Apreciadores de Um Naco de Prosa

17 de set de 2016

Certos dias...

E, naquele dia, ela só queria chegar em casa, tirar seus sapatos velhos e gastos e sentar-se no sofá.
A semana tinha sido daquelas em que quase nada dá certo, e a pessoa não sabe como seguir em frente,  parece perder as forças,
foi até a cozinha, ferveu um pouco de água, pegou um saquinho de chá de camomila, colocou na xícara, despejou a água,
a fumaça embaçou seus óculos.  

Olhou pela janela, a árvore balançava suas folhas como num balé, vezes arranhando sua janela convidando-a para dançar.
O sol já estava indo, na verdade, naquele dia, quase não aparecera, ficara entre nuvens, deixando o dia ainda mais cinza.
Pegou o açucareiro, despejou três colheres e mexeu, sem pressa, divagando ainda nas folhas que dançavam na árvore a sua frente
Voltou a se concentrar no momento, pegou a xícara, ligou a TV, sentou-se na poltrona.
Notícias trágicas não eram o que ela queria, foi percorrendo os canais, trocando-os aleatoriamente, porém, parecia que o mundo todo estava em guerra: mortes, assaltos, estupros, sequestros, bombas, tornados, furacões, ela só queria descansar os olhos.
Desligou a TV. Foi até a lareira, ajeitou alguns pedaços de lenha que ainda restavam, ateou fogo e voltou a sentar-se na poltrona com a sua xícara de chá. 

Entre um gole e outro, podia ouvir o som que o fogo causava enquanto queimava a madeira, de uma forma estranha trazia-lhe conforto,  fazia-lhe viajar no tempo e voltar para os dias de sua infância, quando, ali mesma, sentada no colo de sua mãe, enquanto ela lhe contava histórias, ouvia aquele  mesmo som.
Hoje, a casa ficara enorme e, mais vazia para ela. O som da madeira queimando era mais estridente, o eco propagava-se.
Olhou para cima, a escada de madeira levava para os cômodos e banheiros, antes ocupados pelos irmãos, avós e pais.
Hoje, trancado pois não precisava mais, de tantos cômodos.
Amizades que se perderam no tempo, parentes que foram embora, o o tempo passou tão rápido que ela não se deu conta de cuidar da sua vida, que ela não se deu conta de se preparar para a solidão que ela encararia, todos os dias, naquela casa enorme onde foi criada com tanto amor e tantas pessoas...
O chá havia acabado, sobrando apenas um pouco de açúcar no fundo e o saquinho, já ressequido. Ela olhou para a parede, fotos penduradas, lembranças emolduradas.
Sorriu sozinha e balançou a cabeça para espantar a lágrima que teimava em rolar por sua face.
Levantou-se, deixou a xícara na pia. Olhou pela última vez os galhos e as folhas da árvore ainda dançando. Do outro lado, um pequeno gato, com pelos manchados ou talvez sujos, miava enquanto olhava para os lados. Talvez, alguém o tenha abandonado e ele não sabia como voltar para a sua casa. 
Sentiu-se como aquele gato, perdida, solitária, pedindo por socorro sem ser notada. Abriu a porta da frente, abraçou-se ao próprio corpo, estava frio naquele fim de tarde. O gato não se moveu. Aproximou-se, abaixou-se, e acariciou sua cabeça. 
Levantou-se e voltou os passos em direção à sua casa.
Quando ia fechar a porta, ele voltou a miar, sentado em seu tapete de boas vindas.
- Entre, “senhor”! Venha aquecer-se comigo.
Ela iria pensar em um nome para o seu novo amigo posteriormente, agora só queria repousar e conhecer seu visitante. Na certeza, de que tudo vem na hora certa, e de que ela não estaria mais sozinha. 
O gato aninhou-se em seu colo, ronronando suavemente como forma de gratidão. 

Fotos: Google


12 de set de 2016

O valor das pequenas coisas.

