21 de set. de 2013

Apenas uma vez mais


Aquele dia ela resolveu fazer a faxina do ano

Do ano retrasado, mas antes tarde do que nunca

Sempre deve-se começar no quarto

Esvaziar as gavetas

Tantas roupas compradas e ainda com etiquetas

Maldito capitalismo selvagem!

Tantos pares de sapatos, casacos, jaquetas, blusas, saias, vestidos...

Que seriam necessárias duas novas vidas para serem usados

Abriu a caixa de papelão e ligou o botão automático

As roupas foram caindo, sapatos, casacos, blusas, uns sobre os outros

Sem olhar muito, sem maiores lembranças daqueles tecidos ou cores

Levaria para o Abrigo na rua das Flores, atrás da Igreja da Getúlio com a 24 de Maio

A caixa foi enchendo, o guarda-roupa esvaziando

Deixaria apenas o necessário, talvez dois vestidos pretos, para enterros ou casamentos ( que para ela era como enterro )

Lá no fundo, quase imperceptível, um velho moletom

Ao tocá-lo, a maciez daquele velho pano entre seus dedos, obrigando-a a fechar os olhos

E voltar no tempo...

Aquela terça feira de dezembro, cinzenta, fria...

Eram 4h. da manhã

Acabara de voltar da festa de fim de ano do trabalho, aquela que só fora porque ficara chato dizer não pelo 5º. ano consecutivo

Tomara um banho quente, vestira o moletom e deitou-se

O telefone tocara quebrando o silêncio ensurdecedor daquela noite

Seu coração acelerado, tateou no escuro o aparelho

Um fio de voz do outro lado, sôfrego, dizia que sentia saudades

Ela não respondeu nada

As lágrimas rolaram, encharcando o aparelho

Ela só queria correr e abraçar seu amor

Voltar para o tempo em que se amaram sem pudor, em que se entregaram como se fossem uma só alma

Mas o tempo era cruel, e não permitia voltas

Do outro lado a ligação fora encerrada, mas ela ainda ficara um tempo ouvindo o “tum-tum” do telefone, que já ritmava com o seu coração

Abriu os olhos, estava novamente em seu quarto, em frente ao guarda roupa, segurando entre os dedos o velho moletom

Ela não queria mais essas lembranças em sua vida, ela queria recomeçar mas seu coração sempre a traia e trazia de volta lembranças boas de um bom tempo

Aquele moletom que estava sobre a poltrona da sala, embrulhado em um pacote pardo, envolto a um laço vermelho

E acompanhado de um pequeno bilhete: “para quando eu estiver longe, vista-o e sinta-me abraçando-a com todo o meu amor”

O presente mais simples e mais belo que ganhara

Depois do telefonema, fora retirado de sua vida definitivamente, colocado em um canto qualquer do guarda roupa, mas não jogado fora

Jogá-lo fora era impossível, não se joga fora um amor

Fechou a caixa, lacrou-a, no outro dia a levaria para  o abrigo

Deitou-se na cama, braços sob a cabeça, olhar fixo no teto

Filmes curtos passando em sua mente, como podia um velho pano trazer tantas lembranças em seus fios?

Ela queria esquecer

Ela queria cantar novamente, sorrir, entregar-se por completo

Ligar e dizer com todas as sílabas: eu esqueci você

Mas isso seria impossível, sentia-se fraca diante de tanto sentimento

Só de lembrar do sorriso, do cheiro, do abraço, do motivo do moletom

Seu corpo arrepiava

Naquela noite, ela retirou o moletom do armário, tomou um demorado banho

Vestiu sua melhor roupa, seu melhor calçado

Perfumou-se

Passou em uma livraria, comprou o papel mais bonito, e embrulhou o moletom

Tocou a campainha duas vezes, apenas

A porta abriu-se minutos depois, como se a esperasse

Olhos nos olhos

Estendeu o pacote

- Esta noite está fria, você vai precisar disso

Ao fundo, no aparelho da sala, pôde ouvir Clarice Falcão:

“ polícias abaixem as armas, e troquem carícias, que a gente voltou”

... porque só se ama uma vez na vida.
mb

15 de set. de 2013

Haverá um céu azul ?


