5 de set. de 2020

Pequenos frascos, grande fragrâncias

 




Lembro-me de que era uma tarde fria de outono, dessas em que as árvores ganham tons amarelados, avermelhados, tons maravilhosos, quando as flores se desprendem delicadamente dos galhos, e caem de uma forma majestosa, sobre as calçadas.

Eu estava sentada em um banco de madeira, pintado de branco o qual, contrastava com as folhas caídas no chão.

Admirava as pessoas nos pedalinhos indo e vindo pelo enorme lago do parque, quando um senhor se sentou ao meu lado. Educadamente pediu licença, colocou seu chapéu no braço do banco, cruzou as pernas e abriu um pequeno livro.

Confesso que fiquei curiosa para saber o título do mesmo, mas a vergonha foi maior, não consegui ir além de um leve consentimento de “pode sentar” com a cabeça.

Fiquei por ali mais uns cinco minutos e decidi ir para casa, o frio estava começando a congelar as pontas dos meus dedos.

No dia seguinte, o sol me acordara cedo, como era sábado, queria aproveitar para fazer algumas coisas que durante a semana não tivera tempo.

O parque cortava caminho e diminuía passos, além das belezas naturais que sempre tiravam o meu fôlego quando parava por alguns instantes para admirá-lo.

Na volta, com algumas sacolas a mais, decidi me sentar um pouco, não havia calculado ao certo o peso de cada uma, e estava cansada.

Alguns minutos depois, enquanto meus olhos se entretinham com patos buscando comida sobre a água, uma voz familiar me cumprimenta pedindo licença para se sentar.

Prontamente trouxe as sacolas para perto do meu corpo, e o conhecido senhor sentou-se, colocando seu chapéu sobre o banco, cruzando as pernas abriu o pequeno livro. O mesmo de ontem.

Olhei de canto de olho, percebi que a capa era branca e o livro era pequeno e fino, pensei comigo: deve possuir  umas dez páginas.

Mas, minha olhada de canto foi percebida, e sem tirar os olhos do livro o senhor me perguntou: - Conhece o Pequeno Príncipe?

No momento corei, ele havia percebido minha indiscrição. Senti-me tola por não ter perguntado o nome e sim, esperado ele perceber minha curiosidade.

- Já ouvi falar, sim senhor.

    No momento da resposta, veio à tona minha infância, quando desenhos daquele pequeno menino, passava na TV. Eu sempre achei que era coisa de criança, o que me causou estranheza um senhor lendo um livro, supostamente infantil.

- Eu já li esse livro 156ª vezes, ele continuou, e sempre que o leio, é uma nova surpresa para mim. Amadurecemos, a visão muda sobre muitas coisas, inclusive sobre uma obra tão rica como essa.

Analisei rapidamente aquele pequeno livro que o senhor tinha entre as mãos. Sem exageros, posso afirmar que as mãos dele eram quase maiores que o livro, que ele dizia ter lido tantas vezes.

- Desculpe-me, eu já ouvi falar, mas sempre pensei que fosse um livro infantil. Lembro-me até dos desenhos que passavam sobre ele.

- Não, não, engana-se. Esse livro é tão profundo que, após lê-lo, mesmo pela "157ª" vez, ele causa mudanças em minha forma de analisar, agir e pensar.

 Fiquei muda. Não podia crer no que aquele senhor, que me parecia tão culto e vivido falava sobre um pequeno livro mudar pensamentos de um homem como ele?! Impossível acreditar.

- Percebo pela sua fisionomia que não acredita em mim. Façamos o seguinte:- fique com o livro, daqui a uma semana, encontre-me neste mesmo local e voltamos a conversar.

No momento, me neguei a aceitar tal proposta, aquele senhor emprestando seu livro, tão precioso para ele. Mas ele insistiu, deixou-o sobre o banco e partiu.

Eu não sabia seu nome e nem ele o meu. Peguei o livro, abri em uma página qualquer, muitas marcações, palavras destacadas, pensei: - isso será interessante!

Desafio aceito.

Fui para casa, por incrível que pareça no caminho todo em pensava naquele pequeno livro, sem entender ainda como ele transformaria minha vida, ou pensamentos, ou forma de agir.

Arrumei as compras. Olhei o relógio, eram três da tarde. Pelo tamanho do livro, calculei que em meia hora já o teria lido e guardado na sacola para devolvê-lo, no sábado seguinte.

Fiz um pouco de chá, ajeitei-me na poltrona e lá fui eu para a primeira página,  e a mágica foi acontecendo, página após página, e 96 páginas depois, o livro chega ao fim. Olhei para os lados, a sensação foi de ter saído das profundezas do oceano dentro de mim mesma.

Turbilhão de sentimento, estrelas, rosa, planetas, esperança, amor, saudade, tudo misturado dentro de mim querendo explodir. Eu precisava encontrar aquele senhor, precisava lhe contar tudo isso, precisava mostrar ao mundo do que aquele pequeno livro era capaz!

Eu não queria que ele tivesse acabado eu queria mais folhas, mais palavras bonitas, mais conselhos, mais verdades, eu queria mais do que o mundo oferecia naquelas poucas folhas.

Foi preciso um estranho se aproximar de mim, para eu conhecer algo tão precioso que estava acessível o tempo todo e nunca fora percebido por mim, talvez por preconceito ou ignorância.

A semana passou, voltei ao parque,  ao mesmo lugar para entregar o livro ao senhor desconhecido.

E lá estava ele, no mesmo banco, com o chapéu em suas mãos. Quando me aproximei ele sorriu.