foto do google
Na semana que passou recebemos algumas pessoas em nossa casa.O dia começou com um lindo céu inteiramente azul. Havia muita comida, pois como eram pessoas conhecidas de todos os membros da família, cada um trouxe um prato com sua especialidade na cozinha, era tanta comida que não haveria tempo para comê-la.
As crianças brincavam com seus companheiros da mesma idade, já faziam seus grupinhos, meninas longe de meninos, pois é , enquanto são pequenos ficam distantes, após um pouco de idade é um grupo apenas. Como o barulho e brigas estavam ficando intensas entre as crianças, a mãe de uma delas resolveu dar lições de moral  em todos os pequenos. Chamou-os, sentou com eles na grama e falou sobre o respeito, o valor das pessoas mais velhas, a importância do silêncio, o valor da amizade que havia entre eles e, a qual permaneceria para toda a vida , se assim o quisessem, repetiu muitas vezes a importância das palavrinhas mágicas, como: Obrigado! Com licença! Por favor! Desculpe, e outras. As crianças ouviam com muita atenção.Em seguida, ela contou uma pequena estória, para ilustrar crianças educadas e outras nada educadas, fez com que todos percebessem a grandiosidade que há em respeitar a todos com igualdade de direitos.Vou chamá-la de Marta, a mãe de uma pequena menina, muito linda, ela chamou sua filha e a testou com um questionário oral, para mostrar a todos o valor de suas palavras, inclusive nós, só a voz dela era ouvida e acatada. Foi muito interessante quando Marta pediu a sua filha que fosse buscar um copo de refrigerante, e que o solicitasse à dona da casa. Sob os olhares de todos, a menina foi, pediu com muita educação e, no exato momento em que virou-se para voltar, lembrou-se de que não havia agradecido, então o fez com muita alegria. 
Ao entregar o copo para sua mãe, foi elogiada e todos perceberam que a lição foi aprendida e apreendida.
A festa continuou com muita alegria e paz. 
À noite chegou, mas a festa continuou, muitos copos foram quebrados, os cacos foram colocados em uma caixinha de papelão para que fosse recolhido pelo  caminhão de lixo,pois mesmo sendo final de semana , ele passaria . Comentei, que eu sempre colocava um papel bem grande, no qual eu escrevia " VIDRO QUEBRADO". Expliquei que era para que os funcionários da coleta não cortassem a mão, pois às vezes, não recolhiam por medo de atingir os outros desavisados. 
O lixo foi colocado fora da casa, todos ajudaram a colocar a bagunça em ordem. 
De repente, as crianças gritaram, olha o caminhão do lixo! E como se fosse um acontecimento corremos para fora. Um funcionário uniformizado foi pegando as sacolas e entregando ao outro que estava dentro do caminhão, quando pegou a caixa com os cacos de vidro, teve o cuidado de abrir e mostrar ao colega o conteúdo da mesma, o qual  fechou-a e colocou mais ao lado, a filha de Marta bateu palmas e gritou contente:-
-Obrigada, moço!
- Por nada !
Marta, ficou vermelha como um tomate e disse:- filha o que é isso? Ele é apenas um lixeiro.  
foto do google

27 de ago de 2016

... e o tempo leva.

Os anos passam, e já não nos lembramos mais da ardência do merthiolate nos joelhos ralados, da dor das lágrimas derramadas pela perda de um ente querido ou de um amor não correspondido.
Com o tempo, dissipam-se sonhos e aumentam-se receios. Já dizia, Bruno Rapfael da Cunha Dobicz:- "A dádiva do tempo é nos fazer perceber que amadurecimento não significa idade, mas sim, acúmulo de sorrisos, que passaram a existir depois de muitas lágrimas derramadas."
Isso é viver a vida em sua totalidade, entregar-se sem máscaras, pois tudo faz parte do amadurecimento, do crescimento mental, físico e espiritual.
Esses dias, no Face, li uma frase que dizia que a decepção com outras pessoas em quem acreditávamos nos torna mais apreensivos,
é natural.
O não natural é você deixar de acreditar em todos, e viver em uma redoma criada em sua mente, generalizando e tendo a certeza, de que ninguém mais é confiável. 
A vida é um constante errar e acertar, cair e levantar, rir e chorar.
E, no final, o que importará mesmo, é o aprendizado que você tem na bagagem.

Foto: Google

22 de jul de 2016

O tempo que nos é dado

Fico pensando quanto tempo perdemos em nossas vidas esperando para sermos felizes apenas nos finais de semana. Com certeza, você já ouviu um colega de trabalho, um amigo, ou até um estranho na fila do mercado dizendo, com o tom de resmungo, num final de domingo: “ah, amanhã já é segunda-feira?” Esperamos um determinado tempo para sermos felizes, o problema é que não pensamos que este tempo pode não chegar. É nítido, num ambiente de trabalho, o humor mudando conforme a semana corre. Na sexta-feira, o clima de festa contagia a todos! Sorrisos, brincadeiras, músicas e até colegas pulandinho na cozinha, enquanto esperam o café ficar pronto. Porém, e se esta for a sua última sexta-feira? E você sempre espera pela próxima, esquecendo que todos os dias devem ser vividos, sentidos ao máximo. E se, na próxima sexta-feira, você se encontrar acamado, em um hospital, ela ainda será mágica? Devemos ter a consciência de que não somos eternos aqui na Terra e que, de pronto, sem esperarmos, somos levados daqui para o plano espiritual. E, nos é arrancado lar, família, posses e aquele café que tomávamos na cozinha sexta passada. Não sei se é algo cultural, mas o final de domingo e a segunda-feira sempre foram vistos como tediosos, deixando as pessoas mais caladas, mais introspectivas e menos “felizes”. Cantemos, dancemos todos os dias. Celebremos algo que nos foi emprestado e que será tomado de volta a qualquer momento: a vida terrena. Não deixemos de sonhar e ansiar o futuro bom, mas vivamos a realidade do agora, que para muitos, não existe mais. Glorifiquemos as horas, os instantes e todos os dias... sejam segundas, terças ou sextas. Todos têm sua magia, pois ela depende apenas de nós mesmos. Deus nos dá novas chances todos os dias.


19 de jul de 2016

Ter ética e ser feliz.