já passam das duas da manhã
o vidro do carro embaçado pela respiração forte e densa
a chuva lá fora não permite abrir a janela
o tic tac do relógio o aflige
no rádio do carro, Djavan canta Flor de Lis
nunca entendera aquela letra
o café comprado há cerca de meia hora já estava frio no porta copos
seus olhos perdidos, acompanhavam o vai e vem dos limpadores
não sabia se continuaria ali ou se entraria
sempre fora um covarde
duas ambulâncias passaram por ele, com as sirenes ligadas
talvez fosse o sinal que ele estava esperando, e pedira a Deus minutos antes
respirou fundo, retirou o relógio, deixando-o sobre o banco
ao sair do carro, os pingos logo encharcaram seus cabelos grisalhos
fechou a porta e ligou o alarme
entrou no prédio
usou as escadas, o elevador tinha câmeras
subiu de dois em dois degraus, chegaria mais rápido, pensou
parou em frente à porta 210, soltou o nó  da gravata cinza chumbo
a camisa branca estava colada ao corpo
deu duas voltas na chave, entreabriu a porta
não estava pronto para ver o que seu apartamento escondia
ainda não...

entrou, sem acender a luz
fechou a porta, sem trancá-la
foi até o aparelho de som, guiado pela luz do aquário, no fundo da sala
apertou o play, Djavan agora cantava "Um amor puro"
lembrara, naquele momento, que não desligara o som do carro
a bateria, com certeza, não aguentaria a noite toda
sentou-se na confortável poltrona, presente de sua mãe no Natal anterior
ao lado, na mesinha, uma garrafa de uísque escocês, presente do seu pai, pelo aniversário de 40 anos
pegou o copo, duas pedras de gelo
misturou o uísque com o gelo usando os dedos, fixou o olhar naquelas pedras que confundiam-se com o uísque
tomou um bom gole
repousou o copo na mesinha, pegou a garrafa e foi até o quarto
os lençóis abarrotados, travesseiros no chão
abriu a garrafa, tomou mais um gole e sentou-se aos pés da cama, de frente para o espelho

frases soltas, escritas com batom, davam fim a um relacionamento de quinze anos
a despedida era feroz, rasgava o peito, ardia
mais um gole de uísque que descia denso pela sua garganta
num ataque de fúria, a garrafa voou de sua mão até o espelho à sua frente, estilhaçando-o
do que valia o amor naquele momento?
Djavan não sabia responder em suas letras
a voz, estridente no apartamento quase vazio, rodeava os pensamentos daquele homem sôfrego
levantou-se e foi até a janela, viu o seu reflexo misturado aos pingos de chuva do lado de fora
foi até o banheiro e acendeu a luz, sua amante, sua mulher, sua amada, sua amiga, caída no chão, sem pulso algum
seus belos olhos azuis, vidrados no nada
um pequeno vidro de remédio para dormir ao seu lado, os comprimidos espalhados no chão
ele abaixou-se, tirou os cabelos que tampavam um pouco seu belo rosto pálido
beijou-lhe a face
levantou-se, desligou o chuveiro, e voltou para a sala
iniciou novamente a música do Djavan
ergueu o volume
foi até a sacada
a chuva molhando seu rosto
abriu os braços e cantando Djavan, atirou-se do décimo andar:




“ aqui, ou noutro lugar, que pode ser feio ou bonito, se nós estivermos juntos, haverá um céu azul”.

  




10 de set. de 2013

Dica de filme: Cleópatra ( 1963 )


O filme narra a ascenção e a queda da Rainha do Egito.

Há várias versões, várias atrizes, mas nenhuma se iguala ao filme produzido em 1963, e tendo como protagonista Elizabeth Taylor.

 

 

Assídua das histórias do antigo Egito, como muitos, li vários livros e assisti a inúmeros documentários e filmes sobre esta figura  ímpar, mas a emoção causada pela interpretação de Elizabeth é única, vale cada minuto das quase 2 horas e 40 desta gigantesca obra cinematrográfica, na verdade, o que deixou esta obra tão grandiosa foi Elizabeth.


Não apenas pela sua beleza arrebatadora e natural, mas pela sua interpretação “no ponto” certo.

