15 de fev de 2016

O velho chinelo

Lembro-me com saudades da minha infância,
                                                                        
nela, vivi momentos únicos e que  trago comigo, até hoje

Deles tirei aprendizados e, consequentemente, maturidade

Os natais tinham outro sabor, mais especificamente: beijo

baiano,

aquelas bolachas redondas, cobertas com chocolates e que 

nenhuma pessoa que utilize prótese dentária, ousaria

morder.

Mas, quando elas chegavam para nós, os três filhos de um

casal de comerciantes,

ao abrirmos o pacote, lembro que a pequena sala, de chão

de madeira, recendia o aroma vindo daquelas bolachas

Meus irmãos e eu, aprendemos cedo o que era trabalho

O quanto era importante a responsabilidade ,e o que

deveríamos esperar da vida.

Nada nos era dado, o que tínhamos era com o trabalho

árduo do meu pai e de minha mãe

Mas, um objeto em específico é vívido em minhas melhores

lembranças de um passado tão diferente, tão distante da

 realidade infanto-juvenil em nosso país, hoje

Um par, gasto, de chinelos

Suas tiras eram vermelhas, se não fossem de borracha, diria

a vocês que elas brilhavam,

tamanho cuidado e higiene que eu tinha com ele, o meu

velho e único par de chinelos,

ficava sempre do lado de fora da porta,pois

 como eu o utilizava para meus afazeres externos, não era

comum entrarmos em casa com o mesmo calçado

Deixávamos ele na porta.

A noite passou, noutro dia, minha mãe pediu para eu ir levar

 o leite até o vizinho,eram duas garrafas, e a casa ficava a

 uns dois quarteirões da minha.

Peguei as garrafas, coloquei-as na cesta, cobri e abri a 

porta.

Fui pronta para calçar os chinelos, mas meus pés 

encontraram apenas o vazio
.
Sabem aquela sensação desconfortável, como se um buraco

no chão se abrisse, e você fosse caindo sem conseguir se

agarrar em nada?

Pois bem, foi justamente isso que aconteceu

Roubaram meu chinelo! Exclamei em meus pensamentos

Jamais soubemos de roubo aqui, por isso confiávamos em

mas, sempre há uma primeira vez.

E justo comigo...

O que diria aos meus pais? Como iria entregar as compras?

Não podia me dar ao luxo de perder um calçado, não 

naquele momento, em épocas de vacas magras, como

costumeiramente dizíamos.

Eu tinha responsabilidades, e precisava entregar a 

encomenda.

Não poderíamos perder mais uma venda,

A única opção foi calçar os sapatos de ir, à missa

ou isso, ou a galocha utilizada para ajudar o pai, na lida com

os animais no pasto.

Entrei em casa sorrateiramente, pois

não queria que os olhos da minha mãe fossem direto para as

garrafas de leite, ainda em minhas mãos

Calcei os sapatos e saí.

No caminho, ainda inconformada, reclamei baixo sobre o

fato,

ao meu lado, passava uma senhora

Cabelos bem brancos, um xale de crochê, nas costas,

sorriso nos lábios, me cumprimentou, e

entre os dentes soltei um, bom dia.

Intrigada, percebendo que algo estava errado.

Indagou-me:-Em num dia tão lindo, o que a aborrece?

Não conhecia aquela senhora, não ia contar algo tão íntimo

a ela
,
E, se ela contasse à minha mãe?

Não, apenas abanei a cabeça e segui meu caminho.

Na volta, ainda incrédula, pensava em como contar sobre o

meu descuido.

Quando olho em volta, um menino, deveria ter uns quatro

 aninhos,

Corria de um lado para o outro,

camiseta suja, com vários rasgos, um calção marrom escuro,

cabelos raspados

Ele sorria e corria

Mas era uma risada tão gostosa, que por um momento em 

esqueci o que havia acontecido

Com certeza, não era dali,

pois na época, meu bairro era pequeno, e conhecíamos a 

todos.

Talvez algum migrante que passava por ali,

mas, ao olhar para baixo, e perceber o que havia em seus 

pés, congelei

Os meus chinelos, agora já sujos de terra, em seus

pequenos pés

Na hora, meu sangue ferveu.

Ele era uma criança, mas precisava saber que o que fez não

estava certo.

Aproximei-me:- Olá, menino, venha cá!

Ele parou, me olhou, e chamou pela mãe

Uma senhora, veio lá do fundo enxugando as mãos no velho

 avental: pois não? Ela indagou.

- Senhora, desculpe incomodar, mas os chinelos que o seu

filho está usando são meus. Eu tenho certeza disso.

Ela não sabia o que dizer. Pediu para o menino entrar.

Aproximou-se da cerca, e disse:- Desculpe! Eu não agi certo.

Chegamos ontem, viemos de muito longe. Estávamos com

 fome, sede, cansados. Caminhamos muitos quilômetros,

 outros conseguimos carona. Sei que a moça não tem nada

 com isso. Mas só Deus sabe o quanto é difícil pra mim, e

 meu filho chegarmos aqui com vida.

- Eu entendo, mas roubar não é o caminho – argumentei.

- Eu sei. Mas o meu menino, esse que você viu correndo,

 nunca tinha visto um calçado assim. Eu nunca pude dar a 

ele algo assim. O pouco que temos, mal dá para a comida.

 Quando passamos em frente a sua casa, ele garrou ( sic ) o

 sapato e não quis mais largar. Como eu vou tirar de uma 

criança? Eu juro por Deus, nosso Senhor, que eu ia hoje, lá

 falar com vocês. Consegui por um milagre essa família aqui

 que me abrigou, eu e o menino. Estou trabalhando agora. E 

vou pagar tintin por tintin o seu chinelo. Mas, por 

misericórdia, não tira do meu menino não..