- Não precisa dizer nada, seus olhos mudaram desde a última vez em que eu a vi. Seu rosto, seu semblante está iluminado. O livro funcionou para você.

- Funcionou?

- Eu sempre ando com um exemplar desse livro em busca de pessoas que precisam dele. Percebi que você era uma delas. Mas na primeira vez não teve coragem de se aproximar e, eu respeitei seu espaço. Na segunda vez, percebendo que você estava observando e tentando descobrir a capa, o nome, eu o aproximei de você. Esta é a magia do Pequeno Príncipe, ele convida as pessoas para ler, e transformarem um pouco suas vidas como ele fez comigo e com você.

Fiquei admirada com aquelas palavras. Aquele senhor fazia uma corrente do bem, emprestando o livro para pessoas que, sem perceberem, estavam anestesiadas na vida. Sem a real e total perspectiva.

Estendi a mão para devolver o livro, mas ele recusou e disse:

- Passe-o para outra pessoa ou guarde-o para você. É seu.

Colocou o chapéu, apertou minha mão, sorriu e seguiu seu caminho.

Até hoje não sei o nome dele, mas ele sabe o bem que ele me fez ao me entregar aquele pequeno e tão grandioso livro.

6 de ago. de 2020

Vida e Morte

Morte assunto difícil de ser abordado, mesmo sabendo que a qualquer minuto, hora, dia ou mês ela virá nos levar. Podemos fazer uma analogia com o nosso nascimento, quando ficamos por nove meses no útero de nossa mãe, que é um lugar quietinho, quentinho, literalmente, um ninho onde recebemos alimento na hora certa e cuidados necessários para a nossa sobrevivência futura.É o nosso mundo, o único que conhecemos, é repleto de boas e únicas experiências. Passado o tempo, o corpo da mamãe se prepara e nos ajuda a sairmos ou melhor somos expulsos, levados para fora sem ao menos sermos questionados sobre a nossa vontade em ali, permanecer, no aconchego do nosso único e conhecido mundo. De repente, nos vemos em um lugar barulhento, repleto de luz, dor pelas palmadas e o choro é o que nos resta.

Passado algum tempo nos sentimos acarinhados pelo papai e mamãe, que nos dá o seio e nos descortina aos poucos todas as surpresas que prepararam para nos receber. Claro, que estamos falando em uma família estruturada e um lar, então aquele mundo que foi só nosso, (útero),o qual pensávamos ser o único, onde tínhamos tudo acaba sendo esquecido, nem cogitamos para lá voltar.Semelhante, a morte nos leva sem nos questionar, ela ainda é tida como um tabu, muitos já foram vencidos, porém a "Morte", ainda traz grande mistério e medo. As crianças são poupadas em velórios, os pais as querem longe dos que morrem, nem conseguem dizer seu adeus, porém se elas fossem acostumadas aos velórios, entenderiam melhor o significado de "está junto de Jesus".


Certamente, se fôssemos questionados, indagados, na hora da morte, provavelmente, não deixaríamos esta vida, por pensar ou não saber o que encontraremos do outro lado, mas se papai e mamãe, aqui, na Terra,nos proporcionaram um mundo bom, (dentro de suas possibilidades), não há dúvidas de que Deus Criador, nos dará no mundo espiritual,todas as dádivas de que somos merecedores, pois o Mestre Divino nos prometeu uma vida de acordo com nossas obras , por isso, o nascer é uma analogia do morrer.

14 de jul. de 2020

Proibiram-na de viver

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Hoje, a tristeza veio me visitar, lembrei-me com muita saudade de uma amiga muito próxima, da minha adolescência e juventude. Ela era muito bonita e vivia com muito entusiasmo pela vida. Estudamos juntas até o curso superior aí, ela casou e assim ficamos mais distantes, porém eu sempre estava bem informada sobre a vida dela, assim como ela sobre a minha.

Ela era professora em duas escolas, fazia os três períodos, dizia que logo diminuiria o número de aulas, para aproveitar mais a vida em família, pois ela já tinha um bebê, porém, nunca conseguiu diminuir o número de aulas, pois outro filho nascera. O marido não dava conta de tudo sozinho, ela nunca reclamava, porém já não vivia com entusiasmo de outrora. Certa vez, viajei para a cidade dela, marcamos um café, foi maravilhoso, pudemos conversar muito e relembrar muitas coisas, que vivemos juntas. Os filhos já estavam na faculdade, mas ela ainda continuava a trabalhar nos três períodos, estava feliz, pois faltavam apenas dois anos para sua aposentadoria, tinha mil planos. Ainda gostava de falar sobre tudo. Disse-me ela, que os filhos eram maravilhosos, mas também gostavam de chamar a sua atenção quando ela falava demais à mesa, riu muito, disse-me ainda, que sentia vergonha quando pediam que ela não falasse sobre alguns assuntos, como doenças, morte e outros assuntos, porque a eles não interessava. Então ela riu e me disse:- Pior é que estes são os assuntos que me restam e acabou rindo muito, talvez para não chorar. Perguntei a ela, qual foi a atitude dela perante isso? Ela me respondeu que agora ela come junto com a família, todo final de semana, o que ela mais gosta, mas fica calada ou fala apenas o essencial. Meu peito parecia doer demais depois que ouvi a história da minha amiga, ela precisava desabafar e o fez comigo, fiquei muito triste, pois ela nem percebia o quanto estava sofrendo calada.

