28 de set de 2013

História para viajantes anônimos


Tu, soldado universal, venha até mim, ler seus contos, suas vidas
Já não bastaram  José, Manuel, Rachel.. . quisera  mais, e mais teve
Ansiamos vidas literárias, lutamos por ti, meu amigo  livro
Universo esplendoroso, entre Fernandos e Éricos...Entre realidade e ficção vai se formando, vai se fazendo ser
Das tuas formas eu me inspiro ...
Das tuas formas eu respiro...
Não bastaram estrelas perdurarem pelas manhã
Não bastaram assassinatos nos trilhos Rio Acima
Fostes além, fostes para o mar, provar como é doce morrer ali ,
Nas águas, nas ondas...
Indo e vindo com ele...apenas o seu corpo adocicado, morto
És o mentecapto, o maior, és o Grande Mentecapto dos livros
És tu, meu amigo que escreves linhas e linhas
Formando uma vida imaginária, uma vida vivida, quista
As  mortes foram mais mortes quando o morto renasceu ao berrar
Quando se viu enganado num bar,
Ao caminhar por essas linhas,  um  certo  Rodrigo
Vem até nós, com a postura de capitão
Mostrando-se apaixonado por uma pequena donzela
Que desagrada a muitos, a mim também, meu amigo.
Apenas continuo a folheá-lo, e a cada folha, uma nova visão
Deste Brasil imenso que temos, desta cultura que somos
Da gastronomia à fisionomia
Tantas marcas, tantos momentos, tantos ritmos
Somos um só, precisamos acreditar.
A estrela no céu nos vem espantar o sono, já é de manhã
Pessoas vão e vêm, coisas formam-se e transformam-se
Mas tu és eterno, meu amigo
Tuas páginas amareladas, seu português arcaico.
Nossas vidas retratadas a cada linha
O Brasil ansiado por todos
Nas bibliotecas refugio-me... fecho  meus olhos e sonho.
Consigo entrar em cada página, como a heroína,
Como a personagem principal
Assim eu sou: a personagem principal que leva o trem até Rio Acima
E que para quando vê um  tal de Geraldo, que há pouco Virava o Mundo,
Acena para mim, como o herói que fora...
Mas que, depois que eu não consegui parar na Segunda vez, para Pingolinha, é o bandido.
Desço do trem, minha viagem está apenas começando.
Sinto que suas páginas fecham-se com o vento forte,
O apito do trem que parte