Aos historiadores de plantão informamos que esta obra é fictícia, mas que não destrói a magnitude que foi Cleópatra.

 

 

 





Curiosidades: 

* Cleópatra é considerado o segundo filme mais caro do mundo, perdendo apenas para Avatar, de James Cameron. Planejado para custar 2 milhões de dólares, em 1962, sua produção custou 44 milhões de dólares ( em valores da época ). Segundo valores atualizados em 2005, o filme custou 286,4 milhões de dólares. Com o relativo fracasso comercial, quase levou à falência a produtora 20th Century Fox, que produziu e financiou o filme.
* Por sua participação no filme, Elizabeth foi a primeira atriz de Hollywood a receber um milhão de dólares pela atuação em um filme. Até então o recorde era da atriz Audrey Hepburn, que recebeu um salário de 750 mil dólares pelo filme Bonequinha de Luxo.
* Logo no início das filmagens Elizabeth adoeceu e, como praticamente todas as cenas necessitavam de sua presença, a produção foi paralisada por aproximadamente seis meses até que ela se recuperasse.
* Durante as filmagens Elizabeth trocou de figurino sessenta e cinco vezes, foi um recorde na época, batido apenas em 1996, por Madonna no filme Evita, foram oitenta e cinco trocas de figurino.
* Cleópatra foi a quinta refilmagem da história romanceada da rainha do Egito ( as três primeiras no cinema mudo, a quarta em 1934 com Claudette Colbert ), houve também uma versão com a atriz Vivien Leigh, em 1945.
* Foi durante as filmagens de Cleópatra que Elizabeth Taylor e Richard Burton se apaixonaram e começaram um casamento que duraria mais de uma década.
 

Fonte: Google
 
 

7 de set. de 2013

A Rua da Minha Infância



Bateu-me uma saudade imensa da minha infância. A máquina do tempo em meu cérebro começou a retroceder...

Parou por volta dos meus cinco ou seis anos, tenho certeza, pois eu ainda não estava na escola, naquele tempo o Berçário ficava no quarto dos meus pais, o Maternal e a Pré-Escola era ao lado dos meus avós. Ah! Tempo bom. A minha rua ficava na localidade de Tócos, hoje é um bairro populoso denominado Bairro São Pedro e a minha rua hoje, chama-se Avenida João Pessoa.

Minha rua não era asfaltada, não tinha iluminação pública, recolhimento de lixo, entulho, nada de telefone, tudo que pudermos enumerar nos dias atuais, naquela época eram inexistentes, portanto posso contar tudo o que havia nela.

Ela era ornamentada por rica vegetação: Havia muita Mamona, Inhapindá (conhecida vugarmente por Unha de Gato) e  sobre toda essa vegetação havia muito cipó o qual era carregado de pente de macaco, eu conhecia por este nome, e bem em frente da minha casa, do outro lado da rua, havia um imenso pinheiro (araucária), lindo e sob ele o gado descansava e mais, junto a ele e, escondido pela vegetação, havia um campinho de futebol, onde os meninos passavam as horas sem correr perigo algum.

Voltando o olhar para a minha rua, havia uma grande valeta, misteriosa até, era descomunal em comparação às que conhecemos. Ela tinha uma metragem de mais de um metro de largura, mais parecia ser um lago, suas águas desciam limpíssimas, ela vinha do morro e passava ao lado da minha rua. Algumas crianças, poucas, na época, brincavam ali  tranquilamente, e aproveitavam para colher e comer amorinhas. Eu só podia olhar de longe, pois o Papai Noel me proibira de sair para brincar na rua. Eu obedecia, pois sabia que ele me cobraria no dia de Natal.

Junto a minha casa havia um grande campo, meu pai na época, comprou uma grande parte de terreno do seu Ângelo Schwab e mais tarde foi repassado para meus tios que também construíram suas casas.

A minha rua era de terra batida e quando chovia o areial virava num atoleiro, cenas de filme. Muitos atolavam ali e ninguém conseguia sair limpo. Na época havia o uso de galochas, eram calçados de borracha que se usava sobre o calçado, mantendo-o limpo e seco.Na minha rua havia muitos pedaços de madeira, troncos de árvores e galhos para ajudar na compactação da terra. Era um caos quando chovia.