Os verdadeiros amigos, nos fazem bem, sabemos disso com certeza, pois quem tem amigos pode se considerar dono de um tesouro imensurável.
Ouvindo o grande professor e historiador, Leandro Karnal, pelo qual tenho grande admiração, em uma palestra ele citou várias vezes, a importância de uma grande amizade, porém enfatizou a importância de termos ética. Achei muito pertinente, pois ele disse que quem tem ética é muito mais feliz, pois tem amigos, diferente de quem não a possui sendo assim, não tem amigos, tem cúmplices.
Amigos são poucos e raros, mas sentem-se bem, pois possuem ética, enquanto os maus apenas temem um ao outro. Penso que nada  faremos de mal, ao nosso amigo e, nem ele a nós, pois há um sentimento de honradez entre amigos leais, diferente, dos que são apenas cúmplices, e desperdiçam seu valioso tempo sendo aliado para tudo, por exemplo: se lhe for pedido para realizar um ato ruim, um ato criminoso, com certeza o fará, pois terá que provar a sua cumplicidade para mostrar-se "amigo". Vivenciamos muitos fatos relacionados a isso. Portanto, o amigo leal ficará conosco, em todas as fases da nossa vida, diferente do interesseiro que, de acordo com o que temos ou perdemos, ele vai se afastando.
Cícero já dizia:
- "Este é o primeiro preceito da amizade: pedir aos amigos só aquilo que é honesto, e fazer por eles apenas aquilo que é honesto" .
Sem dúvida a ética, nos trará mais felicidade e consciência tranquila, junto a muitos amigos leais.

6 de jul de 2016

O silêncio eterno.

Foto do Google
Hoje,a tristeza veio me visitar, lembrei com muita saudade de uma amiga muito próxima, na minha adolescência e juventude. Ela era muito bonita e vivia com muito entusiasmo pela vida. Estudamos juntas até o curso superior, aí, ela casou e assim ficamos mais distantes, porém eu sempre estava bem informada sobre a vida dela, assim como ela sobre a minha. 
Ela era professora em duas escolas, fazia os três períodos, dizia que logo diminuiria as turmas, pois ela já tinha um bebê, mas nunca conseguiu diminuir o número de aulas, pois outro filho nascera. O marido não dava conta de tudo sozinho, ela nunca reclamava, porém já não vivia com entusiamo de outrora.Certa vez, viajei para a cidade dela, marcamos um café, foi maravilhoso, pudemos falar e relembrar muita coisa juntas.Os filhos já estavam na faculdade, mas ela ainda continuava a trabalhar nos três períodos, estava feliz pois faltavam apenas, dois anos para sua aposentadoria, tinha mil planos. Ainda gostava de falar sobre tudo. Disse-me ela que os filhos eram maravilhosos, mas também gostavam de chamar sua atenção quando ela falava demais à mesa, riu muito.... disse-me ainda, que sentia vergonha quando pediam que ela não falasse sobre alguns assuntos, como doenças, mortes e outros assuntos, que a eles não interessavam,aí,ela riu e me disse:- Pior é que estes são os assuntos que me restam, e acabou rindo muito, talvez para não chorar. Perguntei a ela,qual foi a atitude perante isso? Ela me respondeu que agora ela come junto com a família,todo final de semana, o que ela mais gosta, mas fica calada, ou fala o essencial. Meu peito parecia doer demais depois que ouvi a história da minha amiga, ela precisava desabafar e o fez comigo, fiquei muito triste,ela nem percebia o quanto estava sofrendo calada.
Houve as despedidas. Fui caminhando e analisando a situação,ela, uma mãe dedicada, professora exemplar, esposa esforçada e que estava aos poucos se calando,devido a proibição velada dos filhos. Uma mulher cheia de energia, nunca deixou faltar nada aos filhos, ela que estava sempre de bom humor, sorria cheia de vida, estava ficando quieta, comigo ela desabafou, porém parece que ela aceitava como normal não poder falar o tanto que gostaria, participar mais da vida dos filhos, das conversas, das risadas. 
Os almoços de domingo, com todos à mesa, não podia faltar, pois era neste dia que as conversas eram divertidas e todos participavam das notícias. 
E, assim passou mais um tempo, quando recebi o telefonema de que a minha amiga havia falecido. Fiquei chocada, paralisada, lembrei da nossa conversa, dos planos, e nem chegou a se aposentar. Pensei: Será que a tristeza recolhida na alma, ajudou a minha amiga a ir embora, antes de realizar seus sonhos?
Cheguei quase  atrasada para o enterro, o caixão já estava sendo levado. 
Conseguiram calar a minha amiga para sempre.
Será que eles têm noção disso?
foto do google

11 de jun de 2016

Viver a solidão

O dia amanheceu com a temperatura baixa, dois graus negativos.
Eram cinco horas da manhã,
o sol ainda não havia despertado,
e ainda estava escuro.
O cheiro do pão assando no forno,
a manteiga sobre a mesa,
na parede de madeira, um quadro pendurado mostrava um casal.
Na velha geladeira, um pequeno crucifixo escondia a ferrugem da porta,
o silêncio imperava.
Sentou-se à mesa,
o pão recém saído do forno, emanava um delicioso aroma, e trazia a ela boas lembranças, lembranças
de um tempo que não voltaria mais,
de um tempo em que as crianças corriam em casa, e adultos conversavam em volta do fogão à lenha.
Aqueles domingos intermináveis, que o tempo não fazia questão de passar, e a chuva era bem vinda para irrigar a plantação.
Hoje, apenas lembranças... e o pequeno pão sobre a mesa...
Cortou uma fatia, um pouco grossa,
abriu o pote de manteiga, a qual
devido ao frio, estava um pouco dura,
mas a fatia quente derreteu quase instantaneamente aquele pedaço amarelo,
o bule de café já não precisava mais ser tão cheio, junto à
pequena caneca de esmalte, com alguns pedaços descascados.
Enquanto levava a pequena caneca à boca, a fumaça embaçava seus óculos, 
e ela se perguntava:- Como o tempo passou tão rápido, tão de repente?
A casa ficara tão grande, o assoalho tão silencioso
Sentia falta da companhia, sentia falta de um bom dia, sentia falta das risadas.
Levantou-se, enrolou o pão numa pequena toalha branca,
guardou-o dentro do forno,
retirou o bule da mesa, levando-o novamente para o fogão .