Distante vais comigo nele...
Percorrendo as mentes ansiadas de tantos intelectuais, boêmios e literatos.
Passeando pelo trilho no corpo, na mente e nos olhos aflitos
Dos Quinze meninos que não embarcaram nele.
E vamos assim, cantando e dançando...
Batendo palmas a todos vocês, amigos como é meu
Inseparável em seus pensamentos críticos
Que fez de mim uma  certa personagem central nos teus contos e pontos,
Vamos sorrindo como podemos...
Posso olhar ao lado e ver Rachel de Queiroz discutindo com Fernando Sabino
Apena sorrindo, apenas indo...
Indo com as suas páginas
Viajando anonimamente por você...
Nadando no mar...adocicando meus pensamentos...
Pescando ideias, desfrutando delas...
Assustando os fantasmas, Quincas Berro D’Água parece um defunto
A surpresa quando eu sei que ele é um defunto vivo
Ah!  Confusões em suas páginas , meu amigo!
Deliciando-nos por letras, saboreando cada vogal...
Limpando a boca com cuidado...sem perder nenhuma consoante...
Cada fato é importante em você...
Cada qual é um...
Surpreendendo-nos, surpreendes a mim, apenas.
Desvendo em você, meu amigo, a minha vida
Camuflo-me nos barulhos do Café com pão...
Cheirinho de café...o pão quentinho saindo agora do forno
Através de ti pude conhecer onde jamais poderei ir
Em suas páginas amareladas pelo tempo das mãos...
Folheando você, invadindo você com toda a segurança de que estarei segura
Através de ti o mundo começa, na frente de ti, sou apenas eu.
Em ti, há tudo
Observando o boi com suas manchas amarelas
Pelo fubá que acaba de comer
Nossa imagem refletida nos campos, nas cavalgadas, nas brigas, nas mortes.
Quanta comida vejo na mesa!
Acarajé, vatapá, tapioca...
Estou na Bahia, neguinho!
Enquanto o chimarrão esfria no Rio Grande
Acompanhado pelo bom churrasco
Bhá! Tchê!
Deliciando-me com alguns pedaços de galinha assada
Um porquinho assado com rodelas de limão!
Quanta comida!
Quanto Brasil em cada página!
O trem continua a viajar pelo teu mundo, meu amigo
Os passageiros de primeira viagem
Não se intimidam com o seu café com pão
E até gostam do teu gingado brasileiro, povão
Mas não sabemos quando será a próxima estação,
Não sabemos como será a próxima parada
Não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos.
Seja lá onde será, você vem comigo...
O trem acelera, foi alimentado,os trilhos passam, as árvores passam
José de Alencar passa! ( pela calçada com os seus óculos na mão esquerda )
Jorge Amado descansa na rede...
Balançando com o movimento do mar...
Nem se preocupando com Quincas, que berra no bar indignamente
Suspiro que ele novamente dará
Enquanto Érico Veríssimo discute com um certo capitão Rodrigo
Que bravo, bate suas botas gaúchas revirando o lenço vermelho no pescoço
Fernando Sabino não sabe como corrigir o erro, o trem parou
Apenas...e eu era a maquinista do trem.
A imagem real de todos vindo à tona.
Rindo e cantando com suas páginas
Sentindo-nos alegrar com você,
Com seu mundo ansiado e feito
O Brasil do começo ao fim.
Um Brasil nosso, que por ti foi reconhecido
Por suas andanças  por mãos distintas ,
Pela ponta do lápis de escritores
Como foi bom viajar contigo, pena a viagem estar no fim.
No fim da linha, mas posso procurá-lo novamente
Há páginas arrancadas por mim, para a minha eternidade real
Vendo você assim, percebo como o tempo passou para mim, para você
E o trem não parou, apenas agora.
A estação, a parada, o fim da linha para mim...
Outros passageiros estão ansiosos para a próxima viagem.
Deixo-o ali, sobre à mesa
Minha mala direta ligando-me ao mundo anônimo
Conhecidos por tantos, por mim...
Como foi boa esta nossa viagem...
Do Nordeste ao Sul...
Do chimarrão à Tapioca...
O conhecer a morte doce, trazida pelas ondas do mar...
Ver Érico Veríssimo cavalgando pelos verdes campos do Rio Grande do Sul
Ver Jorge Amado balançando o pé na rede,
Acompanhando o movimento do mar que está à sua frente...
Notar a Beleza da Estrela ao despontar pela manhã,
Cujo céu existe sobre a casa de Manoel Bandeira...
Protegendo a todos os escritores, estes que fazem nosso mundo melhor...
Que usam você, meu amigo, para nos trazer um mundo à parte, um mundo que só existe em suas páginas.

 

21 de set de 2013

Apenas uma vez mais


Aquele dia ela resolveu fazer a faxina do ano

Do ano retrasado, mas antes tarde do que nunca

Sempre deve-se começar no quarto

Esvaziar as gavetas

Tantas roupas compradas e ainda com etiquetas

Maldito capitalismo selvagem!

Tantos pares de sapatos, casacos, jaquetas, blusas, saias, vestidos...

Que seriam necessárias duas novas vidas para serem usados

Abriu a caixa de papelão e ligou o botão automático

As roupas foram caindo, sapatos, casacos, blusas, uns sobre os outros

Sem olhar muito, sem maiores lembranças daqueles tecidos ou cores

Levaria para o Abrigo na rua das Flores, atrás da Igreja da Getúlio com a 24 de Maio

A caixa foi enchendo, o guarda-roupa esvaziando

Deixaria apenas o necessário, talvez dois vestidos pretos, para enterros ou casamentos ( que para ela era como enterro )

Lá no fundo, quase imperceptível, um velho moletom

Ao tocá-lo, a maciez daquele velho pano entre seus dedos, obrigando-a a fechar os olhos

E voltar no tempo...

Aquela terça feira de dezembro, cinzenta, fria...

