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15 de set. de 2013

Haverá um céu azul ?


já passam das duas da manhã
o vidro do carro embaçado pela respiração forte e densa
a chuva lá fora não permite abrir a janela
o tic tac do relógio o aflige
no rádio do carro, Djavan canta Flor de Lis
nunca entendera aquela letra
o café comprado há cerca de meia hora já estava frio no porta copos
seus olhos perdidos, acompanhavam o vai e vem dos limpadores
não sabia se continuaria ali ou se entraria
sempre fora um covarde
duas ambulâncias passaram por ele, com as sirenes ligadas
talvez fosse o sinal que ele estava esperando, e pedira a Deus minutos antes
respirou fundo, retirou o relógio, deixando-o sobre o banco
ao sair do carro, os pingos logo encharcaram seus cabelos grisalhos
fechou a porta e ligou o alarme
entrou no prédio
usou as escadas, o elevador tinha câmeras
subiu de dois em dois degraus, chegaria mais rápido, pensou
parou em frente à porta 210, soltou o nó  da gravata cinza chumbo
a camisa branca estava colada ao corpo
deu duas voltas na chave, entreabriu a porta
não estava pronto para ver o que seu apartamento escondia
ainda não...

entrou, sem acender a luz
fechou a porta, sem trancá-la
foi até o aparelho de som, guiado pela luz do aquário, no fundo da sala
apertou o play, Djavan agora cantava "Um amor puro"
lembrara, naquele momento, que não desligara o som do carro
a bateria, com certeza, não aguentaria a noite toda
sentou-se na confortável poltrona, presente de sua mãe no Natal anterior
ao lado, na mesinha, uma garrafa de uísque escocês, presente do seu pai, pelo aniversário de 40 anos
pegou o copo, duas pedras de gelo
misturou o uísque com o gelo usando os dedos, fixou o olhar naquelas pedras que confundiam-se com o uísque
tomou um bom gole
repousou o copo na mesinha, pegou a garrafa e foi até o quarto
os lençóis abarrotados, travesseiros no chão
abriu a garrafa, tomou mais um gole e sentou-se aos pés da cama, de frente para o espelho

frases soltas, escritas com batom, davam fim a um relacionamento de quinze anos
a despedida era feroz, rasgava o peito, ardia
mais um gole de uísque que descia denso pela sua garganta
num ataque de fúria, a garrafa voou de sua mão até o espelho à sua frente, estilhaçando-o
do que valia o amor naquele momento?
Djavan não sabia responder em suas letras
a voz, estridente no apartamento quase vazio, rodeava os pensamentos daquele homem sôfrego
levantou-se e foi até a janela, viu o seu reflexo misturado aos pingos de chuva do lado de fora
foi até o banheiro e acendeu a luz, sua amante, sua mulher, sua amada, sua amiga, caída no chão, sem pulso algum
seus belos olhos azuis, vidrados no nada
um pequeno vidro de remédio para dormir ao seu lado, os comprimidos espalhados no chão
ele abaixou-se, tirou os cabelos que tampavam um pouco seu belo rosto pálido
beijou-lhe a face
levantou-se, desligou o chuveiro, e voltou para a sala
iniciou novamente a música do Djavan
ergueu o volume
foi até a sacada
a chuva molhando seu rosto
abriu os braços e cantando Djavan, atirou-se do décimo andar:




“ aqui, ou noutro lugar, que pode ser feio ou bonito, se nós estivermos juntos, haverá um céu azul”.

  




O porta-retratos

  Foto do google     Era quase uma da manhã, lembro-me que estava inquieta naquela madrugada, talvez pelo vento, que fazia o galho bater...