E, de repente, lágrimas começaram a molhar o rosto daquela

 mulher.

Ali estava uma mãe, desesperada, que passara por muito

sofrimento, com um filho pequeno e, sozinha no mundo. Só 

Deus sabia o que ela estava sentindo.

Retirei o pequeno pano que cobria as garrafas de leite e, 

ofereci para secar-lhe as lágrimas. Constrangida, ela 

agradeceu. Apenas pediu, encarecidamente, para que eu 

não contasse nada à patroa dela, senão ela perderia o

 emprego.

- Está tudo bem, fique com o chinelo. Não o tirarei do seu 

filho.
Abaixei-me, peguei a cesta, e continuei rumo a minha casa.

Quando uma voz já conhecida me chamou. Olhei de canto 

de olho, ela aquela senhora de cabelos brancos e xale nas

costas que conversara comigo, há pouco.

Ela falava baixo, não queria ser notada.

- Olá, menina. Agora entendi o motivo de sua tristeza. Ouvi 

toda a história.

Abaixei a cabeça.

- Não se envergonhe, disse ela. Você só tinha esse par de

 chinelos?

Assenti.

- Essa mulher com quem você acabou de conversar, nunca

 soube a maciez que eles nos proporcionam, só tem calos e 

bolhas nos pés, mal escondidos por um sapato velho e

rasgado. Seu pequeno, o menino, que há pouco sorria e se 

divertia, nunca teve o prazer de experimentar a maciez da 

borracha protegendo as solas do seu pequeno pé, da

 ardência do chão. Essa casa, é minha, era de minha

 família, voltei morar aqui ontem mesmo, e recebi essa 

senhora e seu filho porque preciso de ajuda. Mas eu não 

conhecia a história dela, ainda não tive tempo para

conversar. Vamos fazer uma coisa? Venha comigo ao 

armazém da vila, vamos comprar roupas e sapatos

para essa mãe e seu filho!

Ela estava tão empolgada, que eu não tive como negar. 

Apenas passei em casa e tranquilizei minha mãe. Entreguei 

o dinheiro do leite e segui com a bondosa senhora.

Ela comprou muitas roupas.

. Voltamos, o sol estava se pondo.

- Gostou da nossa tarde, menina?

- Muito! – exclamei.

- Espere, isso é para você.

Olhei para a mão da senhora, uma caixa amarela se 

destacava.

- Tome, abra!

Abri, dentro, um par de chinelos.

Olhei para ela, devolvendo a caixa.

- Você vai aceitar. É o meu presente para você. Aprenda:

quem ajuda, é ajudado.

A Lei Divina é assim. Hoje, você sairá daqui com uma lição

apreendida: a vida é um ciclo.

Ninguém que dá amor recebe pedras,você aceitou as

desculpas daquela mãe e deu o seu único par de chinelos

àquele menino. Devolvo os a você!

Ela entrou, fiquei um tempo com a caixa nas mãos olhando 

lá dentro, pela janela, um pequeno menino continuava

pulando, ora abraçando sua mãe, ora se escondendo atrás 

do sofá.
L




11 comentários:

  1. Boa noite, colega Marli!
    Que bela história. Gostei muitíssimo!
    Ei, moça!
    Hoje meu blogue está completando 4 anos de existência. Você faz parte desta comemoração afinal de contas, é minha seguidora.
    Dê uma passadinha por lá. Ficarei feliz com sua visitinha e comentário, sempre tão gentis.
    Tenha uma linda nova semana.
    Abração pra você! :)

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  2. Há lições que servem de base para a vida inteira. A generosidade habita seu relato, sensível e encantador. Você me fez lembrar que também tínhamos sapato para ir à missa ou passear. E o que se usava em casa. Creio, Marli, que a vida foi muito boa conosco, não nos dando muito na infância. Assim, entendemos os sacrifícios de nossos pais e aprendemos que as coisas nos chegam com trabalho, honestidade... e a preciosa generosidade. Bjs.

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  3. Um simples par de chinelos... Tantas recordações, tantas lembrranças e até lições deixou marcado! Lindo te ler, como sempre, Marli! beijos, tudo de bom,chica

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  4. Belo conto, amei ler amiga Marli, bem verdade, quem ajuda nunca fica na mão quando por sua vez precisar!
    Deixo aqui abraços apertados!

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  5. Linda história de vida Marli Teresinha!
    Dessa forma é que aprendemos a fazer caridade.
    Bjs-Carmen Lúcia.

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  6. Que maravilhosa narrativa sobre infância que me levou à minha. Tantas saudades que tenho de tantas coisas, nem todas!

    Beijo e um dia feliz.

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  7. Gostei muito desta bela narrativa...algo melancólica mas muito profunda!

    Beijinho Marli!

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  8. Linda esta história, chega a nos comover.
    Um abraço,
    Élys.

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  9. Marli,

    Da sua lembrança do "O velho chinelo", uma bela crônica, toda uma história, de vida e de trabalho, tendo sua família como centro, numa época em que lhe vale a pena recordar, pelas vitórias obtidas, e, ainda, pelas lições aprendidas. Parabéns, minha amiga.

    Abraços.

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  10. Querida Marli, gostei muito dessa sua história, comove. Como as pessoas são diferentes umas das outras... As três personagens que aparecem são muito boas, muito humanas. Você tem uma rica história de vida.
    Um beijo, querida.

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  11. Que história linda! Confesso que me comovi. Gostei do seu jeito de narrar.
    Um beijo.

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