13 de mar. de 2024

A carta que nunca chegou

 



 

Tarde cinza, vento forte fazia os galhos das árvores dançarem no jardim. Eu precisava finalizar a mudança que começara há dois anos, naquele dia estava decidida a isso.

Sentei-me no chão frio do quarto, a última caixa findaria “ a saga da mudança”. O estilete seguia a linha no meio da caixa de papelão, cortando a fita, abri as abas da caixa.

Fotos, cadernos, rascunhos, canetas e memórias pulavam dela o tempo todo, a cada foto que eu pegava. Em cada papel fotográfico, um cheiro, uma saudade, ou uma dúvida.

Fotos fazem tantas coisas em nossas almas, embaralham nossos pensamentos e nos levam para tempos que, às vezes, não queremos revisitar, porém nosso inconsciente (ou consciente), não nos permite jogar aquele pedaço do tempo, no lixo.

Fui esvaziando a caixa, e enchendo a minha mente, no fundo, um pedaço de papel amarelo, dobrado três vezes. Abri.

Era uma carta datada de 1962. O que me causou uma certa estranheza, foi a escrita, não a reconheci como de ninguém próximo a mim. Ajeitei um pouco o corpo, recostando minhas costas na cama para ler.

“Minha querida Laura...”,

Com certeza não era de ninguém da minha família ou círculo próximo.

“... hoje não foi um dia fácil pois, estar longe de você é intolerável. Eu poderia esperar para lhe dizer tudo pessoalmente, porém, tenho a sensação de que isso, não será possível. No primeiro porto, providenciarei o envio desta carta. Talvez consiga com o Milton, da loja de penhores, sempre muito prestativo e atencioso com a nossa história, com o nosso amor.  Sei da desaprovação da sua família, jamais quiseram o nosso amor. Meus pensamentos, assim como as lágrimas rolam de saudade. Tenha a certeza de, que podem me mandar para o outro lado do mundo, eu acharei uma forma de sempre chegar até você.

Sempre seu,

Estácio.

25/08/1962”.

Uau, foi o que saiu ao finalizar a carta. É claro que meus pensamentos voaram para 1984, no meio do mar, aquele infinito, um homem solitário, um papel e uma caneta. Um porto, um amigo confidente, um amor proibido, um romance digno de streaming. Eu queria saber mais, queria saber se Laura e Estácio ficaram juntos para concretizar o amor, se foi Milton quem entregou a carta para ela. Mas não sabia nem por onde começar, ou melhor... talvez eu soubesse sim.

A caixa eu lembrava, havia pego em uma pequena mercearia, na minha antiga cidade. Talvez de lá saíssem mais respostas.

Olhei no relógio, já passavam das cinco horas da tarde. Se eu saísse naquele instante, chegaria naquela mesma noite. Guardei a carta na bolsa, troquei de roupa e saí. Eram quase dez horas da noite quando cheguei ao portal da minha cidade. Um suspiro me fez lembrar que nada havia mudado em muitos anos, um dos motivos que me fez ir embora. O mais irônico, é que sou uma mulher ligada às novidades, tecnologias e estava justamente voltando ao passado com uma das formas mais antigas de comunicação: a carta.

Antes de ir ao hotel, eu precisava ter a certeza, de que, o mercadinho ainda existia, por mais que eu soubesse que sim, precisava constatar. Lá estava ele, “La Barca Mercearia”. A mesma fachada, a mesma vitrine, com certeza os mesmos donos. Naquela hora, a cidade já dormia. Saí do carro, fui até a porta, bati no vidro. Esperei alguns minutos, e lá estava o senhor Gusmão, proprietário da loja, apertando os olhos por detrás das grossas lentes dos seus óculos para tentar reconhecer, quem batia àquela hora.

Eu disse: -Sou eu, senhor Gusmão, a Andréa. Como vai?

 Sorriu e virou a chave abrindo a porta.

- Quanto tempo menina! Estou bem e você? O que faz a essa hora, está de volta?

- Na verdade, só quero esclarecer uma dúvida.

- Entre, o que você precisa?

- Encontrei esta carta em uma caixa que o senhor me deu, no dia da minha mudança. O senhor a reconhece?

Seus olhos marejados, leram cada linha.

- Então estava com você?

- Eu a coloquei na caixa, deveria ter sumido com ela, mas não consegui. Vi a caixa vazia, e a deixei ali, até resolver o que fazer. Quando você entrou pedindo caixas, achei que era um sinal, e não pensei duas vezes. Pelo menos esta porcaria iria para longe e, nunca mais eu teria remorso ao ler estas linhas.

- Desculpe, não estou entendendo nada.

Ele respirou fundo, passou as mãos no rosto e balbuciou algo, que eu simplesmente não entendi.

- Não escutei senhor Gusmão, o que o senhor disse?

- Eu sou o Milton.

-  O Milton da loja de penhores?

- Sim, o Milton da loja de penhores, o Milton amigo, o Milton confidente e o Milton que destruiu duas vidas, três, na verdade.

- Mas como... o seu nome... o seu sobrenome. Nunca me atentei a isso, nunca soubemos o seu nome.

- Quando eu cheguei aqui, estava disposto a apagar tudo. Mas esta carta era uma triste sentença. Laura estava prometida a um outro homem, família importante, sobrenome, fatos que a gente acha que só existem em filmes. Quando eu conheci Estácio, ele me apresentou Laura apenas falando dela para mim. Dia após dia, me apaixonei por ela. Ele viajava muito, muitos meses longe, e eu fui me aproximando dela, me passando por Estácio, nas cartas. Ele as mandava para que eu as entregasse. Eu abria, lia e treinava a caligrafia. Mudava algumas palavras, as que eu queria dizer para ela, dobrava em três partes, como ele fazia. Foram anos e anos, por migalha de um amor que nem era para mim. Esta carta, foi a última notícia que eu tive dele. Eu não estava na loja quando ele a deixou, abri e li, senti como uma despedida. Isso significava que era o fim para mim também, e esta carta nunca chegou até ela. E nenhuma outra chegou até a minha loja. Não sei se o mar o levou em definitivo, ou se ele está por aí, vagando sem destino pensando nela. Por minha causa, esta carta nunca chegou, ela nunca teve mais notícias dele, e decidiu assumir o acordo que os pais haviam feito. Tempos depois ela estava casada, com filhos e indo embora para outro país. Nessa história toda perdi um amigo e um amor. Abandonei tudo e vim para cá. Mas o passado veio junto.

- O senhor não teve mais notícias dela?

- Nunca mais.

- Senhor Gusmão, encerre essa história. Mande a carta para ela.

- Não posso.

- O senhor deve isso a eles.

Um silêncio gritante dominou o ambiente.

Ela foi para Cremona, Itália.  

- É a sua história, o senhor precisa dar um ponto final.

- Não preciso, não vou. A vergonha não me permite. Por favor, vá embora.

Antes de sair, guardei a carta. Na vidraça, o reflexo de um homem arrasado pelo seu passado. Aquela história não era minha. O ponto final não poderia ser dado por mim. Entrei no carro, tudo aquilo não me permitiria dormir. Passei no posto, abasteci, liguei o carro, dobrei a esquina e segui rumo à minha cidade, deixando o passado onde deveria ficar. Às vezes, algumas histórias, não precisam de um ponto final, pelo simples fato de que, talvez, elas nunca tenham. Abri a janela e, antes de pegar a rodovia, a carta voou da minha mão e foi para longe. Mais uma vez.

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