Volto à minha memória e vejo com muita lucidez o morro da minha rua, no qual, meu pai e meus dois tios subiam para ir ao trabalho. Eu gritava:

-Mãe, eles estão “subindo a subida,” e estão pedalando (risos) eu gostava de ficar olhando para ver se meu pai conseguia pedalar morro acima, (foi ciclista ganhador de muitos troféus) e todos conseguiam. Ao lado direito da minha rua, no topezinho próximo à linha do trem, ficava o “ Salão Poeirinha,” ou “Poeira,” o nome é devido à poeira que levantava no momento da dança, para mim cada dia tinha outro gosto, outro valor. Imagino hoje, os que iam dançar levavam muito barro em seus sapatos ou botas para dentro do salão e quando secava, tudo virava pó. E o salão tremia, como eu sei?

Do meu quarto eu ouvia o som, e nas noites de carnaval era mais forte, e eu morava longe do Salão.

Bem na esquina, no lado oposto do salão havia cerca de arame  que cercava a propriedade dos Wolf.

Os moradores da minha rua eram poucos. Ao lado da minha casa, mas do outro lado da rua era a residência dos Schwab, dona Helena, mãe do seu Schwab, morou por muitos anos no mesmo lugar, era um terreno com metragem enorme, havia nele estrebaria, galinheiro, potreiro e muitas árvores frutíferas, que ficavam juntas a muitas flores.  Acima do lado direito, morava a família  dos Jolly .

A minha rua ainda está lá, mas como eu ela mudou de aparência e hoje, ela é uma bela Avenida com muitos moradores ao seu redor. Eu ainda a vejo como era no meu tempo de criança.

Eu posso contar nos dedos às vezes, que vira agitação, na rua ou seja movimento ou barulho maior  ou diferente dos dias rotineiros.

Toda a poesia de minha vida poderia resumir-se naquele instante que jamais foi passageiro, o olhar apaixonado que eu tinha em meu rosto, reflete hoje, na saudade agradável que sinto em mim.

31 de ago. de 2013

A BOIADA ENCANTAVA A MINHA VIDA....

 

   Onde estão todas as minhas lembranças?
     Lembranças das histórias da minha infância. O mundo é grandioso,mas em mim ele é mais profundo, pois sinto a profundidade nos recantos da memória, e fui longe buscá-la,por volta dos meus cinco anos. Como começar a escrever o que está dormindo em minha mente e continua silencioso?
     A saudade sempre me fez silenciosa. E busco no meu silêncio acordar minhas reminiscências.
     Lendo Odilon Muncinelli, em sua coluna " MILHO NO MONJOLO," "Caminho dos Tropeiros," o silêncio  se fez claro e as imagens vieram-me à lembrança. Boiadeiros e boiada passavam em frente ao Armazém dos meus pais (hoje falecidos). Na Canção " O menino da Porteira," quando diz: ...eu jogava uma moeda  e ele saia pulando...," ninguém me jogava uma moeda, mas eu saia pulando literalmente, sob os brados de minha mãe, para que eu tivesse cuidado. Para mim, na época, era semelhante a assistir ao mais belo show da vida. Lembro que eu os aplaudia com muita alegria. Eu ficava na porta central do armazém para não perder nada. E não perdia.
     Minha mãe sempre repetia:
    -Quando vem a boiada, (TROPEIROS,) precisamos  ter muito cuidado com essa menina, mais olhos sobre ela, pois ela é bem capaz de ir atrás deles.
     E, eu continuava no meu enlevo batendo palmas à boiada.
     Era muitíssimo comum ver seu Romualdo de Melo (açougueiro), forte na época, morava no bairro, próximo à igrejinha, naquela época chamava-se " TÓCOS", o nome veio pela grande quantidade de tócos de árvores, pois ao lado da então estrada, hoje (Avenida João Pessoa), era rodeada de vegetação alta e muitos tócos e galhos de árvores eram jogados, quando chovia na então barrenta estrada. Os tócos ajudavam, eram como brita que colocam, hoje, em estradas do interior. Está viva em minha memória a feiura que era a estrada em dias chuvosos. Não dá para descrever apenas com palavras, há a necessidade de se contar em uma tela, por um bom artista plástico. Era um lamaçal, havia muita areia, e ficava pior após a passagem da boiada.