Eram 4h. da manhã

Acabara de voltar da festa de fim de ano do trabalho, aquela que só fora porque ficara chato dizer não pelo 5º. ano consecutivo

Tomara um banho quente, vestira o moletom e deitou-se

O telefone tocara quebrando o silêncio ensurdecedor daquela noite

Seu coração acelerado, tateou no escuro o aparelho

Um fio de voz do outro lado, sôfrego, dizia que sentia saudades

Ela não respondeu nada

As lágrimas rolaram, encharcando o aparelho

Ela só queria correr e abraçar seu amor

Voltar para o tempo em que se amaram sem pudor, em que se entregaram como se fossem uma só alma

Mas o tempo era cruel, e não permitia voltas

Do outro lado a ligação fora encerrada, mas ela ainda ficara um tempo ouvindo o “tum-tum” do telefone, que já ritmava com o seu coração

Abriu os olhos, estava novamente em seu quarto, em frente ao guarda roupa, segurando entre os dedos o velho moletom

Ela não queria mais essas lembranças em sua vida, ela queria recomeçar mas seu coração sempre a traia e trazia de volta lembranças boas de um bom tempo

Aquele moletom que estava sobre a poltrona da sala, embrulhado em um pacote pardo, envolto a um laço vermelho

E acompanhado de um pequeno bilhete: “para quando eu estiver longe, vista-o e sinta-me abraçando-a com todo o meu amor”

O presente mais simples e mais belo que ganhara

Depois do telefonema, fora retirado de sua vida definitivamente, colocado em um canto qualquer do guarda roupa, mas não jogado fora

Jogá-lo fora era impossível, não se joga fora um amor

Fechou a caixa, lacrou-a, no outro dia a levaria para  o abrigo

Deitou-se na cama, braços sob a cabeça, olhar fixo no teto

Filmes curtos passando em sua mente, como podia um velho pano trazer tantas lembranças em seus fios?

Ela queria esquecer

Ela queria cantar novamente, sorrir, entregar-se por completo

Ligar e dizer com todas as sílabas: eu esqueci você

Mas isso seria impossível, sentia-se fraca diante de tanto sentimento

Só de lembrar do sorriso, do cheiro, do abraço, do motivo do moletom

Seu corpo arrepiava

Naquela noite, ela retirou o moletom do armário, tomou um demorado banho

Vestiu sua melhor roupa, seu melhor calçado

Perfumou-se

Passou em uma livraria, comprou o papel mais bonito, e embrulhou o moletom

Tocou a campainha duas vezes, apenas

A porta abriu-se minutos depois, como se a esperasse

Olhos nos olhos

Estendeu o pacote

- Esta noite está fria, você vai precisar disso

Ao fundo, no aparelho da sala, pôde ouvir Clarice Falcão:

“ polícias abaixem as armas, e troquem carícias, que a gente voltou”

... porque só se ama uma vez na vida.
mb

15 de set de 2013

Haverá um céu azul ?


já passam das duas da manhã
o vidro do carro embaçado pela respiração forte e densa
a chuva lá fora não permite abrir a janela
o tic tac do relógio o aflige
no rádio do carro, Djavan canta Flor de Lis
nunca entendera aquela letra
o café comprado há cerca de meia hora já estava frio no porta copos
seus olhos perdidos, acompanhavam o vai e vem dos limpadores
não sabia se continuaria ali ou se entraria
sempre fora um covarde
duas ambulâncias passaram por ele, com as sirenes ligadas
talvez fosse o sinal que ele estava esperando, e pedira a Deus minutos antes
respirou fundo, retirou o relógio, deixando-o sobre o banco
ao sair do carro, os pingos logo encharcaram seus cabelos grisalhos
fechou a porta e ligou o alarme
entrou no prédio
usou as escadas, o elevador tinha câmeras
subiu de dois em dois degraus, chegaria mais rápido, pensou
parou em frente à porta 210, soltou o nó  da gravata cinza chumbo
a camisa branca estava colada ao corpo
deu duas voltas na chave, entreabriu a porta
não estava pronto para ver o que seu apartamento escondia
ainda não...

entrou, sem acender a luz
fechou a porta, sem trancá-la
foi até o aparelho de som, guiado pela luz do aquário, no fundo da sala
apertou o play, Djavan agora cantava "Um amor puro"
lembrara, naquele momento, que não desligara o som do carro
a bateria, com certeza, não aguentaria a noite toda
sentou-se na confortável poltrona, presente de sua mãe no Natal anterior
ao lado, na mesinha, uma garrafa de uísque escocês, presente do seu pai, pelo aniversário de 40 anos
pegou o copo, duas pedras de gelo
misturou o uísque com o gelo usando os dedos, fixou o olhar naquelas pedras que confundiam-se com o uísque
tomou um bom gole
repousou o copo na mesinha, pegou a garrafa e foi até o quarto
os lençóis abarrotados, travesseiros no chão
abriu a garrafa, tomou mais um gole e sentou-se aos pés da cama, de frente para o espelho

