olho esquerdo, só agora estou aos poucos voltando a escrever. Saudades de todos.

26 de set. de 2021

Vamo falar de "Good Girls"


Enquanto a chuva cai lá fora e respinga na janela da sala, mexo minha colher de chá lentamente, misturando o líquido ao açúcar, enquanto penso se todo o vício é maléfico. Serei mais específica, vício em artes é maléfico? Como vício em séries e filmes? Talvez quando você exclui a sua vida social por eles, sim. E a desculpa sempre aparece no mesmo tom: “mas está tão boa, só mais este pedaço e desligo”. E, quando percebemos, entramos de madrugada com os olhos e ouvidos vidrados na telinha. Não me considero uma viciada em séries ou filmes, (ainda), mas confesso que já maratonei algumas vezes. A última, que não faz muito tempo, foi com a série” Good Girls”. Série que você acha que não vai dar em nada, que é mais um amontoado de besteiras, porém se surpreende quando se vê torcendo por este ou aquele personagem. Costumo dizer que no episódio dois já me considero da família, e tenho os meus afetos e desafetos. Mas voltando à série, “Good Girls” foi uma grata surpresa, que tem seus encantos, sim. Talvez tenha dado certo pela química entre as personagens principais, ou pelos estresses nos bastidores (revelados nas redes sociais). A questão é que, mesmo sem continuação (já declarada pela Netflix), ela vale as horas assistidas. A história, nada muito surpreendente, narra a vida de três pacatas donas de casa que bolam um roubo ao supermercado local para sair do sufoco da vida, a falta de dinheiro e conquistar a independência. Puritanismo à parte, você se pega torcendo por elas, seja pela simpatia, seja pelo espelho. E daquele pequeno roubo a um mercado local, a teia vai apenas emaranhando ainda mais a vida daquelas três mulheres, algo que elas nunca puderam imaginar. E como toda e boa série que, para nos prender não pode manter o foco apenas em um fato, para não se tornar monótona, ela desenrola vários relacionamentos: marido e mulher, pais e filhos, amigos. Levanta várias questões, nos faz refletir e, algumas vezes, um leve nó na garganta surge. Lembro que comecei assistindo meio sem querer, o botão do controle subindo e descendo várias vezes, nada que fizesse meus olhos pararem. Interrompi a procura e fui à cozinha buscar algo para comer, e levar embora meu tédio, mas quando voltei, na tela passava a propaganda da série, e foi ali que ela me ganhou. “Good Girls” é uma série despretensiosa, foge do glamour hollywoodiano, até mesmo pelos atores que interpretam os papéis principais e secundários, o que é muito bom, por sinal, abre o nosso leque de opções de atores, e nos faz conhecer o que antes era desconhecido ou pouco valorizado (até por questões de cachês) nos grandes filmes. E, sim, mesmo tendo apenas quatro temporadas e um final sem pé nem cabeça (na certeza de que eles queriam continuar), vale muito à pena, e não apenas para um sábado à tarde para quem não tem nada para fazer. Olhando atentamente e prestando atenção, dá para tirar um bom proveito da série, “Good Girls”. Fica o gostinho da curiosidade.

27 de ago. de 2021

O mais doce perfume

Naquela tarde gelada, fui convidada por um amigo de longa data para um café, que foi regado a lindas histórias sobre a vida. A história que deu início a nossa conversa foi sobre seu pai, uma longa conversa. Eu pensei que o conhecia, porém ao ouvir seu mais comovente relato, resolvi compartilhá-la. Ignoro o porquê de não saber algo tão marcante na vida e lembrança do meu amigo. Contou que o pai era um excelente entalhador, esculpia verdadeiras obras de arte em qualquer móvel de madeira, muitos deles ainda fazem parte da vida de algumas famílias, pois o entalhe era feito sempre em madeira de lei por ser madeira dura. Fazia a escultura que lhe pedissem em móveis fantásticos, tinha um dom maravilhoso, era abençoado. Recordou, penso que devido ao imenso e atípico frio do momento, das tardes frias, quando ia com seu papai à fábrica, ia na parte traseira da bicicleta, havia um travesseirinho para que ficasse mais confortável. O frio era imenso, por isso ele usava as costas de seu pai como barreira para espantar o vento gelado que parecia cortar sua pele. Falou que recordava do cheiro, que vinha da roupa dele enquanto encostava o nariz em suas costas, era uma mistura de serragem com uma certa umidade do ar, aroma que continua sendo inesquecível, não há comparação com nenhuma fragrância que conhecia, comentou ele. Perguntei que idade ele tinha naquela época. Respondeu-me rapidamente, sem pensar. -Eu tinha cerca de quatro anos, lembro-me bem, pois minhas pequenas pernas abraçavam com dificuldade a garupa da bicicleta, meus braços curtos não conseguiam abraçar a cintura dele por completo, então meus dedos agarravam seu casaco com tanta força que minhas digitais ficavam ali por muito tempo. Minha mãe estava sempre trabalhando, por isso achavam melhor eu ficar com papai, o que lhe era permitido. Contou-me os vários motivos que o faziam ir com seu pai, à fábrica. Disse-me com orgulho que ele era um marceneiro muito conhecido por seu rico trabalho. Era mestre em entalhe, um verdadeiro escultor da madeira. Contou que durante o trajeto, seu pai sempre falava com muito conhecimento o nome das árvores pelas quais passavam, mas a que ele mais gostava e, ainda lembra claramente é o pinheiro do Paraná. Recebia do pai uma verdadeira aula com seus conhecimentos, graças a isso, conhece muito sobre a araucária, a semente mais saborosa e, o melhor, a natureza nos dá de graça. Lembrou com muito carinho dos invernos quando comia pinhão, assado, cozido, salpicado. Lembrou do pai chegando em uma noite com duas sacolas cheias de pinhão, pois na madeireira havia muitos pinheiros, carregados com tantas pinhas que todos os empregados levavam várias sacolas para casa. E o mês passava, e sua mãe usava sua criatividade em pratos elaborados, uma vez até na sobremesa achou alguns. (deu um largo sorriso) Meu amigo querido fechou os olhos para sentir-se em meio à natureza e o cheiro das árvores o transportaram a um passado bom, um tempo em que tudo era simples e belo, tudo tinha um ar de aconchego e bem estar. Disse sentir saudades das caronas com o pai, da mãe na cozinha fazendo pinhão, de ouvir os nomes das árvores e, não ter noção alguma de que havia outros mundos além do seu. Saudades de sentar-se à mesa da casa humilde e quentinha, das histórias do pai, das risadas da mãe, e de ser levado à cama nos braços do pai, pois sempre dormia antes do final da história. Falou da imensa saudade que sentia de apertar o casaco dele, e saber que estava seguro ali, de apertar o nariz contra suas costas e sentir seu cheiro de serragem e umidade. Custou muito tempo para perceber que nem o perfume mais caro do mundo é tão bom quanto aquela fragrância, se a saudade tivesse cheiro este seria o dela, falou quase murmurando. Emocionei-me tanto que não contive as lágrimas, e num abraço fraterno nos despedimos.

Jô Soares

  Aqui tem feito dias de céu azul e, às vezes, cinza.  Lembro que justo neste dia, o céu estava azul, a temperatura agradável, ainda estava ...