 
 

     Voltando à memória, o Seu Romualdo Melo passava com a boiada, na minha frente, levava os bois para o açougue de sua propriedade, localizado na rua Matos Costa, em Porto União. Ainda lembro que eu sempre elogiava o gado. Realmente, eram reses bonitas, porte grande,chifres enormes.
     Junto dele, vinham mais peões, pois o rebanho era imenso. Sem dúvida, o devaneio se alimenta de espetáculos variados e este era meu maior espetáculo, principalmente quando algum animal se desgarrava e eu ouvia os gritos, para as pessoas saírem do caminho da boiada.

Os peões corriam a cavalo, com o chicote, os estalos estão até hoje, em meus ouvidos. Geralmente, a boiada ia tranquila, os cães enormes eram fiéis ao seu trabalho. Ouvi dizer que quando a boiada não está em sua querência, ela fica mais dócil aos comandos. Eu contemplava, paradinha no mesmo lugar. Era demorada a passagem pela estrada e eu batia palmas, hoje, não sei dizer se era para a boiada ou para o show que ela apresentava aos meus olhinhos de criança.
     Passo ainda hoje, por um pequeno choque quando lembro dessa passagem, para mim tão linda.
Antes de serem levados ao matadouro municipal, que ficava no bairro Santa Rosa, o gado passava pelo Posto de Desinfecção, o qual era quase em frente à Igreja São Basílio Magno. Meu pai sempre dizia que Seu Romualdo levava os bois para tomar banho, porque o calor judiava deles. Eu acreditava, pois era difícil, naquela época eu entender que eles iam para a morte.
     A boiada que fora pela manhã já ficava no matadouro, que dó. A noitinha, seu Romualdo Melo, estava de volta com outra boiada, a gente ouvia de longe o tropel do gado e dos cavalos. Os peões traziam o chicote enrolado na mão, e às vezes o faziam rodopiar no ar. Era um show sem igual. Depois de longa jornada a boiada ficava em um imenso pátio com pasto. Porém, quando o tempo era indeterminado, todo o rebanho ficava em um grande potreiro.
     Dona Estela Soznowski, alugava os potreiros para quem precisava , ela morava na rua atrás da igrejinha ( da época). Em frente à casa dela ficava a propriedade do DR. Lauro Miller Soares.
     É necessário estar presente, presente ao acontecimento, no minuto em que ele acontece e a imagem que tenho gravada na mente me seduz porque foi uma sedução.Como uma imagem tão simples pode provocar tanta saudade?
     Às vezes, meu avô me levava para ver os bois no pasto. Eu ficava a observar a distância que era delimitada por ele. Quando algum boi intrometido vinha um pouco mais perto da cerca, meu avô gritava:
-Escapa! Escapa! 
     Essa boiada se diferenciava da outra que fazia o trajeto de Palmas, Porto União da Vitória  até Palmeira.
     Esta escrita são as minhas impressões, que não basta explicá-la. É preciso vivê-las. E, eu as vivi. É necessário estar presente, presente ao acontecimento, no minuto em que ele acontece.E a imagem que tenho gravada na mente,me seduz, porque foi uma sedução.Como uma imagem tão simples pode provocar tanta saudade? É que minha alma é evocada em  cada lembrança boa, do meu tempo de criança, e que hoje se transforma em imagem poética.

