8 de nov de 2010

Ode ao burguês

 Crítica feita por um grande escritor do Modernismo à classe da burguesia.
Ode ao burguês é o nono poema e também, o mais famoso da obra Paulicéia Desvairada foi lido durante a Semana da Arte Moderna 1922.
Após sua leitura a platéia teve sobressaltos e espanto, com tanta evidência nos versos de Ode ao burguês, dirigidos obviamente a eles ( platéia ).
O poema caracteriza uma fase do Modernismo marcada pelo empenho na destruição de um passado literário, político e cultural.
É um texto revolucionário do Modernismo e, com o termo burguês designa-se geralmente o inimigo ou seja aquele que fica indiferente e permanece preso ao passado. Isola-se do mundo e fica escondido em sua redoma de vidro observando tudo ao seu redor, porém sem tocar ou modificar nada. Isto é, nada faz a não ser, cuidar de si mesmo. Mário de Andrade nos diz claramente com outras palavras Ode ao burguês ( Ódio ao burguês).
Desfrute...







Ode ao burguês


Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar... –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burgês!...

Mario de Andrade

Um comentário:

  1. Hoje encontrei este espaço de pura coisa boa,parece cachaça e dá boa...aquela que um gole apenas não te deixa parar,mas que também não te deixa tombar porque faz bem ao corpo e à alma e uma boa cachaça tem o mesmo efeito de uma leitura das boas,aqui encontei minha cachaça.
    Parabenizo pelos valiosos posts aqui registrados.Estarei com frequência aqui.
    Abraço!
    Rodrigo de Paula Neto.

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