Houve a despedida. Fui caminhando e analisando a situação, ela, uma mãe dedicada, professora exemplar, esposa esforçada e que estava aos poucos se calando, devido à proibição velada dos filhos. Uma mulher cheia de energia, nunca deixou faltar nada a eles, ela que estava sempre de bom humor, sorria cheia de vida, estava ficando quieta, comigo ela desabafou, porém parece que ela aceitava como normal não poder falar o tanto que gostaria e participar mais da vida dos filhos, das conversas, das risadas.

Os almoços de domingo, com todos à mesa, não podiam faltar, pois era neste dia que as conversas eram divertidas e todos participavam das notícias.

E, assim passou mais um tempo, quando recebi o telefonema de que a minha amiga havia falecido. Fiquei chocada, paralisada, lembrei-me da nossa conversa, dos planos, e ela nem chegou a se aposentar. Pensei: Será que a tristeza recolhida na alma, ajudou a minha amiga a ir embora, antes de realizar seus sonhos?

Cheguei quase atrasada para o enterro, o caixão já estava sendo levado.

Chorei silenciosamente e pensei:

Conseguiram calar a minha amiga para sempre.

Será que eles têm noção disso?


25 de jun. de 2020

Bom coração

 

Lembro-me da minha infância, com muita saudade, quando vivi momentos únicos e que  trago comigo, até hoje. Deles tirei bons aprendizados consequentemente, maturidade.

Os Natais tinham outro sabor, literalmente, os doces, mais especificamente: o beijo baiano, aquelas bolachas redondas, cobertas com chocolate e, que nenhuma pessoa, que utilize prótese dentária, ousa morder.

Porém, quando elas chegavam para nós, os três irmãos, filhos de um casal de comerciantes, era a maior alegria, ao abrirmos o pacote, lembro que a pequena sala, de chão de madeira, recendia o aroma vindo daquelas bolachas.

Meus irmãos, e eu, aprendemos cedo o que era trabalho, o quanto era importante a responsabilidade, e o que deveríamos esperar da vida.

 Nada nos era dado gratuitamente, o que tínhamos era com o árduo trabalho do meu pai e de minha mãe, mas um fato específico é vívido em minhas melhores lembranças de um passado tão diferente, tão distante da atual realidade juvenil, em nosso país.

Um par de chinelos gasto pelo tempo de uso.

Suas tiras eram vermelhas, se não fossem de borracha, diria a vocês que elas brilhavam, tamanho cuidado e higiene que eu tinha com ele, o meu velho e único par de chinelos, o qual ficava sempre do lado de fora da porta, pois como eu o utilizava para meus afazeres externos, não era comum entrarmos em casa com o mesmo calçado, assim deixávamos os calçados sujos, do lado de fora da porta.

 A noite passou, noutro dia, minha mãe pediu para eu levar o leite até o vizinho, eram duas garrafas, e a casa ficava a uns dois quarteirões da minha.

Peguei as garrafas, coloquei-as na cesta, cobri com um pano, e abri a porta.

Fui pronta para calçar os chinelos, mas meus pés

encontraram apenas o vazio, sabem aquela sensação desconfortável, como se um buraco no chão se abrisse, e você fosse caindo sem conseguir se agarrar em nada?

 Pois bem, foi justamente isso que aconteceu.

Meus chinelos sumiram. Exclamei em meus pensamentos, jamais aconteceu algo assim aqui, por isso, confiávamos em todos, mas, sempre há uma primeira vez para tudo.

E justo comigo!

O que diria aos meus pais? Como iria entregar as compras?

Não podia me dar ao luxo de perder um calçado, não naquele momento, em épocas de vacas magras, como costumeiramente dizíamos. Eu tinha responsabilidades, e precisava entregar a encomenda.

Não poderíamos perder mais uma venda, a única opção foi calçar os sapatos de ir à missa, isso ou a galocha, que era utilizada para ajudar meu pai, na lida com os animais no pasto.

Entrei em casa sorrateiramente, pois não queria que os olhos da minha mãe fossem diretos para as garrafas de leite, ainda em minhas mãos, calcei os sapatos e saí.

 No caminho, ainda inconformada, reclamei baixo sobre o fato, ao meu lado, passava uma senhora, cabelos bem brancos, um xale de crochê nas costas, sorriso nos lábios, me cumprimentou, e, entre  dentes soltei um, bom dia. Ela intrigada, percebeu que algo estava errado.

Indagou-me :-Em um dia tão lindo, o que a aborrece?

Não conhecia aquela senhora, não ia contar algo tão íntimo a ela.

E, se ela contasse à minha mãe?

Apenas abanei a cabeça e segui meu caminho.

Na volta, ainda incrédula, pensava em como contar sobre o meu descuido. Quando olhei em volta, vi um menino, deveria ter uns quatro aninhos.

Corria de um lado para o outro, camiseta suja, com vários rasgos, um calção marrom escuros cabelos rapados, ele sorria e corria  era uma risada tão gostosa, que por um momento eu esqueci o que havia acontecido.

Com certeza, este menino não era dali, pois na época, meu bairro era pequeno, e conhecíamos a todos.

Talvez algum migrante que passava por ali, mas, ao olhar para baixo, e perceber o que havia em seus pés, congelei.

Os meus chinelos, agora já sujos de terra, em seus

pequenos pés ,na hora, meu sangue ferveu.

Ele era uma criança, mas precisava saber que o que fez não estava certo.

Aproximei-me:- Olá, menino, venha aqui!

Ele parou me olhou, e chamou pela mãe.

Uma senhora veio lá do fundo enxugando as mãos no velho avental:- pois não? Ela indagou.

- Senhora, desculpe incomodar, mas os chinelos que o seu filho está usando são meus, e, tenho certeza disso.

Ela não sabia o que dizer. Pediu para o filho entrar.

Então, aproximou-se da cerca, e disse:- Desculpe! Eu não agi certo.

Chegamos ontem, viemos de muito longe. Estávamos com fome, sede, cansados, caminhamos muitos quilômetros, outros conseguimos carona. Sei que a moça não tem nada com isso, mas só Deus sabe o quanto foi difícil para mim e  meu filho chegarmos aqui com vida.

- Eu entendo, mas pegar sem permissão não é o caminho – argumentei.

- Eu sei, porém, o meu menino, esse que você viu correndo, nunca tinha visto um calçado assim. Eu nunca pude dar a ele algo assim. O pouco que temos, mal dá para a comida, e quando passamos em frente a sua casa, ele garrou (sic) os chinelos e não quis mais largar. Eu juro por Deus, nosso Senhor, que eu ia hoje, lá falar com vocês. Consegui por um milagre essa família aqui que abrigou, eu e meu filho. Estou trabalhando agora, e vou pagar tintin por tintin  pelo seu chinelo. Mas, por misericórdia, não o tira do meu menino, não!

E, de repente, lágrimas começaram a molhar o rosto daquela mulher.

   Ali estava uma mãe, desesperada, que passara por muito sofrimento, com um filho pequeno e, sozinha no mundo. Só Deus sabia o que ela estava sentindo.

Retirei o pequeno pano que cobria as garrafas de leite e, ofereci para secar-lhes as lágrimas. Constrangida, ela agradeceu. Apenas pediu, encarecidamente para que eu não contasse nada à patroa dela, senão ela perderia o emprego.

- Está tudo bem, fique com o chinelo. Não o tirarei do seu filho.

Abaixei-me, peguei a cesta, e continuei rumo a minha casa.

Quando uma voz já conhecida me chamou. Olhei de canto de olho, era aquela senhora de cabelos brancos e xale nas costas, que conversara comigo, há pouco.

Ela falava baixo, não queria ser notada.

- Olá, menina. Agora entendi o motivo de sua tristeza. Ouvi toda a história.

Abaixei a cabeça.

- Não se envergonhe, disse ela. Você só tinha esse par de chinelos?

 Assenti.

- Essa mulher com quem você acabou de conversar, nunca soube como é a maciez de um chinelo como o seu, só tem calos e bolhas nos pés, mal escondidos por um sapato velho e rasgado. Seu pequeno, o menino, que há pouco sorria e se divertia, nunca teve o prazer de experimentar a leveza da borracha protegendo as solas dos seus pequenos pés, da ardência do chão.

Essa casa é minha, era de minha família, voltei morar aqui ontem mesmo, e recebi essa senhora e seu filho porque preciso de ajuda, mas eu não conhecia a história dela, ainda não tive tempo para conversar.

Vamos fazer uma coisa? Venha comigo ao armazém da vila, vamos comprar roupas e sapatos para essa mãe e seu filho! Ela estava tão empolgada, que eu não tive como negar.

Apenas passei em casa e tranquilizei minha mãe. Entreguei o dinheiro do leite e segui com a bondosa senhora.

Ela comprou muitas roupas, voltamos, o sol estava se pondo.

- Gostou da nossa tarde, menina?

- Muito! – exclamei.

- Espere, isso é para você.

Olhei para a mão da senhora, uma caixa amarela se destacava.

- Tome, abra!

Abri, dentro, um par de chinelos.

Olhei para ela, devolvendo a caixa, pois não podia aceitar.

- Você vai aceitar. É o meu presente para você. Aprenda: quem ajuda, é ajudado.

A Lei Divina é assim. Hoje, você sairá daqui com uma lição apreendida: a vida é um ciclo.

Ninguém que dá amor recebe pedras você aceitou as desculpas daquela mãe, e deu o seu único par de chinelos àquele menino. Devolvo os a você!

 Ela entrou, fiquei um tempo com a caixa nas mãos olhando lá dentro, pela janela, um pequeno menino continuava pulando, ora abraçando sua mãe, ora se escondendo atrás do sofá.


28 de mai. de 2020

O amor está fadado ao fracasso?

imagem do Googlee


   Parei um tempo para olhar a chuva escorrendo pelo vidro da sala. Através dele, percebi um casal sob o guarda-chuva, que esperava para atravessar a rua. Ele, com o braço  em torno da cintura dela, tentando protegê-la dos pingos incessantes. Peguei minha caneca com café, o dia estava frio, segurei com as duas mãos para esquentá-las um pouco. Comecei a divagar... 
Será que o amor está fadado ao final, ao fracasso ? Quantos casais vivem juntos por 50 anos ou mais ? Quantos enfrentam a vida a dois, juntos ? Quantos tentam consertar ao invés de jogar fora ? 


Os relacionamentos hoje me parecem tão superficiais. Talvez pela correria, ou pela frieza que as feridas da vida tornam nosso coração. Ou pelos tombos que levamos e deixamos, com isso, a desconfiança tomar nosso coração e pensamento. A superficialidade de uma transa e depois o adeus, apenas para contar pontos com os amigos. Não há mais o namoro, o conhecer, o mistério de descobrir, aos poucos, o sabor do beijo, se o abraço será capaz de aconchegar o outro corpo e protegê-lo. Hoje, a velocidade chegou nos relacionamentos também.Quando o ter, é mais importante que o descobrir. Talvez por isso, não dure... Primeiro a cama, depois a gente vê como fica. Mas aí, você começa a descobrir que ele ou ela não gosta de Neruda, tem pavor de andar de mãos dadas e adora filmes de terror. Tudo o que você não quer para a sua vida, ao seu lado, está ali, bem à sua frente, e você já não acha mais graça nas piadas sobre banalidades, e você não sente mais falta quando ele ou ela não manda mais mensagem, e você começa achar aquele perfume doce demais. 
Então o encanto começa a desaparecer, e os detalhes começam a incomodar, e você já não deixa pra lá como antes ou, simplesmente, não liga se ele ou ela não aparecer no final de semana, com mais um filme da série Jogos Mortais. Pelo contrário, você respira com alívio. Já não se enfeita como antes, e coloca qualquer coisa só porque não pode andar sem roupa. 
E o tempo passa... e o distanciamento é tão inevitável que, quando se dá conta, não há mais ninguém em sua vida. E você não sabe onde errou, onde começou a dar errado. E hoje, sob a chuva, segura o guarda-chuva, e está só. Sem um braço em torno do seu corpo, sem um sorriso quando seus olhares se cruzam e, estranhamente, você se sente bem, e está feliz. E tudo vai tomando novas cores, novos aromas. Retoma os contatos antes deixados de lado, os sonhos esquecidos. 
Penso que não é o amor que está fadado ao fracasso mas, sim, aquele sentimento que não agrega valor ao seu... tomo um gole de café, sorrio sozinha. Abro meu Neruda: " Um homem só encontra a mulher ideal quando olhar no seu rosto e ver um anjo e, tendo-a nos braços, ter as tentações que só os demônios provocam..."

28 de abr. de 2020

Mulheres e a história




    Nós, brasileiros, possuímos um patrimônio social na história, na política na cultura e, como acontece em todos os países há a multiplicidade de pessoas, que são agregadas, é claro que no Brasil é assim também.
  Podemos fazer uma analogia com uma colcha de retalhos, pois carrega em sua herança, em cada pedaço a memória social. Neste maravilhoso elenco estão as mulheres, que lutaram e lutam pelos seus direitos e espaços sociais. As mulheres fazem parte da história do Brasil, e muitas ajudaram a fazer esta história, as quais pertencem a numerosas classes sociais.
 Parece impossível, mas nos dias atuais em que as mulheres estão em todas as áreas com sua competência e trabalho, ainda ouvimos a tão desagradável frase: “Só podia ser mulher, “ e outros impropérios.
É grande o universo de mulheres inventoras, e seus trabalhos ainda nos ajudam atualmente. Confira apenas alguns exemplos de criações e trabalhos de mulheres ao longo da história:
Não vamos aqui tecer comentários sobre a mulher no volante, sobre trânsito, é pequeno demais, por isso citaremos algumas mulheres que fizeram história, por exemplo: na tecnologia, são quatro programadoras que fizeram a história e se destacaram no mundo.
   Ada Lovelace é considerada a fundadora da ciência da computação, assim como a primeira programadora do mundo.  
    Margaret Hamilton foi diretora de engenharia de software, que guiou o voo da missão Apollo 11 e levou os primeiros homens à lua.
   Grace Hopper desenvolveu linguagens de programação acessíveis, que usavam palavras e não números para funcionar o computador.
Joan Clarke formada em matemática, ela fez parte da equipe que construiu alguns dos primeiros computadores do mundo.
“Só podia ser mulher! ”
   Se fizermos uma pesquisa com boa dedicação de tempo, com certeza, a lista de mulheres que deixaram sua marca na história será imensa.
   A história nos conta que em épocas de guerras os homens saiam para a luta, e neste período as mulheres tomavam à frente de sua aldeia, eram bravamente desafiadas a enfrentarem o inimigo e dar proteção aos filhos e desvalidos.
  Podemos registrar a bela história que conhecemos desde os bancos escolares, da índia da tribo dos tupinambás, Paraguaçu, esposa de Caramuru, o português Diogo Álvares Correia. Após se converter ao catolicismo, recebe o nome de Catarina do Brasil. Ela esteve junto com Caramuru na fundação de Salvador, abrindo igrejas e cuidando de conventos.
Outra que marcou muito a história do Brasil foi Ana Pimentel Henriques Maldonado, esposa de Martim Afonso de Sousa.
Enquanto o marido estava na missão ela ficou respondendo por seus negócios brasileiros, portanto, foi nesse período que Ana Pimentel deu início ao plantio de cana de açúcar em Cubatão e a criação de gado na Capitania de São Vicente, atual São Paulo.
 Maria Quitéria, foi a primeira mulher a fazer parte do Exército Brasileiro, que se disfarçava de homem para poder lutar.
Participou de várias batalhas, entre elas a Independência do Brasil, recebeu a condecoração da Ordem Imperial do Cruzeiro, pelo Imperador Dom Pedro I.
Temos Narcisa Amália de Campos, que é tida como a primeira jornalista profissional do Brasil.
A paulista Carlota Pereira de Queirós, foi professora, mas depois acabou mudando para medicina. Elegeu-se como a primeira deputada federal do Brasil, quando fez parte das comissões de saúde e educação. É de sua autoria a emenda que cria a casa do jornaleiro e o laboratório de biologia infantil.
Há muito o que registrar sobre tão valorosas mulheres, quem não conhece um bote salva-vidas, pois foi feito por uma mulher, os painéis de energia solar utilizam o trabalho de pesquisa de uma mulher. Há uma mulher por trás da tecnologia do wi-fi e GPS, que é a sigla em português significa “Sistema de Posicionamento Global”.
Temos grandes feitos, registrados ou não, nas páginas de nossa história.
Em nossas cidades o rol de mulheres que fizeram e fazem a nossa história é imenso. Aqui há apenas uma pequena amostra de que sim,
“Só podia ser mulher! ”