20 de ago. de 2013

René Linhares Augusto



                       Recado ao René 


    Há diversas maneiras de começar a escrever sobre determinada pessoa, no entanto quando precisamos falar sobre a morte, fica extremamente difícil.
   Reporto-me à Clarice Lispector :
"Eu desconfio que a morte vem. Morte?
Será que a morte é um blefe? Um truque da vida?"
   Sábado, dia 10 de agosto, às 12h10, momento em que René Linhares Augusto deixa-nos para continuar a viver, em outro espaço. A notícia inundou as nossas cidades de tristeza pela perda do grande amigo, colunista.
 René, era dono das palavras, pois as usava para professar a verdade. Percebia-se uma relação simbiótica entre ele e Lulu quando, para eles todas as utopias eram possíveis.
 Ele era um homem dono de um currículo invejável, tinha uma vida muito ativa e fértil na família, na vida profissional, no esporte, na escrita. podemos aqui, até citar Olegário Mariano como se fosse René:
" Vida! Quero viver todas as suas obras, 
As que prendi na mão e as que nunca alcancei." Ele era assim, cheio de vida para tudo. Ele nos parecia às vezes, sisudo semelhante a quem está de mau humor, mas ledo engano, bastavam poucos minutos para o nobre colunista abrir um sorriso e pôr rica prosa à mesa.
 René, dono e conhecedor de muitas histórias, algumas clamavam por justiça, e muitas exigiam dele e Lulu muita fibra e coragem para manifestar-se, o que nunca os fez recuar. Sempre agarrou tudo com muita honradez e disciplina. Era um homem que não deixava nada passar sem resposta , lembrei-me de ter lido, em algum lugar, em certa ocasião, o pensamento de Josué Montello:
" Todo homem tem o dever de seguir a estrada que passa pela sua aldeia." E com certeza, René a percorreu toda, passo a passo levando o Jornal Caiçara a completar 60 anos de trabalho à sociedade, podemos dizer que ele seguiu a risca a expressão cunhada pelo apóstolo São Paulo -" ... combater o bom combate e manter a fé." Ele o fez com maestria em todos os sentidos.
Ao escrever sobre René, as palavras vão fluindo devido ao muito que se tem a dizer sobre ele.
  Em sermão de 1890, o pastor Henry Drummond fala sobre o nosso encontro com o Criador. Diz ele:
" Nesse momento a grande pergunta do ser humano não será:" Como eu vivi? " Será, isto, sim: " Como eu amei"?
 E René amou muito, amou a vida, amou incondicionalmente a família, amou o trabalho, amou os amigos e se foi no Amor para subir ao pódio e ganhar o troféu da missão cumprida.
 Com a lembrança de quem amamos, mas que já partiram podemos com certeza, recuperar a alegria e a força de viver e além disso, termos em mente que:
" Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós."

Marli Terezinha Andrucho Boldori



      


17 de ago. de 2013

Nascer assim, tudo bem,mas morrer assim, não.

                                                Como viver assim.

        Sinto que o sol vai demorar a aparecer hoje, o frio está cortante, atravessa a pele e chega aos ossos.
No momento, estou sendo embalada ao som do grande poeta, Dorival Caymmi, que eleva nossa alma em prosa e verso. Ouço a trilha sonora "Eu nasci assim, eu cresci assim, eu vivi assim, vou ser sempre assim,...". Canto junto, pois Grabriela é assunto conhecido. Foi novela. Quem lembra?
      O pensamento fervilhou em minha cabeça e repito mentalmente o verso"... eu vivi assim, vou ser sempre assim,...". Nascer, crescer, viver, mas, ser sempre assim é comodismo muito severo. Quem em sã consciência pode viver " assim" a vida toda?
     O parco tempo para viver já nos deixa estressados, imaginem " ser sempre assim, assim, assim." Seria o caos da vida.
     No entanto, pasmem, há pessoas, que são sempre " assim".
    - Assim, como ?
     Elas não se atrevem a olhar e enxergar o que acontece ao seu redor.Não lhes importa o que as pessoas estão sofrendo nem com as várias doenças que estão dizimando tudo, guerra, esse monstro destruidor a serviço dos interesses de grupos, ceifando nossas esperanças.
     Como pode alguém viver " assim", nessa destruição terrível? Dói-me pensar que pessoas vivem sempre " assim ".
     E, ainda há mais, elas não se abatem, jamais, pois decidiram nascer e viver assim.
     Resta-me a esperança de que o porvir nos venha com pessoas que desafiem o nosso querido poeta, Dorival Caymmi e queiram viver de maneira diferente e com coragem.
     Eu nasci assim, eu cresci assim, eu vivi assim, mas hoje, NÃO sou assim.