O sol já aparecia entre os morros
Logo, o galo cantaria e, mais um dia começaria
Mais um dia, a mesma rotina solitária.
Por onde andariam seus filhos, seus netos?
Por onde andariam àqueles que um dia tanto a alegraram?
A casa já não tinha mais tanto viço,
os dias já não eram mais tão esperados,
eram apenas mais um dia.
Agasalhou-se bem, pegou o pequeno balde com milho e foi alimentar a criação ,
que, já ansiosos, esperavam a pequena senhora, próximos à porta.
A passos lentos, chinelo de pano, forrado, arrastou-se pelo terreno
Milhos voavam pelo céu, caindo aleatoriamente pelo chão,
e,assim era seu dia.
Desde que eles partiram...
Quanto tempo mais seria assim?
Ela não sabia.
Há tempo perdera a esperança.


O dia escureceu. Trocou os chinelos e fechou a porta, ligando o velho rádio.


22 de mai de 2016

O perdão de uma mãe

Domingos são típicos para aproveitarmos ao lado da família, regados com bom papo e filmes. Principalmente, domingos cinza e frios, como estão sendo ultimamente em minha cidade.
No final do dia, aproveito para ver o que está passando no canal aberto. SBT, programa Eliana, um quadro me chamou a atenção.
Claro que o efeito de programas assim é utilizar-se ao máximo do recurso que os apresentadores, já escolados, têm em suas mãos: o sensacionalismo.
Mas, dessa vez, o apelo foi baixo.
Uma personagem, com os braços abaixados e mãos cruzadas, narrava sua juventude sofrida no interior da Bahia.
Parei para prestar atenção. Sempre aprendemos um pouco.
Num determinado momento, revelou-se o que aquela senhora, cujos olhos demonstravam toda tristeza, e um vazio imenso, buscava no programa: o reencontro com seus quatro filhos.
Devido a um marido machista, ele a expulsou. Mandou-a embora, sem nada, sem seus filhos.


E os anos passaram, ela voltou à Bahia algumas vezes, atrás de informações, mas foi como se eles virassem fumaça.
30 anos depois, Eliana, consegue ajudá-la, e encontra seus filhos. Porém, um deles não quis ir ao programa e conhecer sua mãe.
Claro, é aceitável, só Deus sabe o que o pai falou sobre a mãe biológica a eles.
Mas, pensei comigo... e se fosse o inverso? Eu tenho certeza,de que a mãe não pensaria duas vezes para tomar seus rebentos em seus braços, perdoá-los e viverem todos juntos, em harmonia, retomando a vida que lhes fora negada por terceiros.
Aí surge a dúvida: Por que para os filhos é mais difícil perdoar às suas mães? Já que o oposto não ocorre?
Mistérios divinos?
Uma vez li que mãe é um anjo que Deus manda à Terra para proteger Seus filhos.
Pois bem, se assim for, justifica-se que toda mãe perdoa. Que toda mãe ama incondicionalmente “seu pedacinho”.
Acredito que seja esse o papel principal: amar, amar e amar.
Quantos machucados já foram curados através do abraço de uma mãe, ou um beijo, ou apenas um afago?
Mãe nasce com essa fagulha a mais, com esse toque divino, porque deve ser assim.
Por isso, a poucas é dado tal privilégio.
Muitas colocam filhos no mundo ( vezes por um descuido ), mas poucas são mães.
Mas, voltado ao programa, no final, os três filhos que foram ao encontro daquela senhora, apenas uma, a filha caçula a abraçou com carinho e saudade. Os outros dois, ainda machucados, abraçaram aquela mulher como abraçariam a outra senhora qualquer, por educação.
O que também me fez pensar: que direito aquele pai teve em fazer isso com seus filhos? Que amor é esse que, por vaidade, pune a seus rebentos?
Ele construiu uma imagem monstruosa, que fez com que os corações dos seus filhos congelassem em relação à mãe biológica. E como reverter isso?
A mãe deles já sabe e demonstrou: amando-os incondicionalmente.
No momento certo, o amor os unirá, e dissipará toda mágoa e angústia que há ali. E os danos serão reparados.

O amor sempre dá um jeito de refazer, remontar e curar. Principalmente o de uma mãe.  

3 de mai de 2016

E agora? Bloqueou!