frases soltas, escritas com batom, davam fim a um relacionamento de quinze anos
a despedida era feroz, rasgava o peito, ardia
mais um gole de uísque que descia denso pela sua garganta
num ataque de fúria, a garrafa voou de sua mão até o espelho à sua frente, estilhaçando-o
do que valia o amor naquele momento?
Djavan não sabia responder em suas letras
a voz, estridente no apartamento quase vazio, rodeava os pensamentos daquele homem sôfrego
levantou-se e foi até a janela, viu o seu reflexo misturado aos pingos de chuva do lado de fora
foi até o banheiro e acendeu a luz, sua amante, sua mulher, sua amada, sua amiga, caída no chão, sem pulso algum
seus belos olhos azuis, vidrados no nada
um pequeno vidro de remédio para dormir ao seu lado, os comprimidos espalhados no chão
ele abaixou-se, tirou os cabelos que tampavam um pouco seu belo rosto pálido
beijou-lhe a face
levantou-se, desligou o chuveiro, e voltou para a sala
iniciou novamente a música do Djavan
ergueu o volume
foi até a sacada
a chuva molhando seu rosto
abriu os braços e cantando Djavan, atirou-se do décimo andar:




“ aqui, ou noutro lugar, que pode ser feio ou bonito, se nós estivermos juntos, haverá um céu azul”.

  




10 de set de 2013

Dica de filme: Cleópatra ( 1963 )


O filme narra a ascenção e a queda da Rainha do Egito.

Há várias versões, várias atrizes, mas nenhuma se iguala ao filme produzido em 1963, e tendo como protagonista Elizabeth Taylor.

 

 

Assídua das histórias do antigo Egito, como muitos, li vários livros e assisti a inúmeros documentários e filmes sobre esta figura  ímpar, mas a emoção causada pela interpretação de Elizabeth é única, vale cada minuto das quase 2 horas e 40 desta gigantesca obra cinematrográfica, na verdade, o que deixou esta obra tão grandiosa foi Elizabeth.


Não apenas pela sua beleza arrebatadora e natural, mas pela sua interpretação “no ponto” certo.

Aos historiadores de plantão informamos que esta obra é fictícia, mas que não destrói a magnitude que foi Cleópatra.

 

 

 





Curiosidades: 

* Cleópatra é considerado o segundo filme mais caro do mundo, perdendo apenas para Avatar, de James Cameron. Planejado para custar 2 milhões de dólares, em 1962, sua produção custou 44 milhões de dólares ( em valores da época ). Segundo valores atualizados em 2005, o filme custou 286,4 milhões de dólares. Com o relativo fracasso comercial, quase levou à falência a produtora 20th Century Fox, que produziu e financiou o filme.
* Por sua participação no filme, Elizabeth foi a primeira atriz de Hollywood a receber um milhão de dólares pela atuação em um filme. Até então o recorde era da atriz Audrey Hepburn, que recebeu um salário de 750 mil dólares pelo filme Bonequinha de Luxo.
* Logo no início das filmagens Elizabeth adoeceu e, como praticamente todas as cenas necessitavam de sua presença, a produção foi paralisada por aproximadamente seis meses até que ela se recuperasse.
* Durante as filmagens Elizabeth trocou de figurino sessenta e cinco vezes, foi um recorde na época, batido apenas em 1996, por Madonna no filme Evita, foram oitenta e cinco trocas de figurino.
* Cleópatra foi a quinta refilmagem da história romanceada da rainha do Egito ( as três primeiras no cinema mudo, a quarta em 1934 com Claudette Colbert ), houve também uma versão com a atriz Vivien Leigh, em 1945.
* Foi durante as filmagens de Cleópatra que Elizabeth Taylor e Richard Burton se apaixonaram e começaram um casamento que duraria mais de uma década.
 

Fonte: Google
 
 

7 de set de 2013

A Rua da Minha Infância



Bateu-me uma saudade imensa da minha infância. A máquina do tempo em meu cérebro começou a retroceder...

