26 de abr de 2015

Ser Mulher

E ela nasceu mulher Com data e horário premeditados Concebida sob a luz do holofote vermelho Não conhecera seu pai Nem seus avós Tinha apenas o braço de sua mãe para aquecê-la nas noites frias de inverno Naquele pequeno casebre Dividindo espaço com ratazanas e incertezas E ela cresceu de um jeito desengonçado e estapafúrdio Seu físico não a permitiu muitos namorados Seu intelecto não lhe permitiu anos de estudo E pras ruas seguiu seu rumo Entre salto alto, blush e batom barato Cabelos desgrenhados e manchas de lápis sob os olhos E ela se fez mulher Entre travesseiros e lençóis Entre decepções e deleites imperfeitos E nunca mais se olhara no espelho E nunca reconhecera seu reflexo E nunca se amara E suas perspectivas foram se apagando... Junto aos tocos de cigarros arremessados ao mar E sua vida nunca pode ser vivida E a sombra do seu passado ainda estaria presente, Em cada lágrima, em cada olhar, em cada macha de batom em seus lábios.






14 de abr de 2015

Olhe para o lado


Era um sábado de sol, o azul do céu cobria a cidade de Curitiba. Um dia propício para almoçar com amigos e compartilhar histórias e risadas.
O almoço em questão fora um pão francês cortado ao meio, com um suculento pedaço de carne. À mesa, uma tigela com diversas frutas à nossa disposição. Pronto, ali estava o nosso banquete.
O dia transcorria, escolhi uma pequena mesa no canto. Sentei-me, e me preparava para degustar meu almoço quando ele se aproximou, pedindo para sentar-se comigo.
Com um aceno na cabeça, respondi positivamente, pois naquele exato momento mordia um pedaço do meu pão com carne.
Foi quando ele, chamando seu amigo, pediu que ele levasse algumas frutas e um pão com carne a um jovem rapaz que, do outro lado da rua, buscava algum alimento nas latas de lixo.
O senhor, gentilmente, levou pedaços de melancia até o rapaz. Ao voltar, ele sorriu e disse:
- Ele quase levou minha mão junto!
O homem que estava ali sentado ao meu lado, sorriu e seus olhos encheram-se de lágrimas.
Perguntei se estava tudo bem, ele disse:
- Está sim. Sou muito coração mole. Não posso ver pessoas com fome ou com frio. E saber que talvez, esses pedaços de melancia sejam o único alimento que ele tenha o dia todo, me traz desconforto.
Começava ali uma conversa que duraria 4 horas, com frases de otimismo, revelações do passado e volta às origens. Tanto dele quanto minha.
Ele me contou muitas histórias, não para se elevar a nível de santo, nada disso... tenho certeza de que Deus manda pessoas para nós, com as palavras e frases certas, quando estamos fragilizados. E foi o que aconteceu.
Aquele senhor me contando seu passado pobre, as perdas que teve e que, mesmo assim, jamais perdera a fé. Que a ajuda deve sempre existir, seja material, seja em palavras, seja em abraços ou apenas em olhares compadecidos.
Quantas vezes apenas passamos pela vida sem deixar marcas positivas? Quantas vezes apenas levantamos e não agradecemos a Deus por mais um dia de vida? Quantas vezes observamos seres vivos nas ruas, com frio, com fome, mendigando por algo, qualquer coisa, e simplesmente passamos reto, com olhar de desdém?
Aquele senhor, com os olhos marejados, sentado ao meu lado, não precisava fazer coisas assim. Ajudar pessoas a quem ele não conhece e que, provável, jamais receberá um “muito obrigado”. Mas ele aprendeu que a vida é um ciclo. E o fazer o bem sem olhar a quem tem o seu retorno positivo, leve o tempo que levar, mas o retorno virá.
Quantas vezes eu me doei a outra pessoa, nesses anos de vida? Quantas vezes deixei meus afazeres, ou pequenos prazeres para socorrer um amigo? Quantas vezes separei um pouco da minha comida e dei a outra pessoa? Quantos abraços de carinho, olhares de afeto ou sorrisos eu dei às pessoas?
E Deus coloca pessoas em nossas vidas com suas histórias, com seus exemplos para abrir nossos olhos e ouvidos.

E a sensação daquela conversa ainda perdura e, com certeza, algo se modificou dentro de mim. 

Pelo Dia dos Pais

O Naco de Prosa deseja a todos           um lindo e feliz                 Dia dos Pais!  Foto: Google