Mais uma vez, em menos de dois anos, um dos aplicativos mais baixados no mundo, o WhatsApp, foi bloqueado. Para quem ainda não sabe o motivo dessa decisão, segue o resumo: o processo exige que o WhatsApp divulgue dados sigilosos de conversas pelo aplicativo que poderiam auxiliar na investigação sobre um esquema internacional de tráfico de drogas. 
Pois bem, o aplicativo, é utilizado por milhões de brasileiros, seja para um simples bate papo, ou para informações profissionais. Muitas empresas utilizam a ferramenta para marcar reuniões, informar quanto a decisões ou solicitar algo aos seus funcionários.
É um meio barato de comunicação, não há custo algum para o cliente, que paga só os dados, quando os utiliza, das operadoras.
Através do aplicativo, é possível transferir arquivos, realizar chamadas e,isso sem pagar um centavo. O que o difere, e muito, das operadoras.
A questão é: até onde é correto o juiz banir a todos da utilização do Whats? 
Muitos brasileiros manifestaram-se em outras redes sociais ( ainda não bloqueadas ), sejam com piadas irônicas ou acusações políticas, dizendo que é mais uma forma do governo censurar a todos.
Outros falam em complô das operadoras contra o aplicativo, pois o bendito produto norte-americano, está roubando clientes, pois desde que surgiu no Brasil,  rapidamente ganhou adeptos, muitas operadoras não têm conseguido vender os pacotes de dados, que incluem ligações ( o que no aplicativo é gratuito ).
Seja o que for, um dia virá à tona.
Hoje mesmo,  em uma conversa, estive falando a respeito: Não há mal tão bem escondido que um dia não seja descoberto.
No momento, indiferente do motivo, incomoda o fato de saber que, há tantas coisas erradas em nosso País,  juízes que poderiam obrigar, bloquear, manifestarem-se através de sua caneta e com embasamento nas Leis, parecem que hibernaram.

Rio de Janeiro, 2016, Olimpíadas. Gasto estimado: 39 BILHÕES de reais.
Rio de Janeiro, 2016, Ciclovia Tim Maia. Gasto estimado: 44 MILHÕES de reais.
Rio de Janeiro, 2015, Museu do Amanhã. Gasto estimado 8 BILHÕES de reais.
Copa do Mundo, Brasil, 2014. Gasto estimado apenas nos estádios: 8,4 BILHÕES de reais.




Não, não tenho NADA contra a cidade maravilhosa, que é sim maravilhosa, acolhedora, esplêndida em sua natureza. Mas cito-a como exemplo, porque essa semana mesmo, assistindo a um trecho do jornal nacional, aposentados e pensionistas choravam porque AINDA, a prefeitura não tinha pago seus salários, alegando FALTA DE VERBA.
Porque o dinheiro pra construir uma ciclovia ( utilizando areia, visto o tempo que durou ), não pode ser utilizado para pagar àqueles que tanto trabalharam e fizeram pela cidade, pelo estado, pelo país!
O que está errado, meus amigos do Naco de Prosa?
Somos nós que viemos de uma sucessão de erros políticos?
Somos nós que nos deixamos levar e hoje, estagnamos de uma forma que quem deveria nos servir nos pune?
Eu definitivamente não entendo!
Aí, o juiz, seja o estado que for, não faz diferença, aos invés de indagar isso que listei acima, ele simplesmente resolve “canetear” e bloqueia nosso acesso a um dos aplicativos mais utilizados no mundo.
A impressão que tenho, é que o Brasil está ótimo, economia, educação e saúde de primeiro mundo, o que desobriga pessoas com funções relevantes e, que nos deveriam proteger, fazem coisas assim... bloquear WhatssApp.
A minha indignação não é pelo bloqueio, embora senti falta porque tenho parentes e amigos espalhados pelo Brasil e, é sempre bom saber de todos, quando não nos é possível viajar. A minha indignação é pelo rumo que as coisas estão tomando, e tenho muito medo de que não consigamos mais virar o lado de tudo, e que muito já se perdeu e não terá como retomarmos.

Não me dói bloquearem o Whats, ou o Face, ou seja lá o que for. Dói-me, é ouvir o grito de desespero, é ver a lágrima escorrendo em rostos desconhecidos, mas não menos importantes, porque não saberá como irá gerir sua família a partir de amanhã porque está desempregado. Ou porque é a última pílula de um remédio controlado, e que amanhã não terá como comprar porque a prefeitura não tem VERBA para pagar o que é dele por direito!
Estão falando que o próximo a ser bloqueado é o Facebook, boato ou não, eu realmente espero um dia ler ou ouvir por aí: o Brasil saiu da UTI.



22 de abr de 2016

Lygia de Azevedo Fagundes Telles.



Lygia de Azevedo Fagundes Telles, completou 93 anos de vida, no dia 19 de abril de 2016.
Ganhou o Prêmio Jabuti 1966, 1974 e o Prêmio Camões em 2005. Recebeu no início deste ano (2016), a indicação para o Prêmio Nobel de Literatura.
São muitas as suas obras, mas Ciranda de Pedra, As Meninas, As Horas Nuas, são consideradas Magnum Opuses.
Em minha humilde opinião, Ciranda de Pedra é uma Magnum Opus. Presenteio a todos os amigos do Naco de Prosa, com um conto desta grande escritora brasileira.           
" Foi na França, durante a Segunda Grande Guerra. Um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e, na maior alegria, acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta a casa. A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe. Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera. O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias. Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção."