26 de mar. de 2020

Coronavírus une o mundo





   Sempre se combateu o isolamento social, pois sabemos que se for prolongado produz em excesso, um produto químico no cérebro, que pode aumentar a agressividade e o medo, por isso, precisamos estar atentos à nossa saúde mental.
 E, agora que estamos vivendo esta pandemia, como fazer para nos cuidar, pois sabemos que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, pesquisa feita antes da chegada do Coronavírus.
  Toda esta situação tem o poder de afetar a saúde mental das pessoas, aumentando os níveis de ansiedade e medo, pois fatores desconhecidos e incertos fazem com que todos se sintam inseguros, principalmente em casos como este, de nível mundial. Como agir, agora que precisamos nos isolar?
  Li uma matéria com o título “Endurance”, confesso que achei a reportagem extremamente interessante, jamais pensei que fosse usá-la como exemplo para escrever esta crônica, fazendo analogia com o que estamos passando hoje, no mundo inteiro.
A reportagem, a que me refiro acima conta sobre o adestramento pelo qual passavam os militares da Marinha do Brasil. Estranhei a palavra adestramento, mas é correto “adestramento militar”.
  Endurance era lançar o navio ao mar por 30 dias, sem porto próximo, a terra mais perto era o fundo do mar. Era tempo de “full time”, tempo integral de trabalho.
Todos eram monitorados, e a partir do décimo quinto dia o humor de cada um se alterava, uma pequena ação fora do contexto era motivo para grandes brigas, discussões, inclusive tentativa de suicídio.
Hoje, estamos vivendo uma situação semelhante, mas sem adestramento, por isso, precisamos ficar atentos para que todos fiquem bem, pois o menor vestígio de fisionomia feia, é motivo para grandes brigas, desavenças, o estresse tomará conta de todos. Pessoas acostumadas a sair, andar por todos os lugares, livres para se divertirem, de repente passam a viver em confinamento, distanciar-se das pessoas que amam, situação muito difícil, então precisamos mostrar e viver a empatia, pois o mundo chora, sem distinção de idade, cultura, raça e religião, as diferenças ficaram de lado, hoje, somos um só povo, com a mesma dor. E, todos estão sofrendo por medo de se contaminar, com medo de não poder pagar as contas, medo de ficar só, medo de tudo, infelizmente, todos vão sair perdendo algo, durante esta crise. Ninguém está isento, a diferença é que alguns sofrerão mais e outros menos, nem há como mensurar o quanto vamos sofrer de algum modo. Devido a isto precisamos nos unir e aprender a amenizar os sintomas de ansiedade e tentar viver de uma maneira saudável, refletindo sobre os aprendizados que podemos ter com toda esta triste realidade.
O bombardeio de informações deve ser evitado, pois vivemos em tempos de globalização, e nada nos escapa, há ainda as ‘fake news’, que se referem a falsas informações, e nos causam pânico, no entanto podemos organizar o nosso tempo, de acordo com nossas necessidades.
Há inúmeras coisas, que podemos fazer como: ler aquele livro que nos espera há tempo, assistir a estreia da série aclamada, meditar, começar a escrever, e não esquecer da empatia e consciência coletiva, pois elas farão a grande diferença.
    Segundo a coordenadora do curso de Psicologia da Estácio BH, Renata Mafra: "Os humanos já vivenciaram várias epidemias em outros tempos. Faz parte da nossa história". Segundo ela, o rápido e intenso fluxo das informações podem provocar a sensação de que não é possível lidar com a infecção, de caos, aumentando a realidade. "Pensar que a epidemia é uma situação transitória que vai passar e que você está contribuindo positivamente para isso, ajuda a acalmar a mente”.

26 de fev. de 2020

Morte na brincadeira


    
foto do Google
 Quem de nós não lembra com saudade e carinho das brincadeiras,que faziam parte de nossa infância,hoje foram esquecidas e trocadas por aparelhos eletrônicos.
Algumas destas brincadeiras ainda estão vivas em nossa memória,como:
pular amarelinha,esconder o anel,brincar e cantar “escravos de Jó”,esconde-esconde,pular elástico,bolinhas de gude, batata quente,telefone sem fio,corrida do saco,jogar bola eram tantas que precisamos de tempo para recordar, infelizmente algumas foram extintas.Vale ainda acrescentar que havia uma muito “perigosa”,para os pais era o terror, quem não lembra,do famoso rolimã,mas eram brincadeiras sadias e cheias de alegria, com pouco esforço podemos lembrar de alguns destes momentos ao lado dos amiguinhos da escola, e todos eram incluídos,sem preocupação com a cor, sexo ou religião. Tempo de viver como criança, cultivando a ingenuidade,a inocência,que é a característica da criança e por isso,elas são lindas.
   Parece-nos que as brincadeiras estão evoluindo, entretanto com objetivo de machucar o outro. Há vários casos assim muito se falou do caso suicida Baleia Azul, hoje a brincadeira “Quebra Crânio”, estão usando o termo brincadeira,mas com certeza não é, pois é uma atitude que pode levar a morte ou sequelas sérias. Nem vamos falar aqui sobre as consequências dentro da lei.  
    O novo desafio teve início entre estudantes venezuelanos e ganhou destaque na internet,nos últimos dias,e já começou a chegar a algumas escolas brasileiras, gerando preocupação entre pais e professores devido aos perigos da prática da insana brincadeira.
   Chamada de “quebra-crânio”,a brincadeira é realizada com a participação de três pessoas, que ficam lado a lado. Enquanto as duas das extremidades pulam, a do meio, que não sabe como o jogo funciona,pula também,e,é neste momento que os dois aplicam uma rasteira no participante desavisado, causando a sua queda,que pode levar ao
traumatismo craniano,ao coma,e até mesmo à morte, dependendo da gravidade,pois leva-se em conta a altura do salto. Ainda pode haver fratura de punho ou coluna se a vítima tentar se defender,apoiando-se nas mãos para se proteger.
   Essa bizarra ‘brincadeira’ ficou conhecida quando um youtuber irresponsável,brincou com a própria mãe,filmando-a e postando na internet,com isso alcançou muitos jovens e adolescentes.
  Professores,pais,médicos,psicólogos e outros profissionais estão unidos para esclarecer a todos sobre esta nova modalidade de brincadeira que pode matar.
   A conscientização está sendo significativa em nossas cidades e muito singular,começando nas famílias e escolas. Engajada ao trabalho de utilidade pública,a TV MILL apresentou uma matéria esclarecedora sobre o assunto,nesta sexta-feira com Doutor Arthur José Santos da Costa,médico Neurologista,que explicou detalhadamente os danos físicos causados à vítima da tal brincadeira,assim como Marcelo José Boldori,Coordenador do Curso de Direito da Universidade do Contestado,Porto União falou sobre às consequências penais relativas ao assunto. Em algumas escolas,alunos gravaram vídeo alertando sobre o perigo.
  Juntaram-se aos demais,nesta labuta de informação e conscientização o Colégio Visão de União da Vitória,duas alunas gravaram um vídeo,onde pedem a estes adolescentes um basta a esta ‘brincadeira’ de mal gosto.
   Nada precisaria ser dito sobre o perigo deste desafio, se houvesse a noção de responsabilidade na vida destes jovens,lamentavelmente não a possuem,e estão repetindo a sandice em outros os lugares.
O trabalho dos pais passa a ser de extrema importância, pois:
“Sua responsabilidade como pai e como mãe não é poupar o seu filho de sofrer,
mas ensiná-lo a fazer as melhores escolhas. Quando você faz isso, coloca sobre ele a responsabilidade pela própria felicidade”.




Queridos amigos,estou demorando para visitá-los e publicando menos.Sei que irão entender,estou em um trabalho voluntário desde o ano passado,dou aulas para 25 meninas de famílias carentes,estou me dedicando ao máximo e me sentindo feliz. Tenho passado na corrida para ler suas postagens,mas às vezes não consigo deixar meu comentário. 
Grande abraço a todos!


21 de jan. de 2020

Elevador constrange as pessoas





   Todos sabemos o que é um elevador,mas poucos param para pensar sobre ele e suas funções.Podemos até fazermos analogias sobre ele e a vida.
“A vida é como um elevador.Em seu caminho para cima,às vezes você tem que parar e deixar algumas pessoas saírem”. Pensando assim,entrei no elevador,apertei o botão para descer, mais pessoas foram entrando,em cada andar e os botões iam sendo usados.Notei que todas as pessoas ao entrarem se transformavam,pareciam estátuas do mais duro mármore. Um casal entrou,mas parecia que a distância faria bem a eles.Era nítido que haviam brigado,e a briga não terminara,porém tiveram que ficar feito múmias caladas.Os olhos da mulher soltavam faíscas contra o homem,que provavelmente era seu marido. Eu estava inquieta,pois dava para notar que logo iria haver uma explosão entre eles.
    Quando o elevador parou no andar onde iriam ficar ela saiu,olhou para trás e percebeu que o marido decidira ficar,ela grosseiramente o puxou pela manga da camisa,a qual rasgou,e ele foi forçado a sair.Assustadora atitude.
    Surgiu naquele momento a ideia de escrever uma crônica sobre as pessoas e o elevador.Porém,surgiu uma dificuldade, como abordar um assunto tão corriqueiro e difícil ao mesmo tempo.Teria que ser uma crônica no estilo de Luís Fernando Veríssimo.
   Pensei,pensei,pensei mais e começaram a fluir ideias, mas como Veríssimo ou Marta Medeiros descreveriam as pessoas fechadas em uma caixa metálica sem sequer olhar uma para a outra,pois elas simplesmente fixavam os olhos aos botões ou aos números correndo no placar, sobre a porta, outros que só ficam olhando para os próprios pés,outros ainda ficavam cutucando as unhas com alguma chave que tinham nas mãos. Observei tudo e achei muitíssimo engraçado. Voltei meu pensamento na crônica,e concluí que Veríssimo escreveria que o morador do 12º andar, estava apressado, pois cuidava também do relógio,diferente do morador do 11º,que nem se importava com o ruído apavorante que o elevador fazia.
   O vizinho da esquerda estava com a cabeça erguida e olhos grudados ao placar de andares,enquanto o vizinho da direita se abanava sentindo um calor que não existia. O outro ao lado ficou o tempo todo se olhando no grande espelho na parede do elevador.
   A vizinha do andar de baixo,com seus mais de 70 anos, implicava com o menino ao seu lado,que carregava um cãozinho que estava um pouco sujo,ela fazia cara de nojo e gesticulava,mas o garoto nem lhe dava atenção.
E, em relação ao casal briguento,que  também não falavam nenhuma palavra, mas que provavelmente eles desceram em um andar,que não era o desejado,mas sim,para continuarem a discussão, percebia-se que  estavam no auge da raiva, pois antes da porta do elevador se fechar já se ouviam vozes alteradas e ofensivas dos dois, pois  estavam a pouca distância .
    Percebi o quanto a pequena viagem até o térreo do edifício,era dolorosa para a maioria das pessoas.
    Uma parada, um soco do elevador e voltei a escrever a crônica em minha mente.
   Lembrei o quanto é engraçado ficar parado junto com outras pessoas e não emitir nenhum som. Chega a ser constrangedor,estar em um lugar e não poder ou não querer dizer nem uma palavra,será que é uma regra imposta pela sociedade?
   Pelo menos, poder responder um belo bom dia,boa tarde, como vai,dar um belo sorriso seria elegante e educado.
      Ideia para várias outras crônicas.


   

23 de dez. de 2019

Religião e espiritualidade

Foto do google

   À tardinha de um dia muito quente,estavam sentados sob uma frondosa árvore duas crianças judias,que ouviam atentamente o que sua avó lhes contava.
    Judite e Tobias,ela com sete anos e ele com cinco, ficavam horas junto a avó,a qual perdera seu marido, e passou a morar com o filho,a nora e os netos. Os pais seguiam a religião do Judaísmo,a qual era imposta também aos filhos,mas a avó professava o cristianismo e,portanto, seguia os ensinamentos de Jesus.
Assim,sempre que podia, evangelizava os netos por meio de lindas histórias de amor,de caridade e perdão.
   Os pais desconfiavam de que ela estava incutindo ideias sobre Jesus,aos pequenos, mas nunca puderam confirmar, pois as crianças quando questionadas, lhes respondiam que a avó apenas lhes contava muitas histórias lindas. E assim, seguiam-se os dias.
   Certa vez, a história contada pela avó foi sobre o anjo guardião,ou ainda aquele que fora nomeado por Deus para nos proteger. Na verdade,há muitas denominações para ele: espírito de luz,ou ainda,amigo espiritual. Entretanto, sendo este ou aquele nome,ele é o nosso anjo da guarda.
     Assim,por meio de belas histórias,foi passado às crianças a existência de um ser que cuida de cada um de nós.
    Com o tempo,o hábito de agradecer ao anjo tornou-se uma atitude linda entre os dois pequenos,aprenderam que a gratidão e o perdão eram armas poderosas,e desta forma, foram crescendo e conhecendo o Mestre Jesus.
     Em certa ocasião,o menino Tobias precisou submeter-se a uma pequena cirurgia,ele não estava com medo,mas mesmo assim, pediu ao anjo da guarda que o protegesse. Pediu a Jesus que guiasse as mãos dos médicos,para que tudo saísse bem.
    Os pais, mesmo sabendo que o risco era pequeno, não arredaram pé do lado do filho.Os dias de internação pós cirurgia correram bem e, aos poucos, o menino ficava melhor.A avó o visitava sempre e,certo dia,ao ficar sozinha com o neto, aproveitou para saber se ele não havia esquecido os ensinamentos,que ela lhe havia passado. Ele mais que depressa contou à avó que pedira a Jesus para que o abençoasse.Ao ouvir as palavras do neto,ela deu um largo sorriso e continuaram falando sobre a doutrina do Mestre.
    De repente, os pais entraram e da antessala conseguiram ouvir a palavra Jesus.Eles,muito curiosos e apreensivos, indagaram a avó sobre o assunto.Não houve jeito de esconder do que se tratava a conversa,e por este motivo ela ficou proibida de falar com os netos.Aquela era sem dúvida,uma situação triste para todos. Porém aquela proibição veio tarde,pois mesmo sem uma religião definida, os dois pequenos já possuíam uma religiosidade avançadíssima, e nada mais podia abalar a sua fé.
      Aquela situação seguiu daquela forma por muito tempo, as crianças iam à sinagoga com os pais,mas à noite se reuniam no quarto da avó para novas lições sobre Jesus Cristo.
      Os anos passaram rápidos e logo Judite e Tobias se tornaram adolescentes.Naquela época já sabiam qual religião seguir, pois já se sentiam cristãos. A partir de então, os pais vivenciaram muitas surpresas com seus filhos,que deixaram de ser crianças,mas não deixaram de ser cristãos.
   Eles perceberam por meio dos filhos que a religião que cada um professa deve ser de sua livre escolha,e que seus filhos estavam no caminho do bem.Por esta razão,permitiram que seguissem os ensinamentos de Jesus, porém mantinham-se afastados.
     Certo dia,ao se encontrarem,após o culto de cada um, o pai rendeu-se e falou:
    - Filhos,vamos para casa fazer juntos a ceia de Natal, que a avó de vocês preparou para festejarmos o nascimento do Menino Jesus.
       Judite e Tobias perceberam a mudança de seus pais e sorriram.

Desejo a todos um Feliz e Santo Natal, que 2020 venha repleto de bênçãos!

Pequenos frascos, grande fragrâncias

  Lembro-me de que era uma tarde fria de outono, dessas em que as árvores ganham tons amarelados, avermelhados, tons maravilhosos, quando as...