Parou por volta dos meus cinco ou seis anos, tenho certeza, pois eu ainda não estava na escola, naquele tempo o Berçário ficava no quarto dos meus pais, o Maternal e a Pré-Escola era ao lado dos meus avós. Ah! Tempo bom. A minha rua ficava na localidade de Tócos, hoje é um bairro populoso denominado Bairro São Pedro e a minha rua hoje, chama-se Avenida João Pessoa.

Minha rua não era asfaltada, não tinha iluminação pública, recolhimento de lixo, entulho, nada de telefone, tudo que pudermos enumerar nos dias atuais, naquela época eram inexistentes, portanto posso contar tudo o que havia nela.

Ela era ornamentada por rica vegetação: Havia muita Mamona, Inhapindá (conhecida vugarmente por Unha de Gato) e  sobre toda essa vegetação havia muito cipó o qual era carregado de pente de macaco, eu conhecia por este nome, e bem em frente da minha casa, do outro lado da rua, havia um imenso pinheiro (araucária), lindo e sob ele o gado descansava e mais, junto a ele e, escondido pela vegetação, havia um campinho de futebol, onde os meninos passavam as horas sem correr perigo algum.

Voltando o olhar para a minha rua, havia uma grande valeta, misteriosa até, era descomunal em comparação às que conhecemos. Ela tinha uma metragem de mais de um metro de largura, mais parecia ser um lago, suas águas desciam limpíssimas, ela vinha do morro e passava ao lado da minha rua. Algumas crianças, poucas, na época, brincavam ali  tranquilamente, e aproveitavam para colher e comer amorinhas. Eu só podia olhar de longe, pois o Papai Noel me proibira de sair para brincar na rua. Eu obedecia, pois sabia que ele me cobraria no dia de Natal.

Junto a minha casa havia um grande campo, meu pai na época, comprou uma grande parte de terreno do seu Ângelo Schwab e mais tarde foi repassado para meus tios que também construíram suas casas.

A minha rua era de terra batida e quando chovia o areial virava num atoleiro, cenas de filme. Muitos atolavam ali e ninguém conseguia sair limpo. Na época havia o uso de galochas, eram calçados de borracha que se usava sobre o calçado, mantendo-o limpo e seco.Na minha rua havia muitos pedaços de madeira, troncos de árvores e galhos para ajudar na compactação da terra. Era um caos quando chovia.

Volto à minha memória e vejo com muita lucidez o morro da minha rua, no qual, meu pai e meus dois tios subiam para ir ao trabalho. Eu gritava:

-Mãe, eles estão “subindo a subida,” e estão pedalando (risos) eu gostava de ficar olhando para ver se meu pai conseguia pedalar morro acima, (foi ciclista ganhador de muitos troféus) e todos conseguiam. Ao lado direito da minha rua, no topezinho próximo à linha do trem, ficava o “ Salão Poeirinha,” ou “Poeira,” o nome é devido à poeira que levantava no momento da dança, para mim cada dia tinha outro gosto, outro valor. Imagino hoje, os que iam dançar levavam muito barro em seus sapatos ou botas para dentro do salão e quando secava, tudo virava pó. E o salão tremia, como eu sei?

Do meu quarto eu ouvia o som, e nas noites de carnaval era mais forte, e eu morava longe do Salão.

Bem na esquina, no lado oposto do salão havia cerca de arame  que cercava a propriedade dos Wolf.

Os moradores da minha rua eram poucos. Ao lado da minha casa, mas do outro lado da rua era a residência dos Schwab, dona Helena, mãe do seu Schwab, morou por muitos anos no mesmo lugar, era um terreno com metragem enorme, havia nele estrebaria, galinheiro, potreiro e muitas árvores frutíferas, que ficavam juntas a muitas flores.  Acima do lado direito, morava a família  dos Jolly .

A minha rua ainda está lá, mas como eu ela mudou de aparência e hoje, ela é uma bela Avenida com muitos moradores ao seu redor. Eu ainda a vejo como era no meu tempo de criança.

Eu posso contar nos dedos às vezes, que vira agitação, na rua ou seja movimento ou barulho maior  ou diferente dos dias rotineiros.

Toda a poesia de minha vida poderia resumir-se naquele instante que jamais foi passageiro, o olhar apaixonado que eu tinha em meu rosto, reflete hoje, na saudade agradável que sinto em mim.

Criticar ou não criticar?

Às vezes o que precisamos é apenas um filme que nos traga algo de bom. E esses dias eu estava a procura de algo bom, delicado e encontrei...