20 de mar de 2016

Brasil, coração do mundo!

O nosso país está sob uma nuvem cinzenta de pensamentos de ódio, raiva, desespero e frustração. Hoje, ouvi um absurdo, algo que me deixou muito triste, com um turbilhão contra o orbe terrestre a necessidade de orações é enorme, eu acredito muito no poder da oração e, foi com este assunto , que fui cruelmente chamada à atenção, como se eu fosse uma criminosa, por estar falando em defesa do meu querido Brasil.
Fui questionada sobre meu partido político, pois com a minha defesa verbal, levantaram-se bandeiras vermelhas da s quais não sou fã. 
Lembrei -me do meu sábio pai, ele sempre nos ensinou que não havia relevância qual a religião que cada um professava, podia ser evangélico, protestante, católico, muçulmano,espírita, adventista e muitas outras, o que interessava era ser honesto, fiel e seguidor da religião escolhida e, que todas tinham como princípio melhorar as pessoas.E, que se alguma delas rompesse com esses princípios cabia a nós defender o que sabíamos estar errado. Semelhante aos partidos políticos, os quais são muitos e com diferentes grupos de pessoas, as honestas e a desonestas, as que nem se preocupam com nosso Brasil, e há as  que querem um país melhor para todos.
A corrupção sempre existiu, sabemos que desde o Brasil Colônia já havia os espertinhos desonestos que queriam ganhar mais que mereciam, sabemos ainda que há os que defendem aqueles que roubam, mas fazem....pode isso?
Hoje, virou moda, ou está mais fácil o roubo na nossa cara, mentem e querem que nós, brasileiros de alma e coração aceitemos esta sujeira toda. 
Precisamos sim, nos unirmos em cada cidade, mesmo que sejam poucos os que aderem à defesa do bem, da justiça , do fim de tanta corrupção, temos sim, que nos aliarmos aos que ainda professam junto aos grupos que sofrem em razão de tantas injustiças, mentiras e deboches. 
Não estou saindo às ruas, em para defesa de partidos políticos, mas para trazer de volta a dignidade a todos , nós brasileiros que vestimos o coração de verde e amarelo.
Creio sim, que devemos rezar para que Deus nos dê forças para passarmos por tantas turbulências , as quais afetam a todos. 
Sempre serei Brasil! 
Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho!

  

7 de mar de 2016

Pelo Dia Internacional da Mulher

Alma de Mulher

Nada mais contraditório do que ser mulher...
Mulher que pensa com o coração,
age pela emoção e vence pelo amor.
Que vive milhões de emoções num só dia
e transmite cada uma delas num único olhar.
Que cobra de si a perfeição e vive
arrumando desculpas para os erros,
daqueles a quem ama.
Que hospeda no ventre outras almas, dá à luz
e depois fica cega, diante da beleza dos filhos que gera.
Que dá as asas, ensina a voar, mas que não quer ver partir
os pássaros, mesmo sabendo que eles não lhe pertencem.
Que se enfeita toda e perfuma o leito, ainda
que seu amor nem perceba mais tais detalhes.
Que como numa mágica transforma
em luz e sorriso as dores que sente na alma,
só pra ninguém notar.
E ainda tem que ser forte para dar os ombros
pra quem neles precise chorar.
Feliz do homem que por um dia souber,
entender a Alma da Mulher!

(Lucinete Vieira)


23 de fev de 2016

O perigo dos fogos

Em uma noite, daquelas típicas de inverno, em que se comemora a festa de São João com fogos e fogueira, havia muita gente na rua, outras nas janelas de suas casas,  era uma época em que se soltavam balões. As crianças, ficavam ao longe sob os olhares dos pais, as luzes brilhavam no céu, estouros eram ouvidos a longa distância.
Uma menininha de um ano, fora colocada em sua cadeirinha, junto à janela para poder também, ver o brilho dos fogos e saber o porquê do barulho nas redondezas. 
O tempo foi passando, a alegria era uma só, e a pequena criança sem muito entender, parecia querer ir lá fora, e junto festejar, juntava as mãozinhas e aplaudia no ar.
Em um dado momento, a mãe da pequena percebeu um grande clarão, que se fez em sua frente, não entendeu de imediato, e aos poucos tudo foi ficando escuro, e, o bebê iniciou um choro fortíssimo, a mãe, nada via para justificar tamanha dor nos gritos, mas sentiu cheiro de algo queimado, percebeu que a criança apertava desesperada a roupinha contra o pescoço, foi então, que ela notou que um buscapé ( peça de fogo de artifício que ocorre no chão, zigue-zagueando, e termina em um estampido ), estava grudado no pescoço do seu nenê. Foi um tremendo susto, e nada acalmava a criança que foi levada às pressas, ao hospital, era um tempo com menos recursos. E, assim começou a luta da pequena que sofria tanto quanto seus pais. O que agravou muito foi ter colado a roupa em uma grande área queimada, a qual ficou grudada na pele dela, e, em um local coberto de nervos e dobras. Cada ida ao hospital era como enfrentar a dor da morte de um ser especial. E, assim foi por muito tempo, cada curativo, tudo era arrancado novamente, e continuava em carne viva. Com palavras, quase não se pode registrar a dor da família. O processo de cura foi longo, a alimentação da menina, ficou comprometida, pois ela ainda mamava no peito e não conseguia forças para sugar o leite, a dor a fazia chorar e desistir de pedir o seu "mamá". Após longo período, a vida foi voltando ao normal, mas muito lentamente, aí, veio outra preocupação da mãe, a enorme cicatriz que ficaria, e com o crescimento da menina, a marca iria esticar também, e, estragaria seu lindo rostinho. Foi um tempo de muito medo, medo de perder a filha, medo das cicatrizes físicas e emocionais. O tempo passou, a cicatriz, por milagre, diminuiu de tamanho, é visível, mas não saiu do lugar, não quis esticar-se na pele da pequena, junto com o crescimento dela. A mãe sempre lhe contou como foi difícil passar esta fase repleta de medos, de choro, de contínuas orações, pedindo a Deus ajuda para aumentar-lhe a fé e a esperança, pois  sentia-se culpada pelo acontecimento e pelo sofrimento que quase a fez perder sua primeira filhinha. 
Os fogos de artifícios não deveriam existir, pois sabemos que eles continuam machucando, mutilando, trazendo sofrimento a muitas pessoas. Hoje, estou aqui refletindo como foi difícil a vida do casal, sem poder curtir o comecinho de vida da primeira filha, penso que todos perderam um bom pedaço de vida, aquele que nos faz voltar alegres para casa, e encontrar nosso bebê batendo palminhas, fazendo festa para nós. Sinto saudades da minha mãe, porque  sei o quanto sofreu para me curar, hoje a cicatriz está bem visível, e meu coração cheio de amor e saudades de uma família guerreira, pai e mãe amorosos e sempre presentes. 