10 de ago. de 2013

Ode ao papai

O eco da palavra pai ressoa hoje em minha memória. 
- Pai... pai... - O eco se estende, reverbera.
Quanto tempo passou à minha revelia, se apenas cochilei por um momento.
Olho ao redor, tudo é silêncio. 
O trinco da porta não se mexe, fixo o olhar, mas nada acontece. Será que sonhei? Oh! É claro, cochilei e adormeci. 
 - Pai, cadê você?
Sento-me na poltrona, ao lado da porta para esperar por você, que vem sempre almoçar comigo. Enquanto te espero, minha mente me leva à infância. À noite, antes de dormir, meu pai ia, todas as noites, ajeitar as cobertas da cama da minha irmã e a minha, que sempre estavam no chão. Nas noites mais frias ele colocava mais acolchoado para que ficássemos bem quentinhas. Às vezes, eu o via saindo do quarto, pé por pé. Que tempo bom.
O final de semana era muito especial e terminava no domingo quando íamos assistir a dois filmes na matinê.
Ah! meu pai, alto, belo, magro, ágil, foi ciclista amador em sua mocidade.
Há muitos troféus, a bicicleta de muitos anos ainda está aqui. 
Nossa, eu estava cochilando mesmo, pois acordei assustada. Lembrei.
Meu amado pai já se foi para o mundo espiritual. O tempo passou.
Choro quietinha de saudade. 
- Ah, pai! Como seria bom poder abraçá-lo e, hoje, dia dos pais, dizer:
- Feliz dia dos pais!




7 de ago. de 2013

Melhor idade, será?



 Um ônibus estacionou em frente ao clube, não passava muito da hora do almoço.Fiquei abismado quando a porta abriu e começaram a descer pessoas idosas.Havia uma faixa colada na lateral do ônibus,na qual estava escrito "GRUPO DA MELHOR IDADE."
 Melhor idade?
Pensei eu,como?
 Deixei que a curiosidade me vencesse e me aproximei, perguntei ao motorista o que estava havendo, pois queria entender o que faziam ali, tantas pessoas, sob um sol escaldante e sendo orientados por quatro jovens. Minha curiosidade foi atendida e comecei a rir. O grupo de idosos, veio para um bingo e baile.
 Resolvi permanecer ali, pois já havia perdido a hora do dentista. Queria saber como pessoas tão dependentes iriam agir. Segui de perto um casal de velhinhos e percebi que eram namorados recentes e mais curioso, um auxiliava o outro em suas necessidades básicas.
  Não largavam as mãos. Ela então lhe perguntou:- Quer um docinho?
  Ele rapidamente, respondeu:-
-Não, pois não trouxe meu antiácido, mas você pode comer. Ela respondeu que não podia também, pois esquecera sua dentadura.
 -Então vamos tomar um refrigerante.
 Não podemos:- Disse ela:- Você sabe que não trouxemos fraldas descartáveis.- Ahhh! Disse ele.
 -Então vamos dançar, apenas um pouquinho. Ela mais que depressa disse:-
 -Velho, meu querido, você está muito esquecido, pois se dançarmos vamos fraturar algum osso. Lembra,que o dr.Júlio nos falou sobre a osteoo....osteoporose? - lembrou?
  -Sim, lembrei. E os dois " velhinhos", ficaram observando a turma que a seu modo se divertia.
  Fiquei olhando mais, foi quando a tristeza me abateu valendo, chegou a doer meu coração.
   Pensei -O que é " GRUPO DA MELHOR IDADE " ?
 O que vislumbrei foi um grupo de pessoas que esqueceu de viver com medo das doenças, das dores e principalmente devido a idade que têm. 
 Fui para casa mais triste ainda. 






5 de ago. de 2013

Dica de filme: O menino de Ouro

Superação, amor e fé, estes três ingredientes são o tempero que tornam o filme "O menino de ouro", deliciosamente degustável. 
O filme conta a história de um casal que, após um terrível acidente, o qual ocasionou a morte de seu filho, não consegue mais engravidar.
Um dia, o pequeno Eli, menino órfão, bate à porta do casal... e coisas boas começam a acontecer, inclusive um pequeno milagre no final do filme.




O porta-retratos

  Foto do google     Era quase uma da manhã, lembro-me que estava inquieta naquela madrugada, talvez pelo vento, que fazia o galho bater...