Obs: A mudança da terceira pessoa para a primeira , no final do texto, foi intencional.

15 de fev de 2016

O velho chinelo

Lembro-me com saudades da minha infância,
                                                                        
nela, vivi momentos únicos e que  trago comigo, até hoje

Deles tirei aprendizados e, consequentemente, maturidade

Os natais tinham outro sabor, mais especificamente: beijo

baiano,

aquelas bolachas redondas, cobertas com chocolates e que 

nenhuma pessoa que utilize prótese dentária, ousaria

morder.

Mas, quando elas chegavam para nós, os três filhos de um

casal de comerciantes,

ao abrirmos o pacote, lembro que a pequena sala, de chão

de madeira, recendia o aroma vindo daquelas bolachas

Meus irmãos e eu, aprendemos cedo o que era trabalho

O quanto era importante a responsabilidade ,e o que

deveríamos esperar da vida.

Nada nos era dado, o que tínhamos era com o trabalho

árduo do meu pai e de minha mãe

Mas, um objeto em específico é vívido em minhas melhores

lembranças de um passado tão diferente, tão distante da

 realidade infanto-juvenil em nosso país, hoje

Um par, gasto, de chinelos

Suas tiras eram vermelhas, se não fossem de borracha, diria

a vocês que elas brilhavam,

tamanho cuidado e higiene que eu tinha com ele, o meu

velho e único par de chinelos,

ficava sempre do lado de fora da porta,pois

 como eu o utilizava para meus afazeres externos, não era

comum entrarmos em casa com o mesmo calçado

Deixávamos ele na porta.

A noite passou, noutro dia, minha mãe pediu para eu ir levar

 o leite até o vizinho,eram duas garrafas, e a casa ficava a

 uns dois quarteirões da minha.

Peguei as garrafas, coloquei-as na cesta, cobri e abri a 

porta.

Fui pronta para calçar os chinelos, mas meus pés 

encontraram apenas o vazio
.
Sabem aquela sensação desconfortável, como se um buraco

no chão se abrisse, e você fosse caindo sem conseguir se

agarrar em nada?

Pois bem, foi justamente isso que aconteceu

Roubaram meu chinelo! Exclamei em meus pensamentos

Jamais soubemos de roubo aqui, por isso confiávamos em

mas, sempre há uma primeira vez.

E justo comigo...

O que diria aos meus pais? Como iria entregar as compras?

Não podia me dar ao luxo de perder um calçado, não 

naquele momento, em épocas de vacas magras, como

costumeiramente dizíamos.

Eu tinha responsabilidades, e precisava entregar a 

encomenda.

Não poderíamos perder mais uma venda,

A única opção foi calçar os sapatos de ir, à missa

ou isso, ou a galocha utilizada para ajudar o pai, na lida com

os animais no pasto.

Entrei em casa sorrateiramente, pois

não queria que os olhos da minha mãe fossem direto para as

garrafas de leite, ainda em minhas mãos

Calcei os sapatos e saí.

No caminho, ainda inconformada, reclamei baixo sobre o

fato,

ao meu lado, passava uma senhora

Cabelos bem brancos, um xale de crochê, nas costas,

sorriso nos lábios, me cumprimentou, e

entre os dentes soltei um, bom dia.

Intrigada, percebendo que algo estava errado.

Indagou-me:-Em num dia tão lindo, o que a aborrece?

Não conhecia aquela senhora, não ia contar algo tão íntimo

a ela
,
E, se ela contasse à minha mãe?

Não, apenas abanei a cabeça e segui meu caminho.

Na volta, ainda incrédula, pensava em como contar sobre o

meu descuido.

Quando olho em volta, um menino, deveria ter uns quatro

 aninhos,

Corria de um lado para o outro,

camiseta suja, com vários rasgos, um calção marrom escuro,

cabelos raspados

Ele sorria e corria

Mas era uma risada tão gostosa, que por um momento em 

esqueci o que havia acontecido

Com certeza, não era dali,

pois na época, meu bairro era pequeno, e conhecíamos a 

todos.

Talvez algum migrante que passava por ali,

mas, ao olhar para baixo, e perceber o que havia em seus 

pés, congelei

Os meus chinelos, agora já sujos de terra, em seus

pequenos pés

Na hora, meu sangue ferveu.

Ele era uma criança, mas precisava saber que o que fez não

estava certo.

Aproximei-me:- Olá, menino, venha cá!

Ele parou, me olhou, e chamou pela mãe

Uma senhora, veio lá do fundo enxugando as mãos no velho

 avental: pois não? Ela indagou.

- Senhora, desculpe incomodar, mas os chinelos que o seu

filho está usando são meus. Eu tenho certeza disso.

Ela não sabia o que dizer. Pediu para o menino entrar.

Aproximou-se da cerca, e disse:- Desculpe! Eu não agi certo.

Chegamos ontem, viemos de muito longe. Estávamos com

 fome, sede, cansados. Caminhamos muitos quilômetros,

 outros conseguimos carona. Sei que a moça não tem nada

 com isso. Mas só Deus sabe o quanto é difícil pra mim, e

 meu filho chegarmos aqui com vida.

- Eu entendo, mas roubar não é o caminho – argumentei.

- Eu sei. Mas o meu menino, esse que você viu correndo,

 nunca tinha visto um calçado assim. Eu nunca pude dar a 

ele algo assim. O pouco que temos, mal dá para a comida.

 Quando passamos em frente a sua casa, ele garrou ( sic ) o

 sapato e não quis mais largar. Como eu vou tirar de uma 

criança? Eu juro por Deus, nosso Senhor, que eu ia hoje, lá

 falar com vocês. Consegui por um milagre essa família aqui

 que me abrigou, eu e o menino. Estou trabalhando agora. E 

vou pagar tintin por tintin o seu chinelo. Mas, por 

misericórdia, não tira do meu menino não..

E, de repente, lágrimas começaram a molhar o rosto daquela

 mulher.

Ali estava uma mãe, desesperada, que passara por muito

sofrimento, com um filho pequeno e, sozinha no mundo. Só 

Deus sabia o que ela estava sentindo.

Retirei o pequeno pano que cobria as garrafas de leite e, 

ofereci para secar-lhe as lágrimas. Constrangida, ela 

agradeceu. Apenas pediu, encarecidamente, para que eu 

não contasse nada à patroa dela, senão ela perderia o

 emprego.

- Está tudo bem, fique com o chinelo. Não o tirarei do seu 

filho.
Abaixei-me, peguei a cesta, e continuei rumo a minha casa.

Quando uma voz já conhecida me chamou. Olhei de canto 

de olho, ela aquela senhora de cabelos brancos e xale nas

costas que conversara comigo, há pouco.

Ela falava baixo, não queria ser notada.

- Olá, menina. Agora entendi o motivo de sua tristeza. Ouvi 

toda a história.

Abaixei a cabeça.

- Não se envergonhe, disse ela. Você só tinha esse par de

 chinelos?

Assenti.

- Essa mulher com quem você acabou de conversar, nunca

 soube a maciez que eles nos proporcionam, só tem calos e 

bolhas nos pés, mal escondidos por um sapato velho e

rasgado. Seu pequeno, o menino, que há pouco sorria e se 

divertia, nunca teve o prazer de experimentar a maciez da 

borracha protegendo as solas do seu pequeno pé, da

 ardência do chão. Essa casa, é minha, era de minha

 família, voltei morar aqui ontem mesmo, e recebi essa 

senhora e seu filho porque preciso de ajuda. Mas eu não 

conhecia a história dela, ainda não tive tempo para

conversar. Vamos fazer uma coisa? Venha comigo ao 

armazém da vila, vamos comprar roupas e sapatos

para essa mãe e seu filho!

Ela estava tão empolgada, que eu não tive como negar. 

Apenas passei em casa e tranquilizei minha mãe. Entreguei 

o dinheiro do leite e segui com a bondosa senhora.

Ela comprou muitas roupas.

. Voltamos, o sol estava se pondo.

- Gostou da nossa tarde, menina?

- Muito! – exclamei.

- Espere, isso é para você.

Olhei para a mão da senhora, uma caixa amarela se 

destacava.

- Tome, abra!

Abri, dentro, um par de chinelos.

Olhei para ela, devolvendo a caixa.

- Você vai aceitar. É o meu presente para você. Aprenda:

quem ajuda, é ajudado.

A Lei Divina é assim. Hoje, você sairá daqui com uma lição

apreendida: a vida é um ciclo.

Ninguém que dá amor recebe pedras,você aceitou as

desculpas daquela mãe e deu o seu único par de chinelos

àquele menino. Devolvo os a você!

Ela entrou, fiquei um tempo com a caixa nas mãos olhando 

lá dentro, pela janela, um pequeno menino continuava

pulando, ora abraçando sua mãe, ora se escondendo atrás 